quarta-feira, 1 de junho de 2011

Qual foi a primeira? A tentação do monte ou a do templo?


Lucas 4:5 e ss.

5 E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. 6 E disse-lhe: Dar-te-ei toda a autoridade e glória destes reinos, porque me foi entregue, e a dou a quem eu quiser (…) 9 E o levou a Jerusalém e o colocou sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; 10 porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito, que te guardem (…) 13 Assim, tendo o Diabo acabado toda sorte de tentação, retirou-se dele até ocasião oportuna.

Mateus 4: 5 e ss.

5 Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o sobre o pináculo do templo, 6 e disse-lhe: Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo (…) 8 Novamente o Diabo o levou a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles; 9 e disse-lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. (…) 11 Então o Diabo o deixou; e eis que vieram os anjos e o serviram.

Antes de falar das discrepâncias, notemos as semelhanças entre o relato de Mateus e o de Lucas:

1. Ambos dizem que Jesus foi levado ao deserto pelo Espírito.
2. Ambos dizem que Jesus jejuou.
3. Ambos dizem que depois sentiu fome.
4. Ambos dizem que o diabo veio prová-lo.
5. Ambos mencionam as mesmas tentações.
6. Ambos mencionam as seguintes citações bíblicas de Satanás (Salmo 91; 11-12)
e de Jesus (Deuteronómio 8:3; 6:13; 6:16).
7. Ambos coincidem na ordem da primeira tentação que mencionam.
8. Ambos afirmam que Satanás o deixou depois da terceira tentativa falhada.

Agora vejamos as diferenças:

1. Mateus menciona o propósito da estadia de Jesus no deserto, ao passo que em Lucas está implícito.
2. Lucas, mas não Mateus, menciona o Jordão e que Jesus estava cheio do Espírito Santo.
3. Mateus menciona 40 dias e 40 noites, enquanto Lucas diz simplesmente "por quarenta dias".
4. Mateus chama Satanás "o tentador" (ho peirazôn) e Lucas "o diabo" (ho diabolos).
5. Segundo Mateus, Satanás menciona "pedras" no plural e segundo Lucas "pedra" no singular.
6. A citação de Deuteronómio 8:3 não é exactamente igual em ambos os casos.
7. Mateus, mas não Lucas, menciona a presença de anjos que serviam Jesus.
8. A ordem das duas últimas tentações é diferente em Mateus e em Lucas.

Supostamente esta última diferença demonstraria que a Bíblia não é inspirada nem infalível. Isto baseia-se na suposição fundamental que ambos os evangelistas pretendiam narrar as tentações em ordem estritamente cronológica.

Sem dúvida a ordem cronológica é uma possibilidade, mas por outro lado nenhum dos dois evangelistas afirma que a sua apresentação seja estritamente cronológica.

É natural que ambos coincidam na ordem da primeira tentação, vinculada como está ao facto de Jesus estar faminto.

Quanto às outras duas, algumas partículas que Mateus usa sugerem que se propunha a dispor em ordem de sucessão cronológica o seu material: tote, "então", versículo 5; palin "novamente", "outra vez", versículos 7 e 8.

Há, além disso, indícios de que Mateus tinha em mente um paralelismo entre as tentações de Israel e as tentações de Jesus no deserto.

Em contrapartida, Lucas não usa partículas que exijam sucessão cronológica, mas une as tentações com a conjunção "e" (kai).

A ordem de Lucas sugere um deslocamento geográfico progressivo e centrípeto (deserto-monte-templo) e sobretudo um crescendo na subtileza da tentação: No primeiro caso apela à fome, ou seja, às necessidades físicas e à procura de soluções rápidas à parte da fé em Deus; no segundo caso, à ambição e à ânsia de poder. Na terceira tentação – nesta ordem climática de Lucas - Satanás pretende instigar Jesus nada menos do que a tentar Deus. Esta tentação é a muito mais subtil, e a prova está em que muitos cristãos sucumbem a ela. Está disfarçada de fé em Deus! Tanto, que é a única das três ocasiões em que o Tentador ousa citar as Sagradas Escrituras. No entanto, Jesus não cai na armadilha: ele, que conhecia o Pai como ninguém e gozava de todo o seu amor, não confundia fé com imprudência; e nós faríamos bem em proceder de igual forma.

Em resumo, a suposta contradição baseia-se num pressuposto erróneo que demanda estrita ordem cronológica e não admite outra ordem como a de Lucas.

Os cristãos entendem que ambos os relatos, com as suas diferentes ênfases que justificam a mudança de ordem, são na realidade complementares, e nos permitem entender melhor, mediante perspectivas diferentes, o significado deste facto. Esta complementaridade é a razão pela qual a Igreja aceitou desde a antiguidade os quatro Evangelhos canónicos tal como são. Sem os quatro, o quadro não está completo.

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