A crença na perpétua virgindade de Maria difundiu-se rapidamente a partir da sua formulação por Jerónimo e Sirício, no final do século IV. A partir do século seguinte, os bispos de Roma incorporaram-na nos seus escritos; contudo, a sua única referência explícita no contexto de um cânon conciliar surge apenas no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553. Tratou-se, ainda assim (como se verá mais abaixo), de uma passagem questionável, contida num documento destinado primariamente a salvaguardar a Pessoa de Cristo e não a exaltar Maria.
É instrutivo comparar os ensinamentos dos sucessivos Concílios Ecuménicos para notar o modo como se desenvolveu a crença na perpétua virgindade de Maria.
Ano 325. Segundo o Credo de Niceia, Jesus Cristo “por nós, homens, e para nossa salvação, desceu, encarnou e se fez homem.”
Maria nem sequer é mencionada.
Ano 381. Segundo o Credo dito Niceno-Constantinopolitano, Jesus Cristo “por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus, encarnou pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e se fez homem.”
Aqui faz-se menção a Maria e à sua condição virginal no momento da concepção.
Ano 431. Segundo os anátemas de Cirilo contra Nestório, acolhidos no Concílio de Éfeso:
“Se alguém não confessa que o Emanuel é verdadeiramente Deus e que, por isso, a santa Virgem é Mãe de Deus (pois deu à luz segundo a carne o Verbo de Deus feito carne), seja anátema.”
Também aqui não se menciona a expressão “sempre virgem”.
Ano 451. No Concílio de Calcedónia, na definição sobre as duas naturezas de Cristo, afirma-se que Ele foi:
“...gerado do Pai antes dos séculos quanto à divindade, e o mesmo, nos últimos dias, por nós e por nossa salvação, gerado de Maria Virgem, Mãe de Deus, quanto à humanidade...”
Os bispos de Calcedónia acrescentaram esta advertência:
“Assim, pois, tendo sido por nós redigida esta fórmula com toda a exatidão e cuidado em todos os seus aspectos, definiu o santo e ecuménico Concílio que a ninguém será lícito professar outra fé, nem sequer escrevê-la, compô-la, perfilhá-la ou ensiná-la.”
Apesar da extrema exatidão e cuidado que os bispos conciliares afirmam ter exercido, continuam a não utilizar o título “Maria Sempre Virgem”, referindo apenas “Maria Virgem” no contexto da concepção de Jesus.
Em outras palavras, o dogma da perpétua virgindade não surge, de forma implícita nem explícita, nos cânones dos quatro primeiros concílios ecuménicos.
Note-se que isto não se deveu à ausência de opiniões em contrário. Já Tertuliano, no início do século III, e, no século IV, primeiro Helvídio, depois Joviniano e mais tarde Bonoso, bispo de Ilíria, sustentaram que Maria teve outros filhos após ter dado à luz Jesus. Isto ocorreu décadas antes dos concílios de Éfeso e de Calcedónia.
Ano 553. O Segundo Concílio de Constantinopla é habitualmente apontado como tendo sido o primeiro a fazer referência à perpétua virgindade de Maria. No cânon 2 dos anátemas contra os «Três Capítulos», lê-se:
“Cân. 2. Se alguém não confessa que há dois nascimentos do Deus Verbo — um do Pai antes dos séculos, sem tempo e incorporalmente, e outro nos últimos dias, quando Ele próprio desceu dos céus, encarnou da santa e gloriosa Mãe de Deus e Sempre Virgem Maria, e dela nasceu —, seja anátema.”
No entanto, mesmo em relação a este Segundo Concílio de Constantinopla, a evidência é questionável:
“As atas gregas originais do Concílio perderam-se, mas existe uma versão latina muito antiga, provavelmente contemporânea e feita para uso de Vigílio, e certamente citada pelo seu sucessor Pelágio I... No Concílio Geral de Constantinopla seguinte (680-681), verificou-se que as Atas originais do Concílio tinham sido adulteradas em favor do monotelismo (Hefele, op. cit., II, 855-58); nem é seguro que, na sua forma presente, as tenhamos na sua plenitude original (ibid., pp. 859-60).”
(Thomas J. Shahan, em The Catholic Encyclopedia, s.v. Constantinople,
Second Council of)
É interessante notar que, no concílio seguinte — o Terceiro Concílio de Constantinopla (o sexto ecuménico, realizado em 680–681) —, os bispos se expressaram do seguinte modo:
“Seguindo os cinco santos Concílios Ecuménicos e os santos e reputados Padres, [o Concílio] define a uma só voz que nosso Senhor Jesus Cristo deve ser confessado como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, subsistente em alma racional e corpo; consubstancial com o Pai na sua divindade e consubstancial connosco na sua humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, exceto no pecado; gerado de seu Pai antes de todos os séculos segundo a sua divindade, mas nestes últimos dias, por nós, homens, e para nossa salvação, fez-se homem do Espírito Santo e da Virgem Maria, estrita e propriamente a Mãe de Deus segundo a carne; um e o mesmo Cristo, nosso Senhor, o Filho Unigénito, no qual se devem reconhecer duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação...”
(Sessão XVIII; negrito acrescentado).
Como se pode constatar, nesta declaração — que afirma expressamente a sua adesão aos cinco Concílios Ecuménicos anteriores —, não se utiliza a fórmula «Sempre Virgem Maria», mas sim, tal como nos concílios anteriores a Constantinopla II, simplesmente «a Virgem Maria».
(Traduzido da edição de Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, Vol. 14, p. 345).
Conclusão
1) Não há evidência de que a perpétua virgindade de Maria tenha sido ensinada por autores ortodoxos (em sentido estrito) durante os primeiros três séculos do cristianismo.
2) A doutrina da perpétua virgindade foi formulada por Jerónimo em 384, no seu tratado contra Helvídio. Com o apogeu do ascetismo e do monaquismo, a crença ganhou grande popularidade nos séculos seguintes.
3) A primeira referência explícita num cânon conciliar surge — ainda que a sua autenticidade seja questionável — no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, celebrado contra a vontade e sem a participação do bispo de Roma, Vigílio. O cânon em questão é uma definição cristológica sobre as naturezas divina e humana do Senhor, que menciona apenas de passagem o título «Sempre Virgem». Não se trata, pois, de uma definição dogmática sobre a perpétua virgindade.
4) A doutrina da perpétua virgindade de Maria não foi objeto de uma definição dogmática por parte de um concílio ecuménico durante o primeiro milénio.

A doutrina da virgindade pérpetua("post partun") de Maria pouco interfere na nossa fé,pois se ela manteve ou não relações com o seu marido,isso não a tornará menos santa(strictu sensu){santa no significado bíblico-separada do pecado-e que busca a DEUS) ou mais santa,posto que a sexualidade DENTRO DO CASAMENTO é algo santo!Entretanto,devo parabenizar o presente estudo!
ResponderEliminarQuanto ao tratado "adversus Helvidio"(383 D.C) de São Jerônimo,nós temos que reconhecer que a defesa de Jerônimo é muito bem elaborada!Eu nuca tinha lido na íntegra e encontrei neste site o tratado completo!!!!!
http://www.deuslovult.org/2010/09/30/tratado-da-virgindade-perpetua-de-maria/
As informações que Jerônimo dar sobre Helvidio é que ele era um "herege",que se encontrava em ROMA no tempo do papa Dâmaso,portanto,não temos como saber se Helvidio era um padre da Igreja primitiva!
O "New Advent Church Fathers" afirma que Helvidio se inspirou nos escritos de Tertuliano,mas não nos informa nada sobre Helvidio!
A doutrina da virgindade perpétua de Maria, para nós, pode não ser uma questão fundamental da fé cristã, no entanto para um católico romano é um dogma de fé de assentimento obrigatório. O que significa que quem o nega, na visão deles converte-se automaticamente num herege, por isso vemo-nos obrigados a nos defendermos das suas acusações e a recordar a história e o que a Bíblia realmente diz.
ResponderEliminarQuanto a Helvídio tudo o que conhecemos dele é através do seu temível opositor, Jerónimo. Não vejo em que é que isto afeta os argumentos apresentados. Das palavras de Jerónimo ficamos a saber que ambos apelaram para a tradição para fundamentar as suas teses. Jerónimo apelou para diversos autores anteriores mas não pôde documentar o que dizia.
"É plausível que primos ou outros parentes próximos possam ser sistematicamente chamados de irmãos? As observações de J. B. Lighfoot mantêm todo o seu bom senso cáustico: 'Mas é dificilmente concebível que os primos de alguém sejam correntemente e mesmo exclusivamente chamados de seus irmãos por todo mundo, e ainda menos concebível que um primo em particular seja especialmente conhecido sob o nome de 'Tiago, o irmão do Senhor'.' Há também outros argumentos, mas científicos. A demonstração de Jerônimo e de seus epígonos se fundamenta principalmente em exemplos tirados da Bíblia hebraica. Como o hebraico não tem uma palavra para significar 'primo germano', a Bíblia hebraica emprega por vezes a palavra 'irmão' (há) para designar um primo. (A palavra também pode ser empregada quando se fala do filho de um tio). A tradução grega (os Setenta - Septuaginta), em alguns desses casos, utiliza a palavra adelphós. Contudo, essas situações não são numerosas e o contexto torna sempre clara a natureza precisa das relações de parentesco em questão. De resto, como J. P. Meier observou judiciosamente, não seria possível identificá-los de outra forma. Mas a analogia entre o Novo Testamento e a versão grega da Bíblia hebraica é pouco convincente, apesar dos repetidos esforços dos apologistas católicos. De fato, os Evangelhos, ainda que às vezes se tenham inspirado em fontes em aramaico, não são traduções. Além de tudo, é inegável que Paulo escreveu suas epístolas em grego, provavelmente sua língua materna. Ora, o grego possui a palavra anepsiós para significar 'primo'. Por que Paulo, que conhecia pessoalmente Tiago e devia certamente saber a natureza exata de seu parentesco com Jesus, não teria usado essa palavra se eles fossem primos? J. P. Meier passou revista as 343 passagens do Novo Testamento em que a palavra adelphós é utilizada. Sua conclusão é formal: 'No Novo Testamento, adelphós, quando essa palavra é empregada não de maneira figurativa ou metafórica, mas para designar uma relação biológica ou legal, quer somente dizer irmão ou meio-irmão (biológico) e nada mais.'
ResponderEliminarFora do Novo Testamento, lembremos o testemunho de Flávio Josefo que apresenta Tiago como 'o irmão de Jesus'. Ora, Flávio Josefo utiliza frequentemente a palavra anepsiós em suas obras, assim como Hegesipo que distingue perfeitamente irmãos e primos na família de Jesus.
Na realidade, a teoria jeronimiana baseia-se em hipóteses tão improváveis que suas possibilidades de ser verdadeiras quase não são superiores a zero. Defender essa interpretação é praticamente pretender que os evangelistas e Paulo teriam conspirado para apresentar um enigma complicado com uma solução evidente mas falsa, que Jerônimo, três séculos mais tarde, teria sido o primeiro a decifrar.
Assim, a teoria helvidiana parece de longe a mais natural e a mais convincente. Tiago, mas também José, Judas, Simão e suas irmãos seriam provavelmente filhos de José e de Maria."
(Tiago, irmão de Jesus - Pierre-Antoine Bernheim, pg 38-39)
Norman Geisler, comentando sobre este assunto, falou algo interessante, ele diz que todas as vezes que a palavra irmão vem acompanhado de pai, mãe e irmãos, se trata realmente de irmão de sangue:
EliminarE todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna. Mateus 19:29
Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas? Mateus 13:55
A evolução da mariologia nessa época com teorias da virgindade post partum e theokótos provém de alguma devoção mariana ou isto seria anacrônico?
ResponderEliminarÉ anacrónico.
ResponderEliminarNem uma coisa nem outra foi motivado por uma particular devoção mariana.
A doutrina da virgindade perpétua começa a ser ensinada na Igreja Católica antiga por volta de finais do século IV, e é motivada por uma concepção errada da sexualidade que tinham alguns padres da Igreja em que se hipervalorizava o estado de virgindade, sendo que projetaram estas suas ideias na figura de Maria - era inconcebível para eles que, Maria, a mãe de Jesus, não fosse virgem.
Quanto à expressão theothokos, que literalmente signfica "paridora de Deus", aplicada a Maria inicialmente no Concílio de Éfeso (431), foi motivada pela intenção de estabelecer uma correta cristologia, mais propriamente a dupla natureza de Cristo. Significa que o Ser que nasceu de Maria em virtude da Encarnação, era plenamente Deus além de plenamente homem, e portanto pode ser entendida de uma maneira plenamente bíblica.
A exploração da expressão theotokos para exaltar indevidamente Maria não era a intenção dos bispos conciliares. Isso aconteceu posteriormente.
O desenvolvimento do culto a Maria na Igreja só começa a partir da segunda metade do século V em diante.