A pergunta “A Sola Scriptura está na Bíblia?” costuma aparecer em debates entre protestantes e católicos. À primeira vista parece uma pergunta simples, mas na realidade é profundamente ambígua. Dependendo do que se quer dizer com ela, a resposta pode ser diferente.
Primeiro,
é preciso distinguir duas coisas: a
prática do princípio e o
fundamento do princípio.
Se a
pergunta pretende saber se
o princípio é visto a funcionar na própria Escritura, então a
resposta é claramente positiva. Na Bíblia, a Palavra de Deus escrita aparece
repetidamente como o critério normativo que julga tradição, líderes religiosos
e o próprio povo de Deus. Profetas apelam à revelação previamente dada; Jesus
confronta os fariseus perguntando “não lestes?”; e os apóstolos apelam
constantemente às Escrituras para confirmar a verdade do evangelho. Nesse
sentido, o padrão é claro: a
Palavra de Deus escrita funciona como a norma que julga tradição, ensino
religioso e autoridade humana.
Mas
muitas vezes quem faz a pergunta tem outra coisa em mente. A pergunta real é esta:
existe na Bíblia um
versículo que diga explicitamente algo como “a Escritura é a única autoridade
final da Igreja”? Aqui surge um equívoco comum. O princípio da Sola Scriptura não
depende da existência de uma frase explícita desse tipo. Se o
fundamento fosse simplesmente “a Bíblia diz que só a Bíblia é a autoridade
final”, ele seria um raciocínio circular: provar a autoridade suprema da Escritura apelando
apenas a uma afirmação da própria Escritura.
O
fundamento da Sola
Scriptura é outro: a
natureza das próprias Escrituras. A Igreja reconhece a Bíblia
como Palavra inspirada
de Deus. Se Deus fala nas Escrituras, então elas possuem uma
autoridade qualitativamente superior a qualquer tradição humana, decisão
conciliar ou magistério eclesiástico. Nenhuma dessas autoridades é inspirada no
mesmo sentido em que a Escritura é.
O
raciocínio é simples:
- Deus
é a autoridade suprema.
- As
Escrituras são Palavra inspirada de Deus.
- Logo,
as Escrituras são a norma
suprema que regula todas as outras autoridades na Igreja.
Isso
não significa que não existam outras autoridades reais - tradição, concílios,
pastores e mestres. Significa apenas que todas
elas são autoridades derivadas e falíveis, que devem ser
avaliadas pela norma final que é a Palavra de Deus.
Assim, a pergunta “A Sola
Scriptura está na Bíblia?” acaba por falhar o ponto principal. A questão mais
profunda não é procurar uma frase isolada, mas reconhecer qual é a autoridade final quando
outras autoridades entram em conflito.
A resposta da Reforma foi
clara: quando todas as vozes são ouvidas, a Escritura permanece como o tribunal final.

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