5 de abril de 2013

ROMA APLICA A SI MESMA A PROMESSA NEOTESTAMENTÁRIA A PEDRO


É Dâmaso (366–384) quem utiliza pela primeira vez Mateus 16:18 para fundamentar as pretensões romanas de poder e, ao mesmo tempo, as interpreta de forma jurídica. O contexto: na sua tumultuosa eleição contra Ursino, 137 pessoas perderam a vida numa igreja. Dâmaso deve a sua entronização ao prefeito da cidade de Roma e é acusado, sob o mandato de um novo prefeito, de instigar o assassinato; só a intervenção de amigos abastados junto do imperador o salva da condenação. Este bispo romano sedento de poder, anfitrião principesco e apelidado de «sussurrador ao ouvido das damas», tem todos os motivos para reforçar a sua debilitada autoridade política e moral através de uma inovadora acentuação da dignidade do seu cargo como sucessor de Pedro.

Ao referir-se à Igreja romana, Dâmaso utiliza sempre, e exclusivamente, a expressão «Sede Apostólica» (sedes apostolica), esgrimindo assim para a igreja romana a pretensão de uma superioridade em relação às restantes igrejas, fundamentada numa posição de monopólio supostamente concedida por Deus através de Pedro e Paulo. Por isso, não é de estranhar que Dâmaso mandasse ornamentar os túmulos e igrejas de Pedro e Paulo, bem como os dos bispos e mártires romanos, adornando-os com belas e elogiosas inscrições em latim. Tudo isto para deixar claro que a verdadeira Roma é agora a Roma cristã.

É nesta política que se insere também a encomenda feita a Jerónimo, um erudito do norte de Itália, para que elabore uma versão latina da Bíblia, moderna e de fácil compreensão (em substituição da antiga versão latina, a Itala ou Vetus Latina). Esta traduz, com toda a naturalidade, muitas expressões — sobretudo do Antigo Testamento — recorrendo a termos do direito romano, vindo mais tarde a tornar-se a «Vulgata», normativa tanto no âmbito eclesiástico-teológico como no litúrgico-jurídico.  

Qual é a contribuição de Dâmaso, que, à semelhança de todos os outros bispos romanos do século IV, tenta atrair a simpatia da alta sociedade romana saudosista da grande Roma pagã? Poder-se-á dizer que o seu contributo é, como refere com sensatez Henry Chadwick, «fundir o orgulho imperial e civil da antiga Roma com o cristianismo». Quem quiser escrever uma história da mentalidade da Cúria romana deve começar por aqui. 

Extraído de «El cristianismo, esencia e historia» de Hans Küng, Ed. Trotta, p. 323.

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