sexta-feira, 6 de maio de 2011

Pode-se afirmar que os saduceus e os essénios, especialmente os de Qumran, tinham um cânon das Escrituras diferente do resto dos judeus?


Não, não pode afirmar-se com absoluta certeza. Em particular, não está claro se os qumranitas incluíam algum outro texto entre os considerados "inspirados" além dos pertencentes ao cânon hebreu actual. [1]

Sobre o tema em geral, as seguintes observações são pertinentes:

"A investigação nas últimas décadas pôs em dúvida posições mantidas há muito tempo relacionadas com a história da formação do cânon bíblico hebreu e a existência de um cânon grego alexandrino. Até há um par de décadas costumava-se distinguir três etapas na história do cânon do Antigo Testamento. Para isso tomava-se como ponto de referência o cisma samaritano, que supostamente tinha tido lugar no século V a.C. Dizia-se que o Pentateuco adquiriu reconhecimento canónico antes do cisma dos samaritanos, dado que estes reconhecem valor canónico a esta colecção de cinco livros. A colecção de livros proféticos, que não foi reconhecida pelos samaritanos, teve de formar-se e de adquirir estatuto canónico posteriormente ao cisma, por volta do século III a.C. Por fim a colecção de escritos constituiu-se e entrou a formar parte do cânon numa época muito tardia. O processo final terminou em finais do século I d.C., com ocasião do chamado Sínodo de Yabneh [Yamnia], em que ficou definitivamente fechado o cânon da Bíblia hebraica.

Por outro lado, dizia-se também que, junto a este «cânon palestino», existiu também outro «cânon alexandrino», próprio do judaísmo da diáspora. Estava representado por uma colecção de livros que aparece recolhida na versão grega dos LXX. O cristianismo fez seu esse cânon antes de os rabinos de Yabneh terem fechado definitivamente o cânon hebreu em finais do século I. d.C., deixando «fora» os livros «exteriores» ou apócrifos, alguns dos quais figuravam na Bíblia grega dos cristãos.

Os descobrimentos do Mar Morto e outra série de estudos deitaram por terra esta hipótese clássica, que pode encontrar-se ainda em muitos livros. Hoje reconhece-se que o chamado cisma samaritano ocorreu seguramente em finais do século II a.C., ou seja, quando a colecção de livros proféticos estava já formada desde há muito tempo. A teoria do cânon judeu alexandrino caiu por terra ao não existir prova alguma da sua existência.
...

Uma corrente importante da investigação actual tende a considerar que o cânon hebreu se formou na época macabeia, em meados do século II a.C. Esta explicação deixa, no entanto, no ar a questão do que mais tarde veio a ser o cânon cristão do Antigo Testamento. Se já não pode dizer-se que os cristãos herdaram da diáspora judaica uma colecção mais ampla que a da Bíblia hebraica, ter-se-á que procurar uma explicação que justifique o facto de os cristãos não se sentirem obrigados a ater-se ao estrito cânon hebreu. Este facto pode ter antecedentes na comunidade essénia de Qumran. Seguramente os essénios de Qumran não tinham consciência nem intenção alguma de reabrir um cânon supostamente já fechado. No entanto, dá a impressão de que reconheciam a alguns escritos, como pode ser o caso do livro dos Jubileus, um carácter sagrado comparável ao de outros livros incluídos no cânon."

(Florentino García Martínez e Julio Trebolle Barrera, Los hombres de Qumrán. Literatura, estructura social y concepciones religiosas. Madrid: Trotta, 1993, p. 132-133; negrito acrescentado)

Ofereço agora as seguintes explicações de um dos mais destacados eruditos evangélicos contemporâneos, F.F. Bruce [2]. Depois de examinar a evidência de Qumran, Bruce diz:

"É provável, de facto, que no começo da era cristã os essénios (incluindo a comunidade de Qumran) estivessem em substancial acordo com os fariseus e os saduceus sobre os limites da Escritura hebraica. Podem ter havido algumas diferenças de opinião e prática em relação a um ou dois dos 'Escritos', mas as discordâncias entre partidos lembradas na tradição judaica têm muito pouco que ver com os limites do cânon. A ideia de que os saduceus (como os samaritanos) reconheciam somente o Pentateuco como sagrada escritura baseia-se num mal-entendido: quando Josefo, por exemplo, diz que os saduceus «não admitem nenhuma observância fora das leis» [41], não quer dizer o Pentateuco com exclusão dos Profetas e dos Escritos mas a lei escrita (do Pentateuco) com exclusão da lei oral (a interpretação e aplicação farisaica da lei escrita, a qual, como a própria lei escrita, se defendia em teoria ter sido recebida e transmitida por Moisés) [42]. Seria compreensível que os saduceus não aceitassem Daniel, o qual contém a afirmação mais explícita sobre a esperança da ressurreição em todo o Antigo Testamento [43]." [3]

Notas

[41] Josefo, Antiguidades, 18.16; o seu significado é esclarecido em Antiguidades 13.297, onde se diz que os saduceus 'sustentam que só as leis escritas devem ser tidas por válidas, mas que aquelas transmitidas por tradição dos pais não necessitam ser observadas. Foi provavelmente uma interpretação errada de Josefo, directa ou indirectamente, o que levou Orígenes (Contra Celso, 1.49) e Jerónimo (Comentário sobre Mateus, sobre 22:31s) a dizer que os saduceus aceitavam como escritura os livros de Moisés apenas.

[42] Esta lei oral é a 'tradição dos anciãos' mencionada em Marcos 7:5.

[43] Daniel 12:2. Quando Jesus apelou à Escritura na sua refutação da negação da ressurreição pelos saduceus, citou Êxodo 3:6, baseando o seu argumento no carácter de Deus (Marcos 12:26s).

(F.F. Bruce, The Canon of Scripture. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, p. 40-41; negrito acrescentado).

Em conclusão, não foi demonstrado que os saduceus e os essénios tivessem um cânon particular.

Por outro lado, autores modernos indicam que provavelmente o cânon ficou estabelecido consensualmente na época dos macabeus, ou seja, na segunda metade do século II a.C. A partir daí, houve ocasionalmente discussões sobre se havia que excluir algum livro, nunca sobre incluir algum outro até onde sabemos.

De modo que até onde pode emitir-se um juízo histórico deve aceitar-se que no século I existia substancial acordo em todo o judaísmo em relação à lista de livros considerados sagrados.


Notas

[1] Há quem diga que os homens de Qumran rejeitavam o livro de Ester, e aceitavam Jubileus. Mas a evidência de que os qumranitas «rejeitavam» o livro de Ester (que por outro lado sempre andou próximo da margem do cânon entre judeus e cristãos) é basicamente negativa: não se encontraram fragmentos deste livro entre os manuscritos do Mar Morto. Mas não há nenhuma declaração explícita a tal respeito.

Por outro lado, há evidência positiva de que os qumranitas consideravam os livros da Bíblia hebraica como inspirados.

Além de existir manuscritos completos ou fragmentários de todos eles excepto Ester, muitos deles (das três divisões do Tanach) são citados como «assim foi escrito». A parte mais citada é o Pentateuco, seguido pelos Profetas e pelos Escritos, nessa ordem.

Num dos rolos, 4QMMT, menciona-se uma divisão tripartida como a que já se encontra em Jesus ben Sirá (Eclesiástico), Josefo, e o Novo Testamento: «no livro de Moisés, nas palavras dos Profetas, e em David».

Os homens de Qumran também escreveram comentários (pesharim) sobre diversos livros do Tanach, como por exemplo Isaías, Salmos, Oseias, Habacuque; mas não há vestígios de tais comentários a livros apócrifos.

Finalmente, é verdade que os qumranitas tiveram em grande estima livros pseudo-epigráficos como Jubileus, 1 Enoc e o Rolo do Templo; mas não é absolutamente claro que os tivessem ao mesmo nível que os livros canónicos. Seja como for, estes livros não figuram nem no cânon palestino nem no católico.

[2] Outros autores que dizem mais ou menos o mesmo que Bruce sobre os saduceus são:


Nas suas descrições das três filosofias Josefo contrasta os saduceus com os fariseus e os essénios ... Nota também que ... aceitam somente as leis escritas em contraste com as tradições dos fariseus.

James F. Driscoll, Sadducees (The Catholic Encyclopedia, vol. 13)

Eles rejeitavam igualmente as tradições orais que os fariseus mantinham e enfatizavam como um suplemento divinamente ordenado para a lei escrita.

W.J. Moulder, Sadducees. Em Geoffrey W. Bromiley (Ed.), International Standard Bible Encyclopedia, Rev. Ed. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1988; 4:279; negrito acrescentado.

Josefo indicou que os saduceus não concediam autoridade vinculante à lei oral porque «não está registada nas leis de Moisés» (Ant. XIII, 10:6 [297]). Os fariseus, em contraste, afirmavam que as ...«tradições dos anciãos» remontavam até ao próprio Moisés e eram portanto obrigatórias. Até que ponto a rejeição saduceia da tradição oral se estendia até a negação do status canónico dos Profetas e Escritos veterotestamentários (como afirmavam vários Padres; por exemplo Hipólito, Ref. IX,29; Orígenes Contra Celso 1,49; Jerónimo In Matt 22:31s...) é outro assunto, no entanto, já que durante o período intertestamentário estes escritos eram considerados como Escrituras por todos os judeus. Já que nem Josefo nem o NT dizem nada sobre os saduceus rejeitarem estas porções da Escritura, a maior parte dos eruditos modernos crê que os Padres estavam num erro.

R. Le Déaut, Los saduceos. Em Augustin George e Pierre Grelot (Dir), Introducción Crítica al Nuevo Testamento. Trad. J. Cabanes y M. Villanueva. Barcelona: Herder, 1983 1:159

A sua atitude fundamental é uma fidelidade ao sentido literal da escritura, a manutenção da Sola Scriptura, perante as tradições e a lei oral dos fariseus ...
Os saduceus tinham as suas tradições e a sua halakha, que defendiam tenazmente; mas nunca lhes deram a mesma categoria que a lei escrita.

Emil Schürer, Historia del pueblo judío en tiempos de Jesús, 175 a.C.-135 d.C., Ed. Rev. Por Geza Vermes, Fergus Millar e Matthew Black. Trad. J. Valiente Malla. Madrid: Cristiandad, 1985; 1:530-531.

A opinião de numerosos Padres da Igreja de que os saduceus reconheciam unicamente o Pentateuco e rejeitavam os Profetas não conta com apoio algum em Josefo e, por conseguinte, é considerada errónea pela maior parte dos investigadores modernos. [25].

Nota 25. Cf. Le Moyne, op. cit., 358-359; é possível que tanto os fariseus como os saduceus estimaram que os profetas e os escritos tinham menor autoridade que a Torá ...

[3] Como os Saduceus podiam aceitar a canonicidade do livro de Daniel se negavam a ressurreição que está claramente expressa em Daniel? Não é ilógico?

Não, não é absolutamente ilógico. É bem sabido que na história da interpretação bíblica diversos grupos ignoraram ou reinterpretaram porções que não se enquadravam com as suas ideias. Um exemplo manifesto é o Targum de Isaías 53, um texto messiânico que é reinterpretado ou ignorado pelo judaísmo tradicional até hoje. É pois possível que o texto de Daniel 12:1-2 fosse tratado de igual forma pelos saduceus.

Não sabemos muito acerca dos saduceus, mas o pouco que sabemos indica que aceitavam as Escrituras mas rejeitavam as tradições orais, pelo menos as dos fariseus, e se negavam a pô-las como estes ao mesmo nível das Escrituras.

Existe, além disso, evidência de que no judaísmo sempre houve um «cânon dentro do cânon»: a Torá sempre foi considerada suprema acima dos Profetas e dos Escritos, ainda que estes dois últimos se considerassem também Escritura. Isto vê-se ainda em certas regras talmúdicas, como por exemplo que é lícito vender um rolo dos Profetas ou Escritos para comprar um rolo do Pentateuco, mas o inverso não é permitido.

1 comentário:

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