Existem dezenas de sites católicos que, nas suas
páginas, atribuem a Cipriano de Cartago a seguinte frase: “Estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja
Católica.” (Epist. 55, n.1, Hartel, 614).
Sucede que Cipriano de Cartago nunca disse tal coisa.
Esta é apenas uma entre várias citações fraudulentas atribuídas a Cipriano, alardeadas pela internet por apologistas romanos sem escrúpulos numa infeliz tentativa de provar a existência do papado no seu tempo.
Quem não tiver acesso à carta nem conheça o pensamento de Cipriano pode facilmente ficar com uma impressão errada.
Porém, quem procura a verdade deve saber que Cipriano jamais proferiu esta frase (veremos abaixo a citação autêntica). Importa também ter em conta que o contexto desta epístola — tal como o de muitas outras da sua autoria — é o chamado cisma novaciano, ocorrido na Igreja ocidental em meados do século III. Traduzo, a seguir, a informação relevante:
Novacianismo. Um cisma rigorista na Igreja do Ocidente, surgido no contexto da perseguição do imperador Décio (249-250). O seu líder, Novaciano,
era um presbítero de Roma e autor de uma obra importante (e completamente
ortodoxa) sobre a doutrina da Trindade. Na sua atitude perante os muitos cristãos
que tinham cedido ao paganismo durante a perseguição, Novaciano alinhou, de início, com Cipriano, bispo de Cartago, na recusa da excomunhão vitalícia decorrente da defeção. Contudo, mais tarde, aparentemente por se sentir contrariado com a
eleição de Cornélio como bispo de Roma (251), uniu-se ao partido rigorista, que rejeitava tais concessões, acabando por ser eleito bispo rival de Roma. As posições novacianistas
foram aprovadas por Antíoco, mas rejeitadas por Dionísio em Alexandria. O
próprio Novaciano viria a sofrer o martírio sob o imperador Valeriano, em 257-258.
F.L. Cross, Ed.: The Oxford Dictionary of the
Christian Church. London: Oxford University Press, 1958, p.
968.
Dito de outro modo, como consequência do cisma ocorrido em Roma, coexistiam nessa cidade um bispo legítimo (Cornélio), reconhecido pelos restantes bispos em comunhão e, em particular, por Cipriano (veja-se a sua Epístola 41 [45 na edição de Oxford]), e um bispo cismático ou antipapa, a saber, Novaciano. Cipriano havia trocado abundante correspondência com Cornélio e a sua Igreja a respeito deste cisma novaciano (Epístolas 42-50 [ed. Oxford 46, 47, 49, 50-54]).
Ora, o motivo da carta onde os apologistas romanos supostamente foram buscar a tal citação falsa foi o facto de Antoniano, bispo de Numídia, ter recebido cartas de Novaciano e estar a inclinar-se para os cismáticos rigoristas. Por essa razão, Cipriano escreve-lhe para o confirmar na sua posição inicial e defender Cornélio como o legítimo bispo de Roma.
Cipriano a Antoniano
seu irmão, saúde. Recebi a tua primeira carta, queridíssimo irmão, mantendo
firmemente a concórdia do colégio sacerdotal, e aderindo à Igreja Católica. Nela indicavas que não guardavas comunhão com Novaciano, mas seguias o meu
conselho, mantendo um acordo comum com Cornélio, nosso cobispo [agora segue-se
o texto autêntico da citação em causa]. Escreveste-me também a pedir que transmitisse uma cópia dessa mesma carta a Cornélio, nosso
colega, para que ele pudesse afastar toda a ansiedade e saber, de imediato, que guardas comunhão com ele, isto é, com a Igreja Católica.
Cipriano, Epístola 51 [55
Ed. Oxford]: 1
Mais adiante, Cipriano discorre mais detalhadamente sobre Cornélio, a quem trata por «nosso queridíssimo irmão». Enaltece a sua bravura durante a perseguição e sublinha que ele não era um intruso, mas sim um ministro fiel que tinha passado por todos os ofícios eclesiásticos antes de ser proclamado bispo, realçando que a dignidade episcopal lhe fora imposta contra a sua própria vontade. Cipriano aborda também o processo da sua eleição, o que nos dá uma imagem clara de como eram eleitos os bispos de Roma (e de outras sedes) no século III — uma realidade muito diferente da prática atual:
E ele foi
feito bispo por muitíssimos dos nossos colegas que estavam então presentes na
cidade de Roma... Mais ainda, Cornélio foi feito bispo pelo juízo de Deus e do seu Cristo, pelo testemunho de quase todo o clero, pelo voto do povo que aí estava presente e pela assembleia de anciãos e homens bons, quando
ninguém tinha sido feito bispo antes dele, estando vago o lugar de Fabião, isto é, o lugar de Pedro e o grau do trono sacerdotal. Tendo este lugar sido ocupado pela vontade de Deus e confirmado pelo consentimento de todos nós, quem
quer que agora pretenda tornar-se bispo terá de o ser feito a
partir de fora; e não pode ter a ordenação da Igreja quem não mantém a unidade
da Igreja.
Cipriano, Epístola 51 [55
Ed. Oxford]: 8
Compreende-se agora melhor a que se refere Cipriano: se Antoniano estabelecesse laços de comunhão com o bispo cismático, Novaciano, em vez de o fazer com Cornélio — o bispo legitimamente eleito —, estaria, com isso, a tornar-se cismático ele próprio. Pelo contrário, ao manter a comunhão com Cornélio, conservava-se dentro da comunhão universal ou católica.
Que é disto que se trata — e não de Cipriano considerar Cornélio um seu superior hierárquico —, demonstra-o o facto de lhe chamar «nosso cobispo» e «nosso colega».
A mesma carta dá testemunho de que, em cada congregação, era o consenso dos membros (naturalmente, com os pastores à cabeça) e, na Igreja universal, o acordo dos bispos — e não a primazia do bispo de Roma — aquilo que permitia estabelecer as decisões:
E isto também escrevi amplamente a Roma, ao clero que ainda agia sem um
bispo, aos confessores, Máximo o presbítero e os demais que na altura estavam
encarcerados na prisão, mas que agora estão na Igreja, reunidos com Cornélio. Podes
saber o que escrevi através da resposta deles, pois na sua carta escreveram assim:
“Contudo, o que tu próprio declaraste num assunto tão importante satisfaz-nos: que a paz da Igreja deve ser mantida acima de tudo; devendo, por isso, reunir-se um conselho com bispos, presbíteros, diáconos e confessores, bem como com os laicos que permaneceram fiéis, a fim de tratarmos da questão dos caídos.” Acrescentou-se também – redigindo então Novaciano, ...
e subscrevendo o presbítero Moisés, por essa altura ainda confessor, mas hoje já mártir – que se devia conceder a paz aos caídos que estavam doentes e moribundos.
Esta carta foi divulgada por todo o mundo e levada ao conhecimento de todas as
igrejas e de todos os irmãos.
No entanto, em conformidade com o que antes fora decidido, uma vez amainada a perseguição e surgida a oportunidade de nos reunirmos, juntou-se um grande número de bispos que a fé e a proteção divina tinham preservado incólumes e em segurança; e, tendo-se aduzido de parte a parte as Divinas Escrituras, ponderámos a decisão com salutar moderação, de modo a que nem a esperança de comunhão e de paz fosse totalmente recusada aos caídos — para que não fracassassem ainda mais por desespero e, por terem a Igreja fechada, passassem a viver como os pagãos do mundo —, nem, por outro lado, se relaxasse a censura do Evangelho permitindo-lhes correr precipitadamente para a comunhão. Em vez disso, o arrependimento deveria ser dilatado no tempo, a clemência paterna suplicada com tristeza, e os casos, os desejos e as necessidades de cada um examinados segundo o contido no pequeno livro que confio já ter chegado até ti, no qual se encontram recolhidos os diversos pontos das nossas decisões. E, para que o número de bispos na África não parecesse porventura insuficiente, também escrevemos a este respeito a Roma, ao nosso colega Cornélio, o qual, reunindo ele próprio um concílio com muitíssimos bispos, concordou com a mesma opinião por nós sustentada, com igual gravidade e salutar moderação.
A este respeito, tornou-se agora necessário escrever-te, para que saibas que nada fiz de forma leviana, mas que... coloquei tudo à determinação comum do nosso concílio; e que, na verdade, não me comuniquei com nenhum dos caídos enquanto ainda existia uma oportunidade através da qual os caídos poderiam receber não apenas o perdão, mas também uma coroa. Contudo, mais tarde, como o exigiam o acordo do nosso colégio e a vantagem de reunir a fraternidade e de curar a sua ferida, cedi à necessidade dos tempos e pensei que se devia prover à salvaguarda de muitos; e não recuo agora perante estas coisas que uma vez foram determinadas no nosso concílio por comum acordo, embora muitas coisas sejam ventiladas pelas vozes de muitos, e mentiras contra os sacerdotes de Deus sejam proferidas pela boca do diabo e espalhadas por toda a parte, para rutura da concórdia da unidade católica.
Cipriano, Epístola 51 [55
Ed. Oxford]: 5-7
Desta carta, como de outros escritos de Cipriano, sobressai que, para a Igreja católica ou universal — cuja unidade ele tanto valorizava —, a validade das decisões dependia de um consenso amplo entre os bispos: quantos mais, melhor. De facto, em vez de pedir a Cornélio que certificasse com a sua própria autoridade «papal» a decisão dos bispos africanos, solicita ao seu cobispo, como gosta de lhe chamar, que reúna o maior número possível de colegas, com o intuito de conferir plena validade às conclusões alcançadas.
Finalmente, na mesma carta
que os romanistas tão atinadamente invocam, podemos ver que o bispo de Cartago
não considerava que uns bispos fossem superiores em autoridade a outros:
Mantendo-se o vínculo da concórdia e permanecendo indiviso o sacramento da Igreja Católica, cada bispo dispõe e dirige os seus próprios atos, devendo prestar contas das suas intenções ao Senhor.
Cipriano, Epístola 51 [55
Ed. Oxford]: 21; negrito acrescentado.
Palavras que seriam muito difíceis de compreender se um bispo estivesse colocado acima de todos os outros.
A independência dos bispos, e a sua intercomunhão enquanto um único episcopado, constitui a sua teoria sobre o indiviso sacramento da Catolicidade.
Julgo que o que foi apresentado até aqui é suficiente para clarificar o panorama, tanto para católicos como para não-católicos.

Outra frase que Cipriano nunca disse foi:
ResponderEliminar“Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica.” (Epist. 48, n.3, Hartel, 607).
Esta citação de Cipriano está adulterada e isolada do contexto. As palavras «Roma» e «trono» são interpolações, pois não constam do texto original.
O texto a que esta citação se refere encontrei na edição ANF na epístola 44 de Cipriano. http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf05.iv.iv.xliv.html
E diz assim:
"Porque nós, que fornecemos todas as pessoas que navegam daqui com um plano para que possam navegar sem qualquer ofensa, sabemos que os exortamos a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica (ut ecclesiae catholicae matricem et radicem agnoscerent ac tenerent)".
O contexto é o seguinte.
Esta carta de Cipriano é dirigida a Cornélio.
Naquela altura havia um cisma na comunidade cristã de Roma, e era vital para os católicos cartagineses entrar em comunhão lá com a comunidade católica. Esta era a comunidade liderada por Cornélio, o bispo da Igreja Católica em Roma, e não a de Novaciano, o líder de um grupo cismático.
Cipriano que era bispo de Cartago, no norte de África, menciona que pediu àqueles que viajavam para Roma para ter muito cuidado com o partido a que se juntariam naquela cidade para ter comunhão. Ele exortou-os "... a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica." A matriz e raiz aqui não se refere à Igreja Romana, como tal, mas o «seio e raiz» são a Igreja Católica.
Em outras palavras, o que Cipriano diz é que exortou os cartagineses a não sair da raiz e do seio da Igreja Católica, da qual a Igreja Romana era uma parte, juntando-se em Roma ao grupo liderado por Novaciano.
Portanto, esta passagem não tem a ver com uma supremacia jurisdicional da Igreja de Roma sobre as demais Igrejas. O primeiro bispo de Roma que explícita e claramente manifesta pretensões de supremacia sobre a Igreja universal é Leão Magno no século V. Atribuir tal ideia a Cipriano ou a qualquer outro Padre da Igreja anterior ao século V é um anacronismo.
Para mais informações sobre Cipriano ver:
http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/02/supremacia-papal-nos-escritos-ante.html
http://www.e-cristianismo.com.br/pt/apologistas/248-cipriano-de-cartago-e-a-catedra-de-pedro
http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/10/mateus-1618-nos-padres-da-igreja.html
http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2011/03/igreja-primitiva-sobre-o-papado-segundo.html
Sugiro que os leitores do blog também leiam as respostas do Gustavo na caixa de comentários!!!!!A fama do Gustavo de ser um excelente apologista não é à toa...
ResponderEliminarhttp://www.e-cristianismo.com.br/pt/apologetica/259-quando-um-catolico-le-cipriano
Perguntaram-me sobre a autenticidade e o contexto de uma outra frase de Cipriano manipulada habilmente pelos apologistas católicos para tentar introduzir no pensamento de Cipriano uma ideia que ele nunca teve. Aqui fica a minha resposta editada depois de uma breve pesquisa.
ResponderEliminarHabitualmente, encontrarmos esta frase citada em textos católicos romanos (como o Catecismo da Igreja Católica) ou nos apologistas ortodoxos orientais que é: “Não pode ter Deus por Pai no Céu quem não tem a Igreja por Mãe na Terra” tirada da obra “da Unidade da Igreja” de Cipriano de Cartago.
Ao ler isso, pode-se ficar um pouco surpreso. Mas esta famosa frase não significa o que à primeira vista se pode pensar.
Em latim a frase de Cipriano é:
Habere iam non potest Deum patrem qui ecclesiam non habet matrem.
(Não pode mais ter Deus como seu Pai, aquele que não tem a Igreja como sua mãe)
Na frase utilizada pelos católicos falta a palavra “iam” (“mais”) presente no latim. O desaparecimento dessas três letras não é surpreendente. A frase fica mais concisa e fácil de ser usada fora do contexto, sem “iam”.
Com “iam”, é um alerta para os batizados na Igreja. Em De Unitate, Cipriano está a argumentar contra cismáticos - especificamente contra Novaciano, um bispo cismático que havia em Roma naquele tempo. Cipriano, bispo de Cartago, se esforça ao longo deste tratado para salientar a importância de não rasgar o tecido da Igreja (a palavra grega de onde vem “cisma” significa uma rutura ou rasgão).
Ele vê cismáticos como Novaciano como negadores dos seus votos batismais. Eles desviaram-se da comunhão da Igreja que os trouxe à fé, além da tradição apostólica e da regula fidei que preservou a fé para eles e os alimenta na mesma. Eles declararam que estão acima da tradição e escolheram andar separadamente do resto da Igreja.
Com “iam”, Cipriano não está a olhar para os pagãos (como ele foi outrora) e alertando-os para vir para a Igreja Matriz. Ele está a olhar para crentes batizados que deixaram a comunhão da Igreja e estabeleceram igrejas rivais por seu capricho, rompendo a comunhão de amor e de paz estabelecida com Cristo, e alertando-os de que estão colocando em risco a sua salvação por andar separados.
Cipriano também se preocupa com os fiéis que não aderiram a Novaciano. Ele está incentivando-os a permanecer na comunhão da Igreja que os alimentou.
A aplicação deste tratado Sobre a Unidade da Igreja para uma (pós) situação moderna é difícil de fazer. Cipriano, apesar das tensões presentes no Norte de África durante o seu episcopado, provavelmente nunca imaginaria que um dia toda a Igreja egípcia se separaria de todas as outras e o Ocidente latino e o Oriente grego também estariam em desacordo, e o Ocidente fragmentado e dividido numa crescente infinidade de igrejas, cada uma alegando aceder à Igreja original do Apóstolos.
Talvez, no entanto, possa servir pelo menos de advertência para aqueles tentados a romper a comunhão com a sua denominação ou igreja local por causa de coisas como instrumentos musicais (falta ou utilização deles) ou hinos (falta ou uso deles) ou pregação (ruim ou boa) ou a presença de pecadores e cultivar a virtude da estabilidade.
Note-se que Cipriano de Cartago rompeu a comunhão com a Igreja de Roma por causa da questão do rebatismo dos hereges, o que mostra que para ele a unidade apesar de ser uma coisa que devia ser procurada, não era um valor absoluto ou algo que devia ser feito à custa da verdade.
ResponderEliminarPortanto, na visão de Cipriano a unidade da Igreja está fundada na fé comum e na comunhão de todos os cristãos, em particular dos bispos, não na obediência cega a uma hierarquia eclesiástica.