segunda-feira, 3 de outubro de 2011

As obras dos Padres invocados por Jerónimo como crendo na virgindade perpétua não confirmam esta sua crença.


A doutrina da perpétua virgindade foi exposta pelo celibatário Jerónimo em 384, no seu tratado contra Helvídio. Com o auge do ascetismo e do monaquismo, tornou-se popular nos séculos seguintes.

A controvérsia entre Helvídio e Jerónimo sobre a virgindade perpétua teve lugar em 383, ou seja, mais de 300 anos depois da ascensão de Jesus.  

Um dos livros mais completos e documentados, escrito desde o ponto de vista católico, sobre o ensinamento dos primitivos cristãos acerca da Bem-aventurada Maria é a obra de José A. de Aldama, S.I., intitulada María en la patrística de los siglos I y II  (Madrid: BAC, 1970). No capítulo sobre a virgindade perpétua diz:

Durante a controvérsia surgida em Roma no ano 383 sobre a virgindade perpétua de Maria, ambas as partes contendentes acudiram ao testemunho da tradição anterior. Helvídio citou como defensores da sua própria posição, isto é, como contrários à virgindade post partum, Tertuliano e Vitorino de Pettau. São Jerónimo, admitindo o primeiro testemunho e negando o segundo, acrescentou outros mais antigos a favor da virgindade ...

[refere Inácio, Policarpo, Ireneu e Justino Mártir]
...

E no entanto, nas obras conservadas dos Padres citados não há modo de assinalar passagens concretas às quais pudesse referir-se São Jerónimo. Talvez aludisse ao modo com que ditos escritores designam Maria correntemente como a Virgem; epíteto dificilmente compreensível se tivesse deixado de sê-lo para passar a ser o modelo de uma mãe de família numerosa, como pretendia Helvídio. [1]

É claro que o facto de não ser possível assinalar textos expressos dos Padres do século II a favor da virgindade perpétua de Maria, também não significa que eles negassem essa prerrogativa da Mãe de Jesus.

(p. 225-226; negrito acrescentado)

Portanto, de acordo com o P. de Aldama, Tertuliano ensinou explicitamente contra a virgindade perpétua, facto que foi admitido inclusive por Jerónimo. Em contrapartida, não há testemunhos concretos que apoiem tal crença no século II.

NOTAS

[1] Vejamos alguns exemplos do segundo século...

"Maria, a mãe do Senhor" (Papias, c. 120)

"Jesus Cristo... descendia de David, e também de Maria" (Inácio de Antioquia, c. 105)

"Quando Maria o instou sobre o maravilhoso milagre do vinho e estava desejosa de participar do cálice de significação emblemática antes de tempo, o Senhor moderou a sua inoportuna pressa, dizendo: «Mulher, que tenho eu a ver contigo? A minha hora ainda não chegou». Ele aguardava aquela hora que era conhecida de antemão pelo Pai." (Ireneu de Lyon, c. 180)

"Capacitando [Jesus] para recapitular Adão de Maria" (Ireneu de Lyon, c. 180)

"Já provei que é a mesma coisa dizer que Ele meramente parecia manifestar-se e afirmar que não recebeu nada de Maria." (Ireneu de Lyon, c. 180)

"Mas, como parece, muitos mesmo até ao nosso próprio tempo consideram Maria, por causa do nascimento da sua criança, como tendo estado na condição puerperal, embora não o tenha estado. Pois alguns dizem que, depois de parir, se a achou ainda virgem quando foi examinada." (Clemente de Alexandria, c. 195)


"Em passagens subsequentes, o profeta evidentemente afirma que a virgem de quem convinha que Cristo nascesse deve derivar a sua linhagem da semente de David. Ele diz: «E nascerá um rebento da raíz de Jessé» - cujo rebento é Maria." (Tertuliano, c. 197)

É verdade que em muitas ocasiões a designam como «a Virgem Maria», mas isso ocorre regular e precisamente nas passagens que se referem à concepção virginal.

10 comentários:

  1. Gostaria algumas respostas sobre a doutrina da virgindade “post partun” de Maria!

    1- Algum pai da Igreja primitiva,a exceção de São Jerônimo,defendeu a virgindade perpétua de Maria ?

    2- Helvídio era um padre da Igreja primitiva ou um difusor de uma heresia como divulgam alguns blogueiros romanistas ?

    Outros blogueiros objetam que Maria estaria "traindo o Espírito Santo" ao manter relações sexuais com o seu marido José.Esta objeção não é somente falsa,mas é risível posto que santidade não implica total abstinência sexual!

    O apóstolo Pedro era casado,pois Jesus curou a sogra do mesmo,conforme relato das escrituras,portanto,estes "ensinamentos" divulgam a ideia de que santidade é ausência de sexo e não a separação do pecado com a ajuda divina!

    Não é possível tolher e refutar todas as heresias espalhadas na internet,porém é possível que os blogueiros romanistas melhorem o nível da apologética romana!

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  2. Essas citações atribuídas a Sto Agostinho como um crente na doutrina da virgindade pérpetua de Maria são verdadeiras ou estão descontextualizadas?

    Sto Agostinho cria na doutrina da virgindade post partun de Maria?

    http://www.bibliacatolica.com.br/blog/doutrina-catolica/os-irmaos-de-jesus-na-visao-dos-pais-da-igreja/

    Obrigado pelas respostas!

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  3. Dei uma vista de olhos nas citações de Santo Agostinho e elas não documentam a crença na virgindade perpétua de Maria mas apenas que Agostinho entendia que os irmãos de Jesus que aparecem nos Evangelhos eram na realidade seus primos e não seus irmãos de sangue. No entanto, é verdade que Agostinho adotou esta interpretação e a crença na virgindade perpétua seguindo Jerónimo.

    Para se orientar digo-lhe que qualquer padre anterior ao século V não defende a virgindade perpétua de Maria. Até esta data os únicos que sustentavam esta doutrina eram os autores anónimos dos evangelhos apócrifos.

    Depois de Jerónimo a partir do 400, é possível haver padres principalmente monges ou ligados ao monaquismo, a sustentar a virgindade perpétua. A entrada desta doutrina na igreja está ligada a preconceitos contra a sexualidade nascidos no meio das ordens ascetas e monásticas do século V em diante.

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  4. Reproduzo na íntegra a "argumentação" que recebi de um romanista sobre a doutrina da virgindade pérpetua!(Os "argumentos" foram retirados do site "São Luís de Monffort)

    Que Nossa Senhora permanecesse Virgem depois do parto de Jesus, era também muitíssimo conveniente, porque:

    1* Porque sendo Jesus, o Filho unigênito de Deus Pai -- o Verbo ou Sabedoria de Deus -- convinha que também na terra Ele fosse unigênito.

    2* Porque, se Ele tivesse tido irmãos carnais, pensar-se -ia que esses irmãos também seriam deuses, causando o politeísmo e heresia.

    3* Porque Deus fez um paraíso para Adão apenas. Fez um Paraíso para os homens no céu. E fez um Paraíso só para si, que foi Maria. É o que diz São Luis de Montfort.

    4* Porque convém absolutamente -- mais -- é necessário que Deus só tenha uma esposa, assim como é necessário que Ele tenha uma só Igreja. Por isso, assim também a esposa só pode ter um esposo. E Maria só devia ter um esposo real: o próprio Deus, e manter-se virgem por toda a vida.

    5* Porque era muito necessário, para nós, que fosse assim, para compreendermos o alto valor da Virgindade, pois que a Virgem mais fecunda, aquela que gerou em seu seio o próprio Deus encarnado, quis se manter Virgem, como deveremos nós prezar a virgindade e a pureza, nós que geramos filhos, sem valor, se comparados com o dela?

    6* Sempre existe semelhança entre mãe e filho. Também entre Nossa Senhora e Jesus deve haver semelhança maior do que a normal. Maria foi feita por Deus o quanto possível semelhante e proporcionada a seu Filho santíssimo. Como Jesus se manteve virgem sempre, convinha imensamente que Maria, também nisto, fosse proporcionada a Cristo, e permanecesse perpetuamente virgem.

    7* O matrimônio é monogâmico. Ora, se Maria tivesse tido filhos de outrem que não o Espírito Santo, seu Divino esposo, isso seria uma aberração, semelhante ao adultério. Esposa do Divino Espírito Santo uma vez, Maria devia se conservar sua esposa fiel sempre.

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  5. E você perde tempo com essas chachadas? Também se podia dizer que era muitíssimo conveniente ter só um filho porque alimentar vários era mais custoso e Maria era pobre. No campo das conjecturas e suposições cada um é livre de imaginar o que quiser.

    O que importa e fecha a questão é que para a Escritura e para os escritores cristãos dos primeiros 3 séculos a doutrina da virgindade perpétua de Maria é completamente desconhecida e não era muitíssimo conveniente. :)

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  6. Também era muitíssimo conveniente Jesus ter irmãos carnais para mostrar que a fidelidade a Deus estava acima até mesmo dos laços familiares.

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  7. As vezes eu perco o meu tempo refutando esses argumentos amadores,mas só te mostrei aqui para mostrar o nível dos argumentos e não a "profundidade teológica" dos mesmos!

    Gostaria de saber se estas opiniões dos pais da Igreja são legítimas?!

    Batismo Infantil

    Tertuliano (contra)

    Orígenes (a favor)

    Imaculada Conceição de Maria

    Anselmo, São Bernardo, papa leão I, papa Gregório, Inocêncio III (contra)

    Ireneu, Santo Efrém (a favor)

    Virgindade Perpétua de Maria

    Tertuliano, Hegesipo, Ireneu, Eusébio (contra)

    Jerônimo, Orígenes, Epifânio (a favor)

    Retiradas do site evangélico Sola Scriptura TT(Pastor Aírton-Brasil)deste excelente post!

    http://solascriptura-tt.org/Seitas/Romanismo/NemUnaNemApostolica-FalaciaUnidadeCatolica-EFigueiredo-PCristiano.htm

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  8. Há alguns erros aqui

    A prática do batismo infantil na igreja data de finais do século II e principios do III. Confirmo que Tertuliano era contra. Quanto Orígenes, ele vincula o benefício do batismo ao arrependimento, e uma vez que os bebés não se podem arrepender, por implicação lógica não podia ser a favor do batismo infantil.

    Quanto à imaculada conceição confirmo que Bernardo, o papa Gregório Magno e o papa Leão I eram contra (melhor dizendo escreveram de forma incompatível com ela). Aqui curiosamente foi esquecido os famosos Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino que negaram explicitamente a concepção imaculada de Maria.

    Quanto a Ireneu e santo Éfrem serem a favor é errado. Nenhum dos padres da igreja quer orientais ou ocidentais dos primeiros séculos é a favor da imaculada conceição. Esta doutrina só começa a ser falada entre os teólogos no segundo milénio.

    Quanto à virgindade perpétua de Maria, Tertuliano, Hegesipo, Ireneu, Eusébio, mais do que ser contra desconheciam tal doutrina na sua época.

    Quanto a Jerônimo, Orígenes, Epifânio serem a favor.

    Aqui também há pelo menos um erro. Orígenes não era a favor de tal doutrina, uma vez que escreveu coisas incompatíveis com ela.

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  9. Quanto a Helvídio tudo o que conhecemos dele é através do seu temível opositor, Jerónimo. Ambos eram membros da igreja católica antiga. Não vejo em que é que saber qual dos dois difundia mais heresias afeta os argumentos apresentados. Das palavras de Jerónimo ficamos a saber que ambos apelaram para a tradição para fundamentar as suas teses. Jerónimo apelou para diversos autores anteriores mas não pôde documentar o que dizia.

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  10. Sobre o porquê de Jerónimo defender a virgindade perpétua de Maria, este artigo explica muita coisa..

    http://www.ucp.pt/site/resources/documents/SCUCP/GaudiumSciendi/Revista_Gaudium_Sciendi_N5/06PedroFonseca-22Dezembro.pdf

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