sexta-feira, 17 de maio de 2013

Lutero: "O livro de Ester, eu lanço no Elba"


Esta citação de Lutero é encontrada frequentemente em inúmeras páginas web anti-Reforma:
O livro de Ester, eu lanço no Elba. Eu sou como um inimigo para o livro de Ester, que eu gostaria que não existisse, pois Judaíza demais e tem em si uma grande dose de loucura pagã.”
A citação deriva de uma das versões de Johann Aurifaber das “Conversas à Mesa”.
A primeira edição das “Conversas à Mesa” foi publicada por Johann Aurifaber, em 1566, vinte anos após a morte de Lutero. A obra é um conjunto de gatafunhos escritos por alunos e colegas de Lutero, onde contam em segunda mão supostas histórias vividas com o reformador alemão. Não é portanto uma boa fonte, e muito menos ainda quando os textos são recebidos sem qualquer análise crítica, para formular uma opinião sobre o pensamento de Martinho Lutero.
Um exemplo disto é a citação das “Conversas à Mesa” de Lutero "O livro de Ester, eu lanço no Elba", que na verdade é uma citação errada, que foi feita trocando Esdras por Ester. O erro está em todas as edições de Aurifaber das “Conversas à Mesa”.  
O que é interessante sobre esta citação de Lutero é que foi corrigida há algum tempo, pelo menos já desde o século XIX, no entanto, ainda aparece a circular “em bruto” na Internet. Eis aqui uma visão da citação do século XIX, em que Julius Charles Hare corrigiu Sir William Hamilton:
“Por exemplo, quando nossos olhos percorrem a antologia do Revisor, uma das frases mais surpreendentes é a seguinte: "O livro de Ester, eu lanço no Elba". Se uma pessoa familiarizada com o estilo de Lutero se depara com esta frase, reconhecerá a marca inconfundível do grande reformador nas palavras, / lanço no Elba; e será uma aflição para ela encontrar Lutero aplicando tais rudes palavras a qualquer livro, mesmo o menos importante, das Sagradas Escrituras. Mas Lutero não fez isso. O Revisor afirma que dá-nos de Lutero as "suas próprias palavras literalmente traduzidas". O Sr. Ward afirma que o nome do Revisor é "um comprovativo suficiente para a precisão das suas citações". E, no entanto, Lutero nunca disse nada do género sobre o livro de Ester. O original desta "tradução literal" é claramente a seguinte frase nas Conversas à Mesa de Lutero, Das dritte Such Esther werfe ich in die Elbe: O terceiro livro de Ester eu lanço no Elba. Por que motivo o Revisor omitiu a palavra terceiro na sua "tradução literal", é o que ele tem de explicar… Estaria confuso com o que poderia significar o terceiro livro de Ester? Pretendeu tacitamente corrigir o texto? Quando as palavras se tornam a base de uma acusação, devem ser examinadas com cuidado escrupuloso; e se parecer necessário alterá-las, isto deve ser expressamente indicado. Ora, a frase seguinte mostra claramente que uma correção totalmente diferente é necessária. "No quarto livro, em que Ester sonhou, há bonitos, e também alguns bons ditos, como, o Vinho é forte, o rei mais forte, a mulher ainda mais forte, mas a verdade é mais forte que todos" cito da edição de Walch, Vol . xxn. 2079, e não há meios de examinar cópias mais antigas das Tischredren; mas a antiga Tradução Inglesa fala do terceiro livro de Ester. De modo que esse erro grosseiro parece ter pertencido ao texto original. Pois não pode haver dúvida de que Lutero estava a falar, não de um terceiro e quarto livro inexistentes de Ester, mas do livro de Ezra ou Esdras: embora ainda haja muita confusão no relato das suas palavras; já que o discurso sobre quem é mais forte não está no quarto livro, mas no terceiro, o primeiro dos Apócrifos; os de Esdras e Neemias são numerados como os dois primeiros. Assim, as palavras de Lutero não são senão um modo Luterano de dizer o que Jerónimo na realidade fez, quando descartou estes livros apócrifos da sua Versão, como ele diz no seu Prefácio ao livro de Esdras:Nec quemquam moveat quod unus a nobis editus liber est; nec apocryphorum tertii et quarti somniis delectetur; quia et apud Hebraeos Ezrae Neemiaeque sermones in unum volumen coarctantur, et quae non habentur apud illos, nec de viginti quatuor senibus sunt, procul abjicienda." Também nada pode ultrapassar as expressões depreciativas de Jerónimo sobre os mesmos livros no seu panfleto contra Vigilantius (BI). Seguramente também a próxima frase citada pelo Revisor, "Eu sou tão grande inimigo do livro de Ester que eu gostaria que ele não existisse; pois ele judaíza demais, e tem nele uma grande quantidade de maldade pagã,"— embora aqui novamente a Tradução Inglesa concorde com Walch em aplicar as palavras de Lutero ao Livro de Ester, era na verdade dito dos livros Apócrifos de Esdras. Pois toda a passagem nas Conversas à Mesa é a seguinte: "Quando o Doutor estava corrigindo a tradução do segundo livro dos Macabeus, disse ele, eu não gosto deste livro e daquele de Ester, tanto que eu gostaria que não existissem, pois eles judaízam demais, e têm muita extravagância pagã. Então o Prof. Forster disse: Os Judeus estimam o livro de Ester mais do que qualquer um dos profetas". A combinação do livro com o dos Macabeus, - que o Revisor não deveria ter omitido -, assim como a observação de Forster, não deixa dúvidas de que Lutero falou do livro de Esdras (bj). Estes erros mostram como é inseguro construir quaisquer conclusões sobre a autoridade das Conversas à Mesa.”

Na nossa opinião, na última frase "Quando o Doutor estava corrigindo a tradução do segundo livro dos Macabeus, disse ele, eu não gosto deste livro e daquele de Ester, tanto que eu gostaria que não existissem, pois eles judaízam demais, e têm muita extravagância pagã", também é possível que Lutero se estivesse a referir ao livro apócrifo de Ester (os acréscimos a Ester), visto que há  semelhanças linguísticas entre os acréscimos e o segundo livro dos Macabeus (cfr. "Esther, apocryphal book of", in Jewish Encyclopedia), e "os acréscimos se referem constantemente à divindade, à prece, e às tradições e práticas sagradas do judaísmo" (Bruce M. Metzger, Dicionário da Bíblia: as pessoas e os lugares, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002, Vol. I, p. 79),  o que é consistente com a acusação do livro judaizar demais.

Para sustentar com seriedade a ideia de que Lutero rejeitou a canonicidade de Ester é preciso muito mais do que a inferência de uma obscura conversa à mesa. Roger Beckwith (autor de The Old Testament Canon of the New Testament Church), disse: "Por vezes diz-se que Lutero, seguindo alguns dos Padres, negou a canonicidade de Ester, mas Hans Bardtke questionou isto, como não levando em conta toda a evidência (Luther und das Buch Esther, Tubingen Mohr, 1964)". Basta ir à Bíblia de Lutero e observar onde o livro de Ester está colocado. Lutero não o coloca na secção de apócrifos. Ele inclui-o com os livros canónicos do Antigo Testamento. De fato, nos seus prefácios da Bíblia, Lutero distingue as particulares partes não-canónicos de Ester, e as coloca com os outros escritos apócrifos.

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