14 de outubro de 2017

A VITÓRIA DO PAGANISMO SOBRE A IGREJA


J.B. Bury, célebre historiador e académico classicista, afirma:

«Em cem anos o Império transformara-se de um Estado em que a imensa maioria dos habitantes era devotada a religiões pagãs, num em que um imperador podia dizer, com grande exagero, mas sem absurdo manifesto, que não sobreviveu um pagão. Tal mudança não se concretizou pela mera proibição e repressão. Não é exagero afirmar que o sucesso da Igreja na conversão do mundo gentio nos séculos IV e V foi devido a um processo que pode ser descrito como uma transmutação pagã do próprio Cristianismo. Se as crenças cristãs e o culto tivessem sido mantidos inalterados na simplicidade inicial do seu espírito e forma, pode muito bem questionar-se se um período muito mais longo teria sido suficiente para cristianizar o Império Romano. Mas a Igreja permitiu um compromisso. Todas as religiões da época tinham em comum uma bruta superstição, e a Igreja não encontrou nenhuma dificuldade em oferecer aos convertidos crenças e cultos semelhantes àqueles a que eles estavam acostumados. Foi um problema relativamente pequeno que incenso, velas e flores, os acessórios de vários cerimoniais pagãos, fossem introduzidos no culto cristão. Foi uma jogada importante e feliz para incentivar a introdução de um politeísmo disfarçado. Uma legião de santos e mártires substituiu a antiga legião de deuses e heróis, e o pagão hesitante podia gradualmente reconciliar-se com uma religião que, enquanto lhe roubou a sua divindade protetora — a quem estigmatizou como um demónio —, lhe permitiu em compensação o culto de um santo protetor. Uma nova e banal mitologia foi criada, de santos e mártires, muitos deles fictícios; os seus corpos e relíquias, capazes de operar milagres como os que costumavam acontecer junto dos túmulos dos heróis, estavam constantemente a ser descobertos. O devoto de Atena ou Ísis podia transferir o seu tributo para a Virgem Mãe. O marinheiro ou pescador grego, que costumava orar a Poseidon, podia invocar São Nicolau. Aqueles que cultuavam em altares de pedra de Apolo no topo de colinas podiam demonstrar a mesma fidelidade a São Elias. O calendário dos aniversários cristãos correspondia em muitos pontos aos calendários dos festivais gregos e romanos. As pessoas podiam mais facilmente aceitar a perda das celebrações pagãs relacionadas com o solstício de inverno e o equinócio vernal, quando encontravam as alegres celebrações da Natividade e da ressurreição associadas com essas épocas, e podiam transferir alguns dos seus antigos costumes para as novas festas. A data da Natividade foi fixada para coincidir com o aniversário de Mitra (natalis Invicti, 25 de dezembro), cuja religião tinha muitas afinidades com o novo cristão. Este processo não foi o resultado, em primeira instância, de uma política deliberada. Foi um desenvolvimento natural, pois o Cristianismo não podia escapar da influência das ideias que eram correntes no seu ambiente. Mas ele foi promovido pelos homens de relevo e liderança na Igreja.» 

(J.B. Bury, History of the Later Roman Empire, Macmillan & Co., Ltd, Vol. I Cap. XI, pg. 373)

http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/BURLAT/11*.html#3

Deste modo, a suposta vitória do cristianismo sobre o Império revelou-se, na sua expressão institucional e popular, na derrota dos princípios neotestamentários perante a persistência do paganismo. Ao triunfar politicamente, a Igreja não conquistou o mundo romano; antes foi por ele conquistada, absorvendo sob um verniz de piedade cristã as mesmas estruturas, cultos e mentalidades que os apóstolos tinham combatido.

4 comentários:

  1. Alguns santos cultuados nas igrejas romana e orientais e a quem os fiéis oram mas que nunca existiram e não são mais reais do que os ídolos pagãos:

    Santa Catarina de Alexandria

    https://en.wikipedia.org/wiki/Catherine_of_Alexandria

    São Maurício

    http://www.ucc.ie/milmart/maurorig.html

    https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Maur%C3%ADcio

    Santa Margarida de Antioquia

    http://en.wikipedia.org/wiki/Margaret_the_Virgin

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Margarida_de_Antioquia

    ResponderEliminar
  2. Ótimo artigo. Seu artigo me inspirou a escrever mais sobre a oração aos santos no período pós-niceno.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que devia ressaltar à vista de todos é que na génese disto tudo está a aliança da Igreja com o Estado. A Igreja de Cristo não está vocacionada para ser uma igreja estatal, uma igreja oficial de um estado terreno. É algo que leva necessariamente ao sincretismo e à corrupção.

      De resto, a história da Igreja de Roma e das Igrejas Orientais é basicamente uma história de sincretismo com o mundo, primeiro com as religiões pagãs greco-romanas e depois com a filosofia grega.

      Eliminar
    2. Esse é o ponto. Há claramente uma ruptura na história da Igreja em relação a essa e outras doutrinas. Por isso, muitas práticas combatidas pela Igreja dos primeiros séculos (orar a falecidos, cultuar imagens) se tornariam regra depois. Sem dúvida a mistura da Igreja com o Estado foi um fator. Infelizmente muitos erros começaram a se popularizar na piedade popular e foram aceitos depois pelos mestres da Igreja.

      Eliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.