Se um cidadão romano dos primeiros séculos da era cristã ressuscitasse e assistisse no Vaticano, em junho de 1963, à eleição e coroação de Paulo VI — ou à de qualquer outro Pontífice moderno —, não entenderia nada do significado de tais cerimónias e práticas da Roma papal.
Certa apologética católica recorre, com algum êxito, àquilo a que poderíamos chamar uma grande «ilusão de perspetiva histórica»: a ideia de que a Igreja romana se manteve inalterada do primeiro século até aos nossos dias. Como se tudo o que crê e pratica — salvaguardando meros pormenores de forma — remontasse no essencial ao próprio São Pedro. O catolicismo romano pretende, assim, transmitir a impressão de que o bispo de Roma sempre foi não apenas o bispo de uma «diocese» (como qualquer outro bispo católico), mas a Cabeça visível da Igreja universal, o «bispo dos bispos de todo o orbe» e o suposto Vigário de Cristo, fazendo crer que as tradições romanas gozam de uma ancestralidade apostólica que lhes garantiria a posse exclusiva da verdade e da autenticidade eclesial.
Mas esta ilusão, esta errónea perspetiva histórica do que foi a vida da Igreja em geral, e da Igreja de Roma em particular, não resiste à mais leve investigação científica. O historiador sabe que Roma, longe de ser sempre a mesma, mudou constantemente e que as doutrinas e práticas papais (bastante tardias, por sinal) foram algo completamente ignorado durante muitos séculos do cristianismo antigo. A eleição de cada novo Papa torna o tema atual. E, infelizmente, comprova-se constantemente a mesma ignorância da história em multidões de pessoas e publicações, que apresentam o recém-eleito Pontífice como o sucessor de uma cadeia sem elos quebrados, que remonta ao primeiro século.
No entanto, um estudo imparcial dos dados históricos ao nosso alcance revela — ainda que de forma breve e sob a forma de esboço — o seguinte quadro de factos irrefutáveis:
1) Na eleição dos antigos bispos romanos não intervinham cardeais. E isto pela simples razão de que a dignidade cardinalícia nem sequer existia. O ofício de «cardeal» só foi introduzido na Igreja romana cerca de mil anos após a fundação do cristianismo (1). Naturalmente, também não existe qualquer base bíblica para o ministério cardinalício: o Novo Testamento — e com ele os primeiros séculos da Igreja — ignora completamente o cargo de cardeal.
2) Na eleição dos antigos bispos romanos também não intervinha qualquer representação da Igreja universal. Os eleitores nunca pretenderam tal representação — à diferença dos padres participantes nos grandes concílios ecuménicos do primeiro milénio (os quais, por outro lado, eram totalmente independentes da sede romana, que não era mais do que uma importante sede entre outras na Cristandade). A eleição do bispo de Roma dizia respeito apenas a essa cidade e não à totalidade da Igreja universal, pela simples razão de que o prelado titular dessa sede era o bispo de Roma. Nada mais. Só séculos mais tarde passaria a ser reconhecido como o «primeiro entre iguais».
3) Os bispos romanos eram eleitos exatamente da mesma forma que os demais bispos da Igreja antiga, ou seja: com a participação do povo fiel da cidade (os laicos) e do «clero» da mesma.
1) Na eleição dos antigos bispos romanos não intervinham cardeais. E isto pela simples razão de que a dignidade cardinalícia nem sequer existia. O ofício de «cardeal» só foi introduzido na Igreja romana cerca de mil anos após a fundação do cristianismo (1). Naturalmente, também não existe qualquer base bíblica para o ministério cardinalício: o Novo Testamento — e com ele os primeiros séculos da Igreja — ignora completamente o cargo de cardeal.
2) Na eleição dos antigos bispos romanos também não intervinha qualquer representação da Igreja universal. Os eleitores nunca pretenderam tal representação — à diferença dos padres participantes nos grandes concílios ecuménicos do primeiro milénio (os quais, por outro lado, eram totalmente independentes da sede romana, que não era mais do que uma importante sede entre outras na Cristandade). A eleição do bispo de Roma dizia respeito apenas a essa cidade e não à totalidade da Igreja universal, pela simples razão de que o prelado titular dessa sede era o bispo de Roma. Nada mais. Só séculos mais tarde passaria a ser reconhecido como o «primeiro entre iguais».
3) Os bispos romanos eram eleitos exatamente da mesma forma que os demais bispos da Igreja antiga, ou seja: com a participação do povo fiel da cidade (os laicos) e do «clero» da mesma.
Destes três pontos depreende-se que os bispos da Igreja romana, nos primeiros séculos, não eram mais do que os bispos das restantes cidades da Cristandade. A hegemonia papal, pela qual o bispo de Roma se colocou acima dos demais prelados, é fruto de uma evolução histórica produzida por uma longa e complexa combinação de interesses eclesiásticos, sociais e políticos, mas sem fundamentação bíblica. O grande historiador J. I. von Döllinger escreveu:
«Temos escritos e afirmações referentes à hierarquia eclesiástica na Igreja e em nenhum destes escritos daqueles primeiros séculos aparece a dignidade papal, nem se menciona nada de semelhante que pudesse existir na Igreja. Nos escritos do Pseudo-Dionísio Areopagita, compostos no final do século V e respeitantes à hierarquia, mencionam-se somente bispos, presbíteros e diáconos. Igualmente, Isidoro de Sevilha, o famoso teólogo espanhol, no ano de 631, menciona todos os graus eclesiásticos existentes naquele tempo e divide-os em quatro grupos: patriarcas, arcebispos, metropolitanos e bispos. Graciano, canonista italiano do século XII, incorporou esta lista na sua célebre obra intitulada «Decreto» — ou seja, 500 anos mais tarde do que Isidoro de Sevilha —, e deve ter-lhe chamado poderosamente a atenção que o ofício de Papa aí não estivesse incluído. Também Beato, abade espanhol, fornece a mesma lista de Isidoro de Sevilha no ano de 789. Beato também não sabe nada de uma dignidade na Igreja mais elevada do que a de patriarca» (2).
A pergunta surge espontânea: Onde estava o Papa na Igreja antiga? A esta pergunta, a história responde nos seguintes termos: ao princípio, chamava-se «papa» (isto é, «pai») a todos os bispos por igual e, mais tarde, até aos próprios presbíteros de aldeia. Foi a partir do século VI que o termo começou a usar-se de forma restrita para designar, em particular, o bispo de Roma. Finalmente, em 1076, Gregório VII exigiu-o exclusivamente para si e para os seus sucessores, acrescentando-lhe o predicativo de «Santo».
A palavra «papa» é de origem grega, não latina. E foi em Alexandria, e não em Roma, que primeiramente se chamou «pope» (isto é, papa) ao bispo. No Oriente, tal nome serve ainda hoje para designar os sacerdotes em geral («popes») (3).
José Grau
Notas
(1) Ignaz von Dollinger, The Pope and the council, III, V. pp. 206 e ss.
(2) Ibid. No Novo Testamento, quando o apóstolo Paulo enumera os ministérios da Igreja cristã, também não faz qualquer menção ao Papado (1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11), um esquecimento imperdoável se o papa fosse, realmente, a pedra angular do edifício eclesiástico.
(3) Stanley, "History of the Eastern Church", lec. 7. p.216 e ss.; Farrar "Lives" Vol. I p. 370.Cf. nota num. 50. p. 294, ad supra.

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