19 de março de 2018

Poema para Galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.


António Gedeão (1906-1997)

2 de março de 2018

O "Não" Problema do Mal


O problema do mal geralmente assume a forma de um tétrade inconsistente:

i) Deus é omnipotente

ii) Deus é omnisciente

iii) Deus é benevolente

iv) O mal existe

Este problema costuma ser usado por ateus como argumento contra a existência de Deus. Um ateu tenta mostrar que estes pontos são mutuamente inconsistentes, gerando assim um dilema para o cristão. Para evitar a inconsistência, um cristão tem de prescindir de pelo menos uma das proposições. Mas, se (i-iii) não são negociáveis, o seu sistema de crenças falha. Como é um sistema de tudo ou nada, se for inconsistente em qualquer ponto, tem que abandonar-se a totalidade.

Mas um problema com o argumento do mal é que ele ataca uma versão muito abstrata de teísmo. Algo derivado da teologia filosófica. Teísmo clássico ou teologia do ser perfeito.

Normalmente, o argumento do mal não é formulado em referência a uma religião histórica viva, como o judaísmo do AT ou o cristianismo do NT.

Por exemplo, seria muito mais difícil mostrar que o argumento do mal refuta a existência de Yahweh, uma vez que Yahweh não é "benevolente" no sentido em que os ateus normalmente definem a benevolência ao formular o argumento do mal. Na verdade, muitos incrédulos rejeitam o teísmo bíblico porque pensam que Yahweh, Jesus e/ou Deus, o Pai, não é benevolente como eles veem a benevolência. Eles ficam melindrados com várias ações divinas, ordens e proibições na Escritura.

Mas aonde isso leva o argumento do mal? Se, pela sua própria admissão, o teísmo bíblico não se conforma com as suas noções preconcebidas de benevolência, então a existência do mal está em consonância com a existência de uma Deidade como essa.

Além disso, a existência do mal é uma pressuposição necessária do teísmo bíblico. Se vivêssemos num mundo desprovido de mal moral e natural, a ausência, em vez da presença do mal, falsificaria a descrição bíblica da realidade. A história da Bíblia está repleta de mal. A salvação e o juízo escatológico são o remédio final.

3 de fevereiro de 2018

OS FINAIS DO EVANGELHO DE MARCOS


Os manuscritos gregos e de antigas versões (traduções) do Novo Testamento apresentam cinco finais diferentes para o Evangelho de Marcos, a saber:

1. Alguns finalizam no versículo 16:8 e simplesmente omitem os vv. 9-20: “Elas saíram fugindo do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. São assim os códices Sinaítico e Vaticano, L*, o manuscrito k da Antiga Versão Latina, a Siríaca sinaítica, e diversos manuscritos das versões antigas arménia, georgiana e etíope. Eusébio e Jerónimo notaram que a maioria dos manuscritos gregos que conseguiram examinar careciam do final longo. Aparentemente, nem Clemente nem Orígenes conheceram tal final. Finalmente, ainda alguns dos manuscritos que o possuem, apresentam observações ou marcas dos escribas indicando que se trata de uma adição.

2. Outros acrescentam o seguinte texto: “Mas [as mulheres] relataram resumidamente a Pedro e aos que estavam com ele tudo quanto lhes tinha sido dito. E depois disto o próprio Jesus enviou por meio deles, do Oriente ao Ocidente, a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”. Entre eles apenas este versículo no códice Bobbiensis (k) do século IV ou V.

3. Ainda outros intercalam o versículo acima citado antes do final longo (16:9-20) em unciais dos séculos VII ao IX (L, Psi, 099, 0112), alguns minúsculos e cópias de versões antigas.

4. Muitos manuscritos contêm o final longo que inclui os versículos 9-20, alguns com o acréscimo do texto recém-mencionado. É o que se encontra no chamado Textus Receptus, e é atestado pelos unciais A C D L W Delta Sigma Theta 047, pela maioria dos manuscritos minúsculos e da Antiga Latina, da Vulgata, da siríaca curetoniana e Peshitta (“vulgata” siríaca), e da versão copta. Além de outros testemunhos posteriores, Ireneu e Hipólito o conheciam; aparentemente é citado pela Epistula Apostolorum e Taciano o incluiu na sua harmonia ou Diatessaron de finais do século II.

5. Finalmente, existe uma versão ampliada do final “longo” que imediatamente depois do versículo 14 (“..porque não haviam crido nos que o tinham visto já ressuscitado”) acrescenta: “E eles se desculparam dizendo «Esta era de iniquidade e incredulidade está debaixo de Satanás, que não permite que a verdade e o poder de Deus prevaleçam sobre a impureza dos espíritos. Portanto, revela agora a tua justiça». Assim falaram a Cristo. E Cristo lhes respondeu, «O fim de anos do poder de Satanás se cumpriu, mas outras terríveis coisas se aproximam. E por aqueles que pecaram eu fui entregue à morte, para que possam voltar à verdade e não pecar mais; para que possam herdar a glória espiritual e incorruptível de justiça que está no céu»”. Esta adição foi notada por Jerónimo, e é atestada pelo códice W adquirido em 1906 por Charles L. Freer, que data da última parte do século IV ou princípios do seguinte.

É claro que, nem todos estes finais têm o mesmo peso. É extremamente improvável que Marcos, com seu estilo simples, tenha escrito algo tão altissonante como “a sagrada e imperecível proclamação da salvação eterna”, ou “a glória espiritual e incorruptível de justiça”, expressões que delatam influências helenistas posteriores. Este facto, somado ao número e idade dos testemunhos, praticamente isenta de maiores considerações os finais listados (2) (3) e (5).

Apesar de alguns terem sustentado – por exemplo Lohse, p. 144-145 - que o Evangelho finalizava originalmente no versículo 8, isto também é pouco provável, em parte porque constitui um final anticlimático, muito pouco apropriado para concluir “o evangelho de Jesus Cristo” (1:1).

Mais importante é a evidência fornecida pela última cláusula do versículo 8, “porque tinham medo” (grego efobounto gar). Metzger nota que “de um ponto de vista estilístico, terminar uma frase grega com a palavra gar é extremamente incomum e raríssimo – só se acharam relativamente poucos exemplos em toda a vasta gama de obras literárias gregas, e não se achou nenhum caso no qual gar se encontre no final de um livro. Mais ainda, é possível que no versículo 8 Marcos use o verbo efobounto para significar «estavam assustadas com...» algo (como o faz em quatro das outras aparições deste verbo no seu Evangelho [ver Marcos 9:32, 11:32, 12:12 e especialmente 11:18, “efobounto gar auton”, eles o temiam]). Em tal caso, obviamente é preciso algo para concluir a frase” (p. 228). Em suma, estes factos sugerem que falta algo do que Marcos originalmente escreveu, e que tal ausência motivou mais tarde a aparição de diferentes conclusões.

A versão que aparece nas nossas Bíblias como os versículos 16:9-20 também não parece a original, apesar de ser atestada por muitos manuscritos. Para começar, há uma transição muito abrupta entre o v. 8 e o 9; o sujeito do primeiro versículo (8) são as mulheres, enquanto Jesus é obviamente o sujeito no segundo (9). No entanto, no texto grego o sujeito está tácito: “E tendo ressuscitado cedo no primeiro [dia] da semana, apareceu primeiro a Maria a Madalena...” Este facto não é evidente em muitas versões em português porque os tradutores incluem habitualmente o nome de Jesus nesta frase.

Em segundo lugar, no v. 9 se fala de Maria Madalena como se não tivesse sido mencionada antes, quando já se falou dela no relato marcano da crucificação, sepultura e ressurreição. O resto das mulheres desaparece da cena, ainda que tivessem sido comissionadas para relatar a ressurreição no v. 7. No mesmo versículo o anjo anuncia que verão Jesus na Galileia, mas as manifestações do Ressuscitado dão a impressão de ocorrer na área de Jerusalém; pelo menos, não é mencionada a Galileia.

O estilo destes versículos difere também da linguagem habitual de Marcos. Das 101 palavras gregas dos versículos 9-20, há 75 significativas (excluídos conjunções, artigos e nomes próprios), das quais 15 não aparecem no resto do Evangelho e 11 que aparecem, usam-se com um sentido diferente. Mesmo considerando a diferença do tema, a linguagem se apresenta prima facie como não própria de Marcos.

Também não há no resto do segundo Evangelho nenhuma recriminação tão severa como a indicada no versículo 14. Por outro lado, a promessa de imunidade diante das serpentes e do veneno não só é alheia a Marcos, mas aos outros três evangelhos, e ao resto do Novo Testamento.

Há quem pense que os versículos 9-20 são uma tentativa de harmonizar o relato de Marcos com os dos outros Evangelhos canónicos; são desta opinião por exemplo Bruce e Linnemann (citado por Kümmel). Por outro lado tal “conclusão foi contestada, com muito acerto” (Leon-Dufour), por Joseph Hug, numa tese doutoral publicada em 1978. Esta análise literária indicaria que os versículos 9-20 seriam um acréscimo original que deve datar-se entre finais do século primeiro e antes de meados do segundo (Metzger, p. 297). O acréscimo teria tido como propósito fornecer instruções missionárias à comunidade cristã de fala grega com tendências carismáticas. Deste ponto de vista, Marcos 16:9-20 seria um testemunho muito primitivo proveniente da Igreja subapostólica.

Em suma, considerada toda a evidência, aparentemente o texto autêntico e original de Marcos, tal como este Evangelho foi conservado, termina em 16:8. Portanto, não é prudente basear doutrinas nos versículos 9-20.


Bibliografia

Bruce, Frederick Fyvie: Answers to questions. The Paternoster Press, 1972 (p. 155).

Kümmel, Werner Georg. Introduction to the New Testament. Rev. English Ed. Trad. Howard Clark Kee. Nashville: Abingdon Press, 1975 (p. 98-101).

Ladd, George Eldon. Crítica del Nuevo Testamento: Una perspectiva evangélica. Trad. Moisés Chávez. El Paso: Mundo Hispano, 1990 (p. 56-59).

Leon-Dufour, Xavier. Los evangelios sinópticos. Em Augustin George e Pierre Grelot (Dirs.), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. J. Cabanes e M. Villanueva. Barcelona: Herder, 1982 (pp. 293-295).

Metzger, Bruce M. The text of the New Testament: Its transmission, corruption and restoration, 3ª Ed. New York: Oxford University Press, 1992 (p. 226-228, 296-297).

Wessel, Walter W.. Mark. Em Frank E. Gaebelein (Gen.Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984 (8:791-793).

19 de novembro de 2017

Uma sucessão apostólica… inverificável


Afirma a New Catholic Encyclopedia:

«Deve admitir-se francamente que o viés ou deficiências nas fontes torna impossível determinar, em certos casos, se os pretendentes eram papas ou antipapas... Os autores calculam variavelmente o número de antipapas: Baümer conta 33 colocando três outros entre parêntesis como papas legítimos; Amanieu, 34; Frutaz, 36 mais alguns duvidosos e nove designados impropriamente; Moroni, 39. Desde 1947 o Anuário Pontifício do Vaticano tem publicado a lista de papas de Mercati que inclui 37 antipapas no texto. Todas as listas estão sujeitas a reservas, e o catálogo Mercati tem provocado divergências».

New Catholic Encyclopedia (CUA, 2nd ed., 2003), 1:530b.

Portanto, se a sucessão apostólica servisse para alguma coisa, a igreja hoje estaria numa situação de impraticabilidade, sem saber exatamente quem são os legítimos sucessores dos apóstolos, uma vez que é impossível determinar a validade da sucessão apostólica que os bispos reclamam.

Por exemplo, o atual papa Francisco pode descender tanto de uma linha válida como inválida da sucessão apostólica. Simplesmente não há possibilidade de saber.

Quando alguém diz que o papa Francisco é o sucessor de Pedro, através de uma linha ininterrupta de bispos, faz uma afirmação no vazio que não pode de modo algum ser sustentada documentalmente. É um completo salto no escuro.

O caricato é que as prerrogativas atribuídas ao papa, incluindo a sua infalibilidade ex cathedra, dependem da validade da sua sucessão apostólica, a qual não só não pode ser determinada infalivelmente, como é mesmo impossível determiná-la através dos dados da história. 

15 de novembro de 2017

Arqueologia Bíblica


Mais uma forte evidência da confiabilidade geral do Texto Massorético aqui

Dezenas de artigos sobre Arqueologia Bíblica podem ser encontrados aqui:

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/0

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/1

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/2

http://protestantedigital.com/l/tag/Arqueologia/3

7 de novembro de 2017

FÉ NA BÍBLIA OU FÉ CEGA NO MAGISTÉRIO?


A Igreja Católica Romana está dividida entre o Magistério, constituído pelo clero, principalmente o Papa e os bispos em comunhão com ele, e os Leigos que são os crentes comuns. Os Leigos estão obrigados a acreditar no que o Magistério ensina, porque o Magistério é considerado a voz autorizada da verdade. Esta situação cria uma bizarria epistemológica na relação entre Leigos e Magistério, uma vez que o leigo vê os ensinos do Magistério como leis a ser obedecidas juridicamente.

Em questões do âmbito da «verdade» isto redunda no absurdo de para um leigo a verdade ser estabelecida «por decreto» do Magistério. Os Leigos estão como num estado niilista. A única forma de chegarem ao conhecimento de uma verdade de fé e moral é através do ensino do Magistério.

No caso particular da Bíblia é comum os leigos católicos, mais aqueles doutrinados pelos sites de apologética católica, dizerem que acreditam na Bíblia porque a “Igreja”, leia-se Magistério Romano, manda acreditar na Bíblia, ou que acreditam na inspiração da Bíblia porque o Magistério diz que os livros da Bíblia são inspirados, só e apenas por isto. Na cosmovisão de um leigo não há outra forma de dar crédito à Bíblia ou de saber que a Bíblia é inspirada por Deus a não ser «por decreto» do Magistério. Ou seja, a confiabilidade e a inspiração da Bíblia é estabelecida «por decreto», não interessa se o Magistério tem bons ou maus argumentos, aliás, está fora do alcance do leigo ajuizar se os argumentos do Magistério são bons ou maus.  

Por exemplo, este católico, com quem tive um breve diálogo, além de se ter suicidado epistemologicamente à segunda mensagem, nem sabe que o fundamento do seu Magistério para ensinar que os livros da Bíblia são sagrados e canónicos, é porque os considera inspirados por Deus. Para ele, os livros da Bíblia são sagrados e canónicos, porque simplesmente o Magistério diz que são. E, na verdade, para o leigo católico o fundamento que o Magistério possa ter para ensinar uma doutrina é irrelevante. O que conta é o «ditame» do Magistério. Não é por acaso que acreditam em coisas tão infundadas como a imaculada conceição, a transubstanciação, ou a infalibilidade papal.  

Estamos, portanto, perante uma situação epistemologicamente bizarra que conduz a uma equivocada visão do que é a Bíblia por parte do leigo.

A Bíblia não é um documento legal emitido por uma autoridade eclesiástica, que confere «por decreto» autoridade àqueles determinados livros que doutra forma não a teriam, e a que se tem que obedecer por força de lei.

A Bíblia são relatos históricos, ensinamentos e testemunhos de vários autores transmitidos ao longo de gerações que nós recebemos e aos quais podemos dar crédito ou não - sim, podemos, a razão e os sentidos ajudam-nos a discernir a verdade e a dar passos de fé plausíveis, o niilismo filosófico não é cristão. Uma vez dado crédito ao conteúdo da Bíblia, segue-se logicamente que temos de considerá-la como inspirada por Deus, porque ela mesma reclama ser de origem divina. A seguir, a experiência pessoal e o testemunho do Espírito Santo no crente também lhe confirmam a sua inspiração divina.

Na vida real podemos observar que quando uma pessoa recebe uma Bíblia, ela vai considerá-la autorizada ou não, na medida em que achar o seu conteúdo confiável, e segundo o que ela vai experimentar através dela na sua vida, e não porque um grupo qualquer no passado, que ela nem conhece, «decretou» que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus. Seria realmente absurdo que tal pessoa acreditasse que a Bíblia tem autoridade e é inspirada por Deus só e por este motivo. Implicaria acreditar que a verdade se estabelece «por decreto».

Portanto, para o crente na Bíblia, ela tem uma autoridade intrínseca que vem do seu autor e não depende de sanção humana em geral nem eclesiástica em particular.

Em suma, a autoridade da Bíblia é independente da autoridade da Igreja. Ser verdadeira é a única condição necessária e suficiente para a Bíblia ter autoridade. É a verdade que é autoritativa e obriga.

Os cristãos confessam a Bíblia, exercem fé nela e proclamam a sua verdade, não obedecem ex nihilo a um magistério eclesiástico autocrático.

5 de novembro de 2017

LUTERO E A CIÊNCIA


Os seguintes extratos são do artigo intitulado "Lutero e a Ciência" de Donald Kobe, professor de física na Universidade do Texas:

Sem a Reforma, a ciência moderna se teria provavelmente desenvolvido mesmo assim por causa do ethos da racionalidade e da doutrina da criação que conduz a ela. A Reforma, porém, acelerou o desenvolvimento pela sua crítica do escolasticismo e pela sua ênfase na observação direta da natureza. Lutero foi chamado o Copérnico da teologia enquanto, por outro lado, Copérnico foi chamado o Lutero da astronomia... Na filosofia natural ou ciência, as perguntas acerca da natureza já não se respondiam primariamente mediante citações de Aristóteles e dos escolásticos, mas atentando para a observação e para a experimentação na própria natureza. Similarmente, depois da Reforma, os protestantes já não respondiam perguntas de teologia primariamente através da citação de filósofos e teólogos escolásticos, mas voltando-se diretamente para a Bíblia. Lutero interpretou a Escritura perguntando: Qual é o significado claro e direto do texto? Os cientistas interpretam a natureza da forma mais simples possível usando o mínimo número de hipóteses.

Lutero acreditava que o mundo estava no começo de uma nova era, a qual traria não somente uma reforma na religião mas também um novo apreço pela natureza. Nas suas informais “Conversas à Mesa” disse:

«Estamos no amanhecer de uma nova era, pois estamos começando a recuperar o conhecimento do mundo externo que foi perdido pela queda de Adão. Agora observamos apropriadamente as criaturas... Mas pela graça de Deus já reconhecemos na mais delicada flor as maravilhas da divina bondade e omnipotência [paráfrase de Romanos 1:20]».

Lutero estava aberto aos autênticos avanços científicos da sua época. Apreciava as invenções mecânicas do seu tempo.

Aceitou o uso de medicamentos para tratar as doenças ... A alguém que disse que não é permissível para um cristão usar medicamentos, Lutero lhe replicou retoricamente, “Você come quando está esfomeado?” Segundo Andrew White, esta atitude de Lutero fez que as cidades protestantes da Alemanha estivessem mais dispostas do que outras a admitir a investigação e dissecção anatómica.

Lutero aceitou a astronomia como ciência, mas rejeitou a astrologia como uma superstição pois não pode ser confirmada por uma demonstração... por exemplo, Lutero estava disposto a aceitar a conclusão dos astrónomos de que a lua é o mais pequeno e baixo dos “astros”. Interpretava a Escritura que chamava o sol e a lua “grandes luminárias” como acomodada à aparência dos fenómenos.
...
Em conclusão, a influência luterana sobre o desenvolvimento da ciência foi geralmente positiva. Lutero, e também Calvino, rejeitaram a ideia de que as vocações religiosas são superiores às seculares. Os homens e as mulheres devem servir a Deus realizando um trabalho honesto e útil com diligência e integridade. O trabalho científico revela a obra de Deus num universo que é tanto racional como ordenado. Também proporciona resultados que podem ser usados para o benefício da humanidade.
...
Lutero não estava primariamente interessado na ciência. Mas a Reforma criou um clima de abertura e aceitação de novas ideias, que em geral alentaram o desenvolvimento científico. Depois do julgamento de Galileu em 1633, as áreas protestantes da Europa dominaram os descobrimentos científicos [Owen Gingerich, "The Galileo Affair", Scientific American 247 (August 1982): 132-143].

http://www.leaderu.com/science/kobe.html

31 de outubro de 2017

O JUSTO VIVERÁ PELA FÉ


Pouco antes de morrer, em 1545, Lutero publicou a edição latina dos seus escritos, e no prefácio descreveu a sua experiência de descoberta da maravilhosa graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, como Paulo a anunciava aos Romanos. Eis o testemunho pessoal de Lutero:

«Naquele ano (1519) voltara a interpretar os Salmos, e pensava estar melhor preparado por ter entretanto comentado as Epístolas aos Romanos, aos Gálatas e aos Hebreus. Desejava ardentemente entender bem uma expressão usada na Epístola aos Romanos, no primeiro capítulo, onde está dito: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho’; porque até então a considerava com terror. Esta expressão: ‘justiça de Deus’ eu a odiava, porque o costume e o uso que fazem habitualmente dela todos os doutores me tinha ensinado a entendê-la filosoficamente. Entendia a justiça que eles chamam formal ou ativa, aquela pela qual Deus é justo e pune os culpados. Apesar da irrepreensibilidade da minha vida de monge, sentia-me pecador diante de Deus; a minha consciência estava extremamente inquieta, e não tinha alguma certeza que Deus fosse aplacado pelas minhas obras satisfatórias. Por isso não amava esse Deus justo e vingador, antes, o odiava, e se não o blasfemava em segredo, certamente me indignava e murmurava violentamente contra ele, dizendo: “Não basta que nos condene à morte eterna por causa do pecado dos nossos pais, e que nos faça sofrer a severidade da sua lei? É preciso ainda que aumente o nosso tormento com o Evangelho, e que também nele nos anuncie a sua justiça e a sua cólera?” Estava fora de mim, de tão perturbada que estava a minha consciência; e refletia sem trégua essa passagem de São Paulo, desejando ardentemente saber o que São Paulo tinha querido dizer. Finalmente, Deus teve compaixão de mim. Enquanto meditava dia e noite e examinava a conexão destas palavras: ‘A justiça de Deus é revelada no Evangelho como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’, comecei a compreender que a justiça de Deus significa aqui a justiça que Deus doa, e por meio da qual o justo vive, se tem fé. O sentido da frase é pois este: o Evangelho nos revela a justiça de Deus, mas a justiça passiva, por meio da qual Deus, na sua misericórdia, nos justifica mediante a fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’. Imediatamente me senti renascer, e me pareceu que se escancararam para mim as portas do paraíso. Desde então a Escritura inteira ganhou para mim um significado novo. Percorri os textos como a memória mos apresentava, e notei outros termos que se deviam explicar de modo análogo, como a obra de Deus, isto é, a obra que Deus faz em nós, o poder de Deus, mediante o qual ele nos dá força, a sabedoria pela qual nos torna sábios, a salvação, a glória de Deus. Quanto tinha odiado o termo: ‘justiça de Deus’, outro tanto o amava agora, exaltava essa dulcíssima expressão. Assim essa passagem de São Paulo tornou-se para mim a porta do paraíso. Em seguida li o De spiritu et littera de Agostinho, e inesperadamente observei que interpreta a “justiça de Deus” de modo totalmente análogo, isto é, que entende a justiça da qual Deus nos reveste justificando-nos. E se bem que ele se exprima ainda num modo imperfeito, e não explique claramente tudo aquilo que diz respeito à imputação, tive a alegria de constatar que ensinava a entender, que a justiça de Deus é aquela pela qual somos justificados. Melhor preparado por todas estas reflexões, comecei pela segunda vez a interpretação dos Salmos […]»

(W.A. D. Martin Luthers Werke, Kritische Gesamtausgabe, Weimar, 1883-1983, 54, 185-186)

16 de outubro de 2017

"30 mártires" do colonialismo esclavagista


Foi ontem noticiado que o “Papa proclamou um novo santo português”.

Supostamente, no Brasil a 3 de outubro de 1645o sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, foi morto durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas.

“perseguições anticatólicas, por tropas holandesas”??? A sério?

e que “a chegada dos holandeses, de religião calvinista, provocou “a restrição da liberdade de culto para os católicos”, contexto em que se verifica o martírio dos futuros santos.” A sério? Não havia no contexto da época conflitos político-sociais?

Que poder tinham os holandeses para restringir a liberdade de culto em território sob jurisdição portuguesa?

Imediatamente salta à vista que nesta história há algo muito mal contado.

É bastante estúpido apresentar os holandeses como autores de tais atos. Nada podia ser pior naquela altura para os holandeses do que um evento que acicataria ainda mais os ânimos dos colonos portugueses contra o governo holandês. Além disso, os holandeses eram conhecidos pela sua tolerância religiosa rara para a época.

Vejamos o que diz alguma historiografia séria sobre os holandeses da época dos acontecimentos:

“Durante essa época, a Igreja Reformada holandesa formou-se e se tornou proeminente. Conhecida por sua tolerância com outros grupos religiosos, inclusive católicos...” (COLLINS, Michael; PRICE, Matthew A. História do Cristianismo: 2000 anos de fé. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p. 141)

“Já nesse tempo [c. 1660], Nova York ou Nova Amsterdam como era então chamada, era uma cidade cosmopolita. Além de holandeses havia na cidade povos de muitas nações que tinham as mais diferentes organizações religiosas, pois o governo holandês permitiu ampla liberdade de culto. Havia huguenotes, puritanos da Nova Inglaterra, presbiterianos escoceses, luteranos suecos e alemães, católicos romanos e judeus” (NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960, p. 264)

“Guilherme de Orange havia resistido à transformação da revolta contra a Espanha numa cruzada religiosa e esforçou-se para criar um ambiente tolerante na República Holandesa. Em consequência, luteranos, menonitas, várias seitas e até católicos conseguiram estabelecer seus próprios serviços religiosos” (LINDBERG, Carter. Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001, p. 366)

“[Os holandeses] não perseguiam pessoa alguma por opiniões religiosas”(CANTÚ, Cesare. História Universal – Vigésimo Segundo Volume. São Paulo: Editora das Américas, 1954, p. 21)

“Depois da sua independência total da Espanha, reconhecida em 1648, reina nos Países Baixos uma grande tolerância religiosa e filosófica. Numerosos teólogos e filósofos, perseguidos noutros países, aqui procuram refúgio, entre os quais Descartes e Espinosa, contribuindo bastante para o brilho intelectual e cultural deste país” (HERMAN, Jacques. Guia de história universal. Lisboa: Edições 70, 1981, p. 145)

“A Holanda acabava de reconhecer Guilherme por estatúder, proclamando a liberdade de culto igual para protestantes e para católicos (15 de julho de 1572)” (BLEYE, Pedro Aguado. Manual de Historia de España, Tomo II: Reyes católicos – Casa de Austria (1474 – 1700). 7ª ed. Madrid: ESPASA-CALPE, S. A., 1954, p. 633-634)

Cabe na cabeça de alguém que os holandeses, que no seu próprio país distinguiam-se pela sua tolerância religiosa, de repente tornam-se em terra estrangeira, e onde estão em minoria, intolerantes religiosos da pior espécie capazes de cometer as maiores atrocidades?

Além de que “tropas holandesas” não é sinónimo de “protestantes holandeses”. Nem todos os holandeses eram protestantes calvinistas. Também havia holandeses de outras religiões inclusive católicos.

A razão de nesta história aparecerem as “tropas holandesas” misturadas com os índios (sem qualquer evidência documental), é para que possa ser possível atribuir ao massacre uma motivação religiosa e esconder o verdadeiro motivo da chacina. De facto, apresentar os índios sozinhos como autores de um massacre motivado por um sentimento anticatólico seria completamente inverosímil. E, por isso, junta-se os holandeses à narrativa.

Contudo, o verdadeiro motivo do massacre foi a vingança e o medo dos índios pela escravatura e maus-tratos sofridos dos colonos portugueses, que nas palavras do padre António Vieira, não percebiam que um índio não é um negro. Nada tem a ver com perseguições anticatólicas. Aqueles colonos foram mortos porque eram hostis às tribos indígenas praticando a escravatura dos índios (e dos negros) e não porque eram católicos.

É compreensível que a Igreja católica prefira ser vítima de “holandeses calvinistas” do que de índios primitivos em território sob jurisdição de portugueses “católicos” (segundo a notícia). Assim esconde a verdadeira motivação do massacre e denigre os seus adversários de uma assentada. Mas não é a opção mais honesta.

Canonizem os santos e mártires que quiserem mas não denigram terceiros nem branqueiem a História. Não dignifica a instituição de que fazem parte nem honra quem pretendem “elevar aos altares”.


P.S. Um agradecimento ao Lucas Banzoli pela pesquisa bibliográfica :)

14 de outubro de 2017

A VITÓRIA DO PAGANISMO SOBRE A IGREJA


J.B. Bury, célebre historiador e académico classicista, afirma:

"Em cem anos o Império transformara-se de um estado em que a imensa maioria dos habitantes era devotada a religiões pagãs, num em que um Imperador podia dizer, com grande exagero, mas sem absurdo manifesto, que não sobreviveu um pagão. Tal mudança não se concretizou pela mera proibição e repressão. Não é exagero afirmar que o sucesso da Igreja na conversão do mundo gentio nos séculos IV e V foi devido a um processo que pode ser descrito como uma transmutação pagã do próprio Cristianismo. Se as crenças Cristãs e o culto tivessem sido mantidos inalterados na simplicidade inicial do seu espírito e forma, pode muito bem questionar-se se um período muito mais longo teria sido suficiente para cristianizar o Império Romano. Mas a Igreja permitiu um compromisso. Todas as religiões da época tinham em comum uma bruta superstição, e a Igreja não encontrou nenhuma dificuldade em oferecer aos convertidos crenças e cultos semelhantes àqueles a que eles estavam acostumados. Foi um problema relativamente pequeno que incenso, velas e flores, os acessórios de vários cerimoniais pagãos, fossem introduzidos no culto Cristão. Foi uma jogada importante e feliz para incentivar a introdução de um politeísmo disfarçado. Uma legião de santos e mártires substituiu a antiga legião de deuses e heróis, e o pagão hesitante podia gradualmente reconciliar-se com uma religião, a qual, enquanto lhe roubou a sua divindade protetora, a quem estigmatizou como um demónio, permitiu-lhe em compensação o culto de um santo protetor. Uma nova e banal mitologia foi criada, de santos e mártires, muitos deles fictícios; os seus corpos e relíquias, capazes de operar milagres como os que costumavam acontecer junto dos túmulos dos heróis, estavam constantemente a ser descobertos. O devoto de Atena ou Isis podia transferir o seu tributo para a Virgem Mãe. O marinheiro ou pescador Grego, que costumava orar a Poseidon, podia invocar São Nicolau. Aqueles que cultuavam em altares de pedra de Apolo no topo de colinas podiam demonstrar a mesma fidelidade a São Elias. O calendário dos aniversários Cristãos correspondia em muitos pontos aos calendários dos festivais Gregos e Romanos. As pessoas podiam mais facilmente aceitar a perda das celebrações pagãs relacionadas com o solstício de inverno e o equinócio vernal, quando encontravam as alegres celebrações da Natividade e da ressurreição associadas com essas épocas, e podiam transferir alguns dos seus antigos costumes para as novas festas. A data da Natividade foi fixada para coincidir com o aniversário de Mitra (natalis Invicti, 25 de dezembro), cuja religião tinha muitas afinidades com o Cristão. Este processo não foi o resultado, em primeira instância, de uma política deliberada. Foi um desenvolvimento natural, pois o Cristianismo não podia escapar da influência das ideias que eram correntes no seu ambiente. Mas ele foi promovido pelos homens de posição e liderança na Igreja."

(J.B. Bury, History of the Later Roman Empire, Macmillan & Co., Ltd, Vol. I Cap. XI, pg. 373)


http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/BURLAT/11*.html#3

30 de setembro de 2017

Jesus e a Bíblia


Como foi nos dias de Noé, assim também será na vinda do Filho do homem. Pois nos dias anteriores ao dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem.

Mateus 24:37-39

Se Noé não é uma personagem histórica e o dilúvio nunca aconteceu, estas palavras de Jesus perdem toda a força e sentido. Podia-se dar muitos mais exemplos como este que mostram que a credibilidade de Jesus está intimamente ligada à credibilidade da Bíblia. 

Jesus é o Messias prometido se os profetas e as profecias do AT forem verdadeiros. O NT é verdadeiro se o AT for verdadeiro. 

Alguns tentam dissociar Jesus da Bíblia, apreciando-o, desejando tê-lo ao seu lado e até invocando-o como autoridade, mas ao mesmo tempo depreciam e descredibilizam a Bíblia. Isso é uma completa tolice. É a Bíblia que dá testemunho de Jesus. Se a Bíblia é falsa Jesus é um louco ou um charlatão, se a Bíblia é verdadeira Jesus é o Filho de Deus. Se a Bíblia cai, Jesus cai junto com ela.

24 de setembro de 2017

A PRIMAZIA «PETRINA» NOS SÉCULOS II, III, IV, V E VI


A primazia «petrina» tal como a entende a Igreja Católica Romana é uma doutrina falsa que só conseguiu impor-se depois do Cisma entre Oriente e Ocidente. Roma definiu ela própria tal primazia, e claro está, somente ela crê nela.

Nos primeiros séculos da Igreja a sede romana era tida por muito excelente, e inclusive como a primeira entre iguais (primado de honra) mas não tinha autoridade sobre outras sedes patriarcais como Bizâncio, Alexandria, Antioquia, etc.

No século II, quando o bispo romano Vítor quis impor a sua opinião acerca da páscoa, foi repreendido tanto pelos asiáticos como por Ireneu.

No século III, quando o bispo romano Estêvão quis impor a sua opinião sobre o batismo dos hereges foi rejeitado frontalmente por Cipriano à cabeça dos bispos africanos e por Firmiliano à frente dos asiáticos.

No século IV o bispo de Roma Libério foi censurado pela Igreja universal por assinar uma confissão de fé ariana (testemunhos de Atanásio, Hilário de Poitiers, Jerónimo, Hermas Sozómeno, Faustino e Marcelino).

No século V o bispo de Roma Zósimo considerou ortodoxos Celéstio e Pelágio, e teve que ser corregido pelos bispos africanos. Também lhe foi negado o direito de ouvir apelações, pelo que esgrimiu um cânon de Niceia, que na realidade era do Concílio local de Sárdica.

No século VI reuniu-se o Concílio II Constantinopla, considerado o V Concílio Ecuménico, Vigílio era o bispo de Roma, e tal Concílio reuniu-se “sem a sua presença, e inclusive, apesar do seu protesto”, nas palavras do Professor Hubert Jedin.

Se a alguém parece que isto não demonstra que os bispos de Roma não possuíam pelo menos até ao século VI uma autoridade superior à de outros bispos, e que não tinham de modo algum a primazia de jurisdição e ensino que hoje a Igreja romana lhes atribui, é porque está cego à evidência histórica.

15 de setembro de 2017

Uma Confissão Católica Reformada


Tratando deliberadamente alguns pontos doutrinais de forma vaga e usando terminologia ambígua, qualquer igreja do universo "evangélico" é capaz de subscrever esta confissão de fé ecuménica elaborada recentemente. Como alguém disse "o diabo está nos detalhes".



20 de agosto de 2017

As 97 teses esquecidas


O ano de 1992 foi o 475º aniversário da afixação de Lutero das 95 Teses na porta da igreja em Wittenberg. A publicação dessas teses em 31 de outubro de 1517 é habitualmente considerado como o início da Reforma Protestante. O ataque de Lutero a aspectos da venda de indulgências chamou a atenção de muitas pessoas - comuns e nobres - que estavam cansadas da ganância e da corrupção na igreja dos seus dias. Através das 95 Teses, Lutero tornou-se uma figura pública e o líder da Reforma.

As 95 teses, contudo, não foram as únicas teses que Lutero escreveu em 1517. Em setembro desse ano, Lutero escreveu 97 teses que são largamente esquecidas, mas são conhecidas pelos historiadores como as Disputas Contra a Teologia Escolástica. Estas 97 teses são muito mais interessantes e importantes do ponto de vista teológico do que as 95 Teses.

Nas suas 97 teses, Lutero mostra o quão crítico ele se tornou dos aspectos centrais da teologia medieval e como ele se convencera de que a igreja precisava mais da teologia de Agostinho e menos de Aristóteles.

A primeira tese de Lutero deve ter atordoado muitos que a ouviram: "Dizer que Agostinho se excede ao atacar os hereges é dizer que Agostinho quase sempre teria mentido". O ensino de Agostinho sobre o pecado, a graça e a predestinação era tão claro e intransigente, e a autoridade de Agostinho como teólogo era tão grande que a única maneira pela qual os teólogos medievais podiam discordar dele era declarar que ele havia exagerado alguns dos seus ensinos ao confrontar os hereges. Este amolecimento de Agostinho foi amplamente aceite na Idade Média. O ataque de Lutero a esta abordagem era extraordinário.

Este ataque refletia até que ponto a teologia de Lutero se tornou agostiniana. Ao lermos as teses, vemos preocupações específicas de Lutero em defender a pura herança agostiniana. A sua primeira preocupação foi com a natureza da vontade em pessoas caídas. Lutero destaca que a vontade humana está cativa de uma natureza corrupta e apenas pode fazer o mal. "4. Por isso, é verdade que o ser humano, sendo árvore má, não pode senão querer e fazer o mal". A condição desesperada do homem é resumida: "17. Por natureza, o ser humano não consegue querer que Deus seja Deus; pelo contrário, quer que ele mesmo seja Deus".

Lutero destaca que somente a graça pode resgatar a humanidade de sua condição caída. O homem não pode fazer nada para se preparar para a graça. Somente o amor eletivo de Deus pode preparar o homem para a graça. "29. A melhor e infalível preparação e a única disposição para a graça é a eleição e predestinação eterna de Deus". Lutero recuperou de Agostinho não apenas a imagem bíblica do extravio do homem, mas também a verdade bíblica da predestinação como a fonte de redenção. O homem não pode merecer graça. Toda a bondade vem de Deus: "40. Não nos tornamos justos por realizarmos coisas justas; é tendo sido feitos justos que realizamos coisas justas".

Lutero vê Aristóteles, o antigo filósofo grego, como a principal influência destrutiva que minou a teologia agostiniana na Idade Média. "50. Em suma, todo o Aristóteles está para a teologia como as trevas estão para a luz". Lutero ataca o método de Aristóteles como confiando demasiado na razão [1] ... Mas ele ataca ainda mais o impacto de Aristóteles sobre o conteúdo da teologia. De Aristóteles fluíram ideias sobre a bondade do homem, a capacidade da sua vontade de escolher o bem, sobre liberdade e mérito.

Bondade e liberdade eram conceitos teológicos chave na igreja medieval. A Reforma começou quando cristãos como Martinho Lutero começaram a ver a bondade e liberdade do homem como ensino oposto à religião bíblica.

W. Robert Godfrey, Insights Into Luther, Calvin, and the Confessions: Reformation Sketches, pp. 35-38.


[1] N. do T. «Confiar» demasiado na razão no sentido de «depender» ou «esperar» demasiado da razão. Não no sentido que Lutero pensasse que a razão seja enganadora ou tenha algum defeito intrínseco e que portanto não se pode confiar nela. Simplesmente ela não é suficiente para alcançar todas a verdades como as divinas – que, de resto, foram reveladas e não concluídas racionalmente. O ataque de Lutero é contra o racionalismo da escolástica, a ideia de que se pode chegar ao conhecimento das verdades divinas somente pela razão, traduzida em silogismos aristotélicos, não contra a razão em si.


Quem quiser ler todas as 97 teses com uma boa introdução pode ver aqui.

21 de maio de 2017

A IGREJA


Quando o Novo Testamento fala de igreja se refere quase sempre (isto é, 100 vezes em 110) à igreja "local" que pode ser uma pequena igreja (Mt. 18:20) e que pode reunir-se até numa casa (Rom. 16:5). A Escritura também fala de cada comunidade local como do "Corpo de Cristo" naquele lugar e naquela época. Não devemos portanto ter o conceito que a comunidade de uma cidade representa o olho e a de outra cidade o ouvido… e por aí adiante, antes devemos crer que cada comunidade representa onde se encontra, o corpo de Cristo (1 Cor. 12:27).

Cada igreja local, portanto é autónoma e ainda que tenha comunhão e relações de colaboração com outras comunidades, reconhece um só "chefe" e este chefe é Cristo.

Nenhum "corpo" pode ter pretensões de superioridade sobre os demais e nenhuma "autoridade" tem o direito de exercer "poder" sobre as comunidades. Cristo é o chefe de cada comunidade e Ele guia e edifica mediante a obra do ministério, pela luz da Palavra, pela guia do Espírito. Se quisermos traçar um rápido esquema escritural da igreja, podemos articulá-lo como se segue:

1) A igreja cristã de todos os séculos e de cada lugar tem um só chefe: Jesus Cristo. Ef. 5:23.

2) A "igreja" é constituída pelos "primogénitos escritos nos céus" e pelos "justos tornados perfeitos" Heb. 12:22-23.

3) E é aperfeiçoada e edificada mediante a obra do ministério realizada pelos obreiros suscitados e dados por Cristo. Ef. 4:11.

4) A igreja de cada lugar e de cada época foi chamada a ser luz do mundo e a evangelizar os povos no poder do Espírito Santo. Mt. 5:14 - Atos 1:8.

5) A igreja é constituída na sua estrutura terrena pelas igrejas locais. Apoc. 1:4.

6) Cada igreja local tem Cristo, como chefe supremo. Apoc. 2:1.

7) Em cada igreja há perfeita igualdade entre todos os membros que a compõem. Mt. 23:8.

8) Cada igreja é aperfeiçoada e edificada por meio do serviço suscitado por Deus e exercido em humildade. Mat. 20:26.

9) Cada igreja é absolutamente autónoma e livre de administrar-se em relação à sua vida e experiência. Atos 14:26.

10) As "igrejas" têm uma relação igualitária de comunhão mediante os vínculos do amor e as relações espirituais de livre colaboração no plano de uma verdadeira e profunda identidade doutrinal e moral. Col. 4:16.

11) As igrejas não estão submetidas a nenhum poder central e não aceitam estruturas hierárquicas que queiram sobrepor-se à sua autonomia e liberdade. Atos 11:1-3.

12) Cada igreja é livre de:

a) Programar a sua atividade. Atos 13:1-3

b) Ter as suas missões e as suas publicações. Fil. 4:15

c) Subvencionar os seus obreiros cristãos. Gal. 6:6

d) Participar livremente em programas coletivos. 1 Cor. 16:1

e) Receber ministros e ter relações de comunhão e colaboração com outras igrejas, prescindindo de considerações denominacionais ou organizativas, mas não de considerações doutrinais e morais. Col. 4:16 - Mc. 9:38-39

f) Possuir os seus locais. 1 Cor. 16:19 - Col. 4:15

g) Reconhecer os seus ministros, anciãos e diáconos e conservar o governo da comunidade segundo os princípios estabelecidos pela Palavra de Deus e em função das necessidades locais. 1Tess. 5:12 - Fil. 1:1

13) Cada igreja ao recusar "órgãos", "títulos" e "qualificações" estranhos ao ensino da doutrina cristã não faz mais do que reafirmar a validade dos "ministérios" conferidos por Deus e portanto a "disponibilidade" para aceitar livremente a oferta de colaboração edificativa que pode ser dada e recebida. Rom. 1:11-12

14) Cada igreja deve sentir-se comprometida a defender a liberdade cristã que deriva da verdade. Gal. 5:1