segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Evidência do cânon hebreu antes da discussão de Jâmnia


O conjunto da evidência mostra que nos tempos de Jesus os hebreus já sabiam que livros [do AT obviamente] eram canónicos e quais não. Depois de Jesus somente houve entre os judeus algumas discussões acerca da permanência no cânon de alguns livros como Ester e Eclesiastes (que permaneceram) mas em nenhum caso se considerou acrescentar alguma coisa.

Eis aqui uma apresentação da evidência, ordenada de forma aproximadamente cronológica.


I.  O testemunho dos Livros Eclesiásticos (Deuterocanónicos ou Apócrifos)

1. Jesus ben Sirá (= Eclesiástico).

Este é o meu deuterocanónico/apócrifo favorito (sem ironia). No prólogo do tradutor, lemos: "Muitos e excelentes ensinamentos nos foram transmitidos pela Lei, pelos Profetas, e por outros Escritos que se lhes seguiram; e, por causa disso, convém louvar Israel pela sua instrução e pela sua sabedoria. E, como não se deve aprender a ciência apenas pela leitura ... Jesus, meu avô, depois de se ter aplicado com afinco ao estudo da Lei, dos Profetas e dos outros Livros dos nossos antepassados … quis também escrever alguma coisa de instrução e de sabedoria..."  Eclesiástico, Prol. 1-12.

Aqui menciona-se, num documento do século II a.C., a divisão tripartida do AT – Lei, Profetas e outros Escritos - da qual o autor fala como coisa conhecida aos seus leitores. Mas, além disso, prossegue: "Sois, portanto, convidados a ler este livro com benevolência e atenção, e a ser indulgentes pois, não obstante todo o engenho com que nos aplicámos, parece não termos conseguido traduzir adequadamente a ênfase de certas expressões." Eclesiástico, Prol. 15-20.

Este tipo de desculpa por um trabalho possivelmente defeituoso nunca se ouve em nenhum livro do cânon palestino.

2. II Macabeus

Igualmente, noutro apócrifo/deuterocanónico, 2 Macabeus, se apela à boa vontade do leitor: "..assumimos este encargo [de resumir] para obter gratidão de muitos. E, deixando ao autor o cuidado de narrar detalhadamente os assuntos, nós esforçámo-nos por expô-los em forma resumida." (2:27-28). "...terminarei também com isto a minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; mas se está imperfeita e medíocre, foi o que pude fazer." 2 Macabeus 15:37-38.

Os autores dos livros canónicos falavam da parte de Deus e diziam o que Ele lhes mandava, sem nenhum tipo de desculpas. É claro que os autores destes livros tinham consciência de estar a escrever por sua própria conta.

3. I Macabeus

O primeiro livro dos Macabeus, um dos que são considerados deuterocanónicos pela Igreja Católica, dá testemunho em repetidas oportunidades da convicção do seu autor da ausência de profetas no seu tempo. As seguintes citações (com negrito acrescentado) provêm da Bíblia de Jerusalém: "Deliberaram sobre o que se deveria fazer com o altar dos holocaustos que estava profanado. Com bom parecer acordaram demoli-lo para evitar um opróbrio, dado que os gentios o tinham contaminado. Demoliram-no, pois, e depositaram as suas pedras no monte da Casa, num lugar conveniente, até que surgisse um profeta que desse resposta sobre elas." 1 Macabeus 4:44-46. "Com a morte de Judas assomaram os sem lei por todo o território de Israel e levantaram a cabeça todos os que praticavam a iniquidade. Houve então uma fome extrema e o país se passou para eles... Tribulação tão grande não sofreu Israel desde os tempos em que deixaram de aparecer profetas." 1 Macabeus 9:23s, 27. "Por conseguinte, o rei Demétrio lhe concedeu [a Simão] o sumo sacerdócio ... aos judeus e aos sacerdotes lhes tinha parecido bem que fosse Simão o seu hegúmeno e sumo sacerdote para sempre até que aparecesse um profeta digno de fé..." 1 Macabeus 14:38,41.

O autor do livro é um judeu palestino que provavelmente escreveu não muito depois dos acontecimentos que narra, provavelmente em finais do século II a.C. Segundo a Introdução da Bíblia de Jerusalém, com as devidas precauções, 1 Macabeus «é um documento precioso para a história daquele tempo».

Uma vez que os profetas eram os homens que falavam da parte de Deus, a convicção de uma ausência de profetas no seu próprio tempo, juntamente com a esperança de que no futuro reapareceriam, é um forte testemunho a favor da ideia de que em finais do século II a.C. já se considerava fechado o cânon das Escrituras.

II.  O testemunho de Filão de Alexandria

Filão de Alexandria foi um destacado filósofo judeu helenista (ca. 20 a.C. – ca. 50 d.C.). É uma testemunha importante do cânon por três razões (1) a sua vida se sobrepõe no tempo com a vida terrenal de Jesus; (2) era judeu e vivia em Alexandria, o suposto berço do hipotético cânon mais extenso do Antigo Testamento; e (3) conhecia e utilizava profusamente as Escrituras.

David M. Scholer, no prólogo da tradução das obras completas de Filão para o inglês, faz as seguintes observações:

«A preocupação de Filão de interpretar Moisés mostra constantemente tanto a sua profunda devoção e compromisso com a sua herança, crenças e comunidade judias, como também reflecte o seu uso aberto de categorias e tradições filosóficas ... A discussão erudita de se Filão é primariamente judeu ou grego está na realidade desorientada. No tempo de Filão muito do judaísmo estava significativamente helenizado. O compromisso de Filão com a Lei de Moisés e a paixão por ela era genuíno e reitor. Filão bebeu também profundamente na fonte filosófica da tradição platónica e a viu como fortalecedora e aprofundadora do seu entendimento da Lei de Moisés...

Filão é significativo para a compreensão do judaísmo helenístico do primeiro século d.C. É a principal figura literária sobrevivente do judaísmo helenizado do período do segundo Templo do judaísmo antigo. Filão é crítico para entender muitas das correntes, temas e tradições interpretativas que existiam na Diáspora e no judaísmo helenístico. Filão confirma o carácter multifacetado do judaísmo do segundo Templo; não era certamente um fenómeno monolítico. O judaísmo, apesar das suas preocupações pela pureza e pela identidade étnica em relação à Lei de Moisés, também achou considerável liberdade para participar em muitos aspectos da cultura helénica, como tão claramente o evidencia Filão.

Filão é também valioso para entender a igreja primitiva e os escritos do Novo Testamento, especialmente os de Paulo, João e Hebreus. Às vezes esquece-se que os documentos do Novo Testamento foram escritos em grego por autores que eram judeus (agora comprometidos a entender Jesus como Cristo e Senhor), que eram parte da cultura helenística do mundo greco-romano. A maior parte das igrejas primitivas reflectidas e descritas no Novo Testamento eram parte da trama social do mundo helenístico greco-romano. Precisamente porque Filão é um judeu helenístico, é essencial para os estudos do Novo Testamento. A Igreja cristã foi a preservadora primária dos escritos de Filão, que era virtualmente desconhecido para a tradição judaica, desde logo, do seu próprio tempo, até ao século XVI.»

The Works of Philo- Complete and unabridged. Transl. C.D. Yonge; New Updated Version. Peabody: Hendrickson, 1993, pp. XIII; negrito acrescentado.


Mediante a interpretação alegórica, Filão propôs uma forma de compatibilizar os ensinamentos dos filósofos pagãos com a revelação bíblica. Por esta razão, nos seus escritos encontra-se um grande número de citações bíblicas. A maior parte das suas citações bíblicas provêm da Torah ou Pentateuco, embora também cite Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, os Profetas Menores Oseias e Zacarias, os Salmos, Job, Provérbios e o rolo de Crónicas-Esdras-Neemias.

No índice da edição das suas obras completas já citada (pp. 913-918), contam-se aproximadamente mil citações das Escrituras, o que dá uma ideia da intensidade do uso destes textos por sua parte. Dados todos os factos assinalados acerca de Filão, pode ser uma grande surpresa para alguns que este judeu helenístico, contemporâneo de Jesus, que viveu precisamente em Alexandria, nunca cita nenhum dos livros que supostamente pertenciam ao "cânon alexandrino".

A ausência de citações dos livros deuterocanónicos em Filão é ainda mais notável quando se pensa que alguns destes livros, como por exemplo, a Sabedoria de Salomão ou o Eclesiástico, teriam fornecido excelente material documental para a sua própria tese da compatibilidade entre a filosofia grega e a revelação bíblica. O facto de Filão não ter usado estes livros, que de certeza lhe eram conhecidos, é muito difícil de explicar a não ter havido em Alexandria um consenso acerca dos livros canónicos essencialmente igual ao da Palestina.

III. O testemunho do Targum

Pierre Grelot explica:

"A palavra targum passou para o aramaico e depois para o hebraico a partir do acádio targumanu, o «intérprete», que se designava a si mesmo com uma palavra de origem estrangeira (hitita). No judaísmo se a utiliza para falar de todo um sector da literatura rabínica que apresenta «traduções interpretativas» dos livros sagrados. Traduções, porque os livros sagrados continuam a estar na sua base; trata-se de torná-los inteligíveis a pessoas que não lêem o hebraico, oralmente ou por escrito; interpretativas, porque não se trata, pelo menos muitas vezes, de traduções literais, mas de textos em que a interpretação do original incorporou-se à leitura mediante ampliações mais ou menos extensas."

Pierre Grelot, Los tárgumes. Textos escogidos. Estella: Verbo Divino, 1987, p. 5


O uso destas paráfrases em aramaico das Escrituras hebraicas incorporou-se ao culto da sinagoga para tornar inteligíveis os textos sagrados para quem não falasse hebraico, especialmente para a liturgia dos hebreus de fala aramaica. Existem targumes de quase todos os livros do Antigo Testamento segundo o cânon hebreu, dos séculos II a.C a I d.C.: da Torá, dos Profetas Anteriores e Posteriores, dos Cinco Rolos (Megillot = Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester) e dos Escritos (Salmos, Provérbios, Job, e Crónicas).

Não há, em contrapartida, targumes antigos que expliquem os livros deuterocanónicos. Os poucos que existem são tardios, baseiam-se no texto grego de Tobite e nas adições a Daniel e na oração de Ester. Portanto, o uso das Escrituras parafraseadas na liturgia hebraica, corrobora a autenticidade do cânon hebreu do Antigo Testamento.

IV.  O testemunho do Novo Testamento

Embora o exacto processo de agregação dos deuterocanónicos/apócrifos ao cânon hebreu pelo uso da Igreja antiga gere muitas interrogações, o que fica claro é que tais adições carecem por completo de autoridade por parte do Senhor Jesus, dos Apóstolos ou dos autores do Novo Testamento, que não a deram nem explicitamente nem por via de exemplo através de citá-los como Escrituras.

Em contrapartida, é uma evidência indirecta do cânon hebreu palestino, sobre o qual claramente existia um consenso no século I, o modo em que Jesus fez referência ao primeiro e ao último mártir segundo a ordem tradicional hebraica:

"Por isso disse a Sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns os matarão e perseguirão, para que se peçam contas a esta geração do sangue de todos os profetas derramado desde a criação do mundo, desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias, que pareceu entre o altar e o santuário. Sim, vos asseguro que se pedirão contas a esta geração." Lucas 11:49-51

Jesus refere-se aqui a todos os justos e enviados de Deus que sofreram o martírio segundo as Escrituras. A frase grega apo haimatos Abel eôs haimatos Zachariou, «desde (o) sangue de Abel ... até (o) sangue de Zacarias» (Lucas 11:51 = Mateus 23:35) parece abarcar a totalidade dos mártires do Antigo Testamento, desde Abel às mãos do seu irmão Caim, até o de Zacarias, que se narra em 2 Crónicas:

"O Senhor enviou-lhes profetas que deram testemunho contra eles para que se convertessem a ele, mas não lhes deram ouvidos. Então o Espírito de Deus revestiu Zacarias, filho do sacerdote Joiadá que, apresentando-se diante do povo, lhes disse: «Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do Senhor? Não tereis êxito, pois, por ter abandonado o Senhor, ele vos abandonará a vós». Mas eles conspiraram contra ele, e por ordem do rei, o apedrejaram no átrio da casa do Senhor." 2 Crónicas 24:17-21

No entanto, a referência a Abel e Zacarias como o primeiro e o último mártir, respectivamente, registados nas Escrituras não é cronológica. Há pelo menos um mártir posterior a Zacarias, a saber, Urias, filho de Semaías, que foi assassinado no século VII a.C., durante o reino de Joaquim (Jeremias 26:20-24); entretanto Zacarias tinha sido martirizado muito antes, no século IX a.C., durante o reino de Joás em Judá.

Como deve entender-se então a referência de Jesus a Abel e Zacarias? A amplitude da lista de mártires não é evidente no Antigo Testamento das nossas versões modernas, pois a ordem dos livros difere da ordem hebraica. No Antigo Testamento da maioria das edições modernas, os livros dos Profetas aparecem no final, começando por Isaías e finalizando com Malaquias. Em contrapartida, os 24 livros do cânon hebreu (que correspondem aos 39 das Bíblias protestantes) se ordenavam como se segue:

I.   A Torah (Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio)
II.  Os Profetas
A. Profetas anteriores: Josué, Juízes, Samuel I e II, Reis I e II)
B. Profetas posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
III. Os Escritos (Salmos, Provérbios, Job, Cantares, Rute, Lamentações, Qohélet [Eclesiastes], Ester, Daniel, Esdras-Neemias, Crónicas I e II).

Em outras palavras, aqui Crónicas figurava no final da lista. A abrangente expressão de Jesus adquire sentido quando, no contexto de juízo pelo sangue inocente derramado, se entende como referente ao primeiro e último assassinato registado nas Escrituras, segundo a ordem tradicional do cânon palestino: dizer «desde Abel até Zacarias» era equivalente a «de Génesis a Crónicas», ou seja desde o primeiro até ao último livro do cânon do Antigo Testamento. É como se hoje disséssemos, segundo a ordem tradicional do nosso Antigo Testamento, «De Génesis a Malaquias». Logo, estas palavras do Senhor implicitamente corroboram o cânon hebreu, e não o chamado alexandrino.

Uma evidência adicional do quanto dito provém do facto de que nos grandes unciais Sinaítico (Alef, século IV) e Alexandrino (A, século V) que contêm livros dos Macabeus, estes se encontram depois de Crónicas. Portanto, se Jesus tivesse admitido o suposto cânon alexandrino (com deuterocanónicos) os últimos mártires, tanto cronologicamente como segundo a ordem dos livros, seriam os heróis macabeus como Judas ou Jónatas.

Deve notar-se que, embora o Novo Testamento não dê um cânon ou lista autorizada de livros considerados inspirados para o que chamamos Antigo Testamento, a evidência indirecta sugere firmemente um cânon definido e já fixado de livros a cuja autoridade era válido apelar.

«Primeiro, é difícil exagerar a importância dos nomes ou títulos atribuídos aos escritos do AT pelos autores do NT: assim, "Escritura" (João 10:35; 19:36; 2 Pedro 1:20), "as Escrituras" (Mateus 22:39; Actos 18:24), "Santas Escrituras" (Romanos 1:2), "escritos sagrados" (2 Timóteo 3:15), "Lei" (João 10:34; 12:34; 15:25; 1 Coríntios 14:21), "a Lei e os Profetas" (Mateus 5:17; 7:12; 22:40; Lucas 16:16; 24:44; Actos 13:15; 28:23). Tais nomes ou títulos, embora não definam os limites do cânon, certamente supõem a existência de uma colecção completa e sagrada de escritos judeus que já estão segregados como separados e fixos.

Uma passagem (João 10:35) na qual se usa o termo "escritura" parece referir-se ao cânon do AT no seu conjunto: "e a Escritura não pode ser anulada." De igual modo a expressão "a lei e os profetas" é frequentemente usada num sentido genérico referindo-se a muito mais que meramente a primeira e segunda divisões do AT; parece antes referir-se à antiga dispensação no seu conjunto; mas o termo "a Lei" é o mais geral de todos. Aplica-se frequentemente a todo o AT, e aparentemente tinha nos tempos de Jesus entre os judeus um lugar similar ao que o termo "a Bíblia" tem entre nós. Por exemplo, em João 10:34; 12:34; 15:25, textos dos profetas ou mesmo dos Salmos são citados como parte de "a Lei"; em 1 Coríntios 14:21 também, Paulo fala de Isaías 28:11 como de uma parte de "a Lei". Estes nomes e títulos, consequentemente, são extremamente importantes; jamais são aplicados por escritores do NT aos apócrifos

G.L. Robinson e Roland K. Harrison, Canon of the Old Testament. Em G.W. Bromiley, Ed.: International Standard Bible Encyclopedia, Rev. Ed. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1979, 1: 597; negrito acrescentado.


Quase todos os livros do AT segundo o cânon palestino são citados individualmente no NT. As excepções são Ester, Eclesiastes, Cantares, Esdras-Neemias e os profetas menores Obadias, Naum e Sofonias. No entanto, estes três últimos formavam parte de um mesmo rolo dos doze profetas "menores" que sim é citado; Esdras e Neemias estavam unidos a Crónicas, que também é citado. Quanto a Ester, Eclesiastes (Qohélet) e Cantares, provavelmente os autores do NT não tiveram necessidade de usá-los. Em resumo, se se os toma pelos seus títulos, citam-se aproximadamente 80% dos livros do cânon hebreu, percentagem que se eleva a 90% se se os considera segundo os rolos de que formavam parte.

Em marcado contraste, não há nem tão-só uma citação de um livro deuterocanónico como Escritura em todo o Novo Testamento. O caso dos deuterocanónicos/apócrifos é que existem muitas alusões a eles no NT (ver a lista exaustiva de Craig A. Stevens, Noncanonical writings and New Testament Interpretation. Peabody: Hendrickson, 1993; Appendix 2, pp. 190-219), o que indica que não eram desconhecidos para os autores sagrados.

Em vista deste facto é bastante significativo que, à semelhança de Filão de Alexandria, eles nunca os citam como Escritura ou equivalente. Na verdade, os autores do NT citaram de outras fontes, incluindo autores pagãos e obras pseudo-epigráficas nunca aceites pelos cristãos de nenhuma denominação, às quais, evidentemente, também não chamam "Escritura".

V. O testemunho do Apocalipse de Esdras

O Apocalipse de Esdras (4 Esdras) é uma obra pseudo-epigráfica escrita em grego no século I da nossa era, que reflecte tradições consideravelmente mais antigas. Segundo este escrito hebreu, Esdras recebe o total da revelação divina em 94 livros que dita a cinco amanuenses. Ao concluir a tarefa, ao cabo de quarenta dias, recebe uma instrução de Deus. Claro que a história é fictícia, mas o dado interessante refere-se ao número de livros nas Escrituras hebraicas:

"E aconteceu que quando se cumpriram os quarenta dias, o Altíssimo falou comigo, e me disse: Os vinte e quatro livros que escrevestes primeiro, torna-os públicos para que aqueles que são dignos e aqueles que não são dignos possam ler daí; mas os [outros] setenta os guardarás e os entregarás aos sábios do teu povo."

The Apocalypse of Ezra. Transl. G.H. Box. London: SPCK, 1917; 14:45-46, p. 113; negrito acrescentado.

Em outras palavras, para o autor havia 24 livros inspirados – o mesmo número que no cânon palestino - que eram para leitura pública. Os 24 livros do cânon hebreu correspondem aos 39 do AT das Bíblias protestantes, já que 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis e 1 e 2 Crónicas, os Doze Profetas menores e Esdras-Neemias se contavam cada um como um livro.
Assim:

- A Torah:  (1) Génesis,  (2) Êxodo, (3) Levítico,  (4) Números, (5) Deuteronómio.
- Os Profetas Anteriores: (6) Josué, (7) Juízes, (8) Samuel I e II, (9) Reis I e II
- Os Profetas Posteriores: (10) Isaías, (11) Jeremias, (12) Ezequiel, (13)
- Os Doze (Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias)
- Os Escritos: (14) Salmos, (15) Provérbios, (16) Job, (17) Cantares, (18) Rute, (19) Lamentações, (20) Qohélet [Eclesiastes], (21) Ester, (22) Daniel, (23) Esdras-Neemias, (24) Crónicas I e II.

VI.  O testemunho de Flávio Josefo

Na mesma época de 4 Esdras (finais do século I d.C.) o historiador judeu romanizado Josefo (37-100) publicou Contra Apião ou Antiguidades dos Judeus. Diz Paul L. Maier:

"Josefo continua sendo a nossa única fonte sobrevivente para tanta informação extra-bíblica, e nenhuma lista lhe faria justiça. Dá também uma luz cheia de significado sobre as tácticas romanas militares e de assédio, assim como alguns detalhes singulares acerca dos imperadores júlio-cláudios. Sabe como manter o interesse, incluir diálogos, plasmar descrições gráficas, exemplificar com coisas específicas, e em geral deleitar o leitor com a cor, drama e excitação da Palestina nas várias épocas sem evitar nada do horror das suas conquistas ou das suas pendências civis. Também sobressai nas suas descrições geográficas e arquitectónicas da terra e das suas estruturas na antiguidade – áreas por vezes silenciadas nas Escrituras – e a sua exactidão está sendo progressivamente afirmada na actualidade por escavações arqueológicas."

Paul L. Maier, Josefo. Las obras esenciales. Grand Rapids: Editorial Portavoz, 1994, p. 10-11.

Não há a menor indicação de que Josefo esteja a dar um ponto de vista sectário. Pelo contrário, fala como representante auto-designado dos judeus em geral. Este autor destaca a exactidão e confiabilidade dos registos hebraicos, que não assentava na simples vontade humana, mas na inspiração de Deus. Diz Josefo (negrito acrescentado):

... porque não temos dezenas de milhares de livros discordantes e em conflito, mas apenas vinte e dois, contendo os registos de todos os tempos, os quais foram justamente considerados como divinos. E destes, cinco são os livros de Moisés ... Depois, os Profetas que se seguiram, compilaram a história do período desde Moisés até ao reino de Artaxerxes sucessor de Xerxes, rei da Pérsia, em treze livros, [sobre] o que se fez nos seus tempos. Os restantes quatro livros compreendem hinos a Deus e instruções práticas para os homens.

Os vinte e dois livros que menciona Josefo correspondem à Torá, aos Profetas e aos Escritos. São com toda a probabilidade os mesmos 24 da Bíblia hebraica e do Antigo Testamento protestante, artificialmente acomodados em seu número às letras do alefato ou alfabeto hebreu. Para isso Rute conta-se com Juízes e Lamentações com Jeremias; todos os livros históricos – incluídos Daniel e Job - agrupam-se com os profetas, e contam-se entre os Hagiógrafos ou Escritos Salmos, Provérbios Cantares e Eclesiastes. Estes, todos estes, e mais nenhuns são estimados, segundo Josefo, como de origem divina. Josefo prossegue:

Desde o tempo de Artaxerxes até ao nosso próprio cada acontecimento foi registado; mas os registos não foram considerados dignos do mesmo crédito que os da época mais antiga, porque a exacta sucessão de profetas não foi continuada. Mas que fé pusemos nos nossos próprios escritos se vê pela nossa conduta; pois apesar de ter passado tanto tempo, ninguém se atreveu a acrescentar-lhes nada, nem a subtrair nada deles, nem a alterar nada.


Antiguidades dos judeus 1:42 (negrito acrescentado).


Em resumo

... pela época de Jesus e dos Apóstolos, o número de livros estava fixado, e claramente correspondia aos do Cânon palestino, o único do AT que pode chamar-se propriamente tal. Além disso, estes livros eram tidos por divinos, e não outros. Finalmente, Josefo nos indica a data aproximada do fecho do cânon em meados do século V a.C., ao mencionar o reinado de Artaxerxes.

Em resumo, muito antes que se ratificasse o cânon em Jâmnia, existia obviamente um consenso entre os judeus acerca de quais livros deviam considerar-se sagrados e canónicos, e quais não.



Fernando D. Saraví
Mendoza-Argentina



 

3 comentários:

  1. Irmão, não li todo o post mas esse que li me chamou atenção, veja como é errado seu ponto de vista, e veja como uma prova a favor do uso e aceitação dos deuterocanônicos é engada por você:

    Seu texto:

    II . O cânon do Antigo Testamento: séculos IV e V

    Uma evidência da «fluidez» do cânon do AT naquele tempo, no que aos livros Eclesiásticos diz respeito, está indicada pelos mais antigos códices existentes: o Sinaítico e o Vaticano, ambos do século IV, e o Alexandrino, do seguinte século. Estes manuscritos que são cristãos, incluem o AT grego da Septuaginta, a tradução judia alexandrina pré-cristã, mas (além de perdas acidentais) diferem nos livros apócrifos/deuterocanónicos incluídos. O Sinaítico inclui, além de Tobite, Judite, 1 Macabeus, Sabedoria de Salomão e Eclesiástico (Sirá), 4 Macabeus (que nunca foi tido por canónico), enquanto exclui 2 Macabeus e Baruc. O códice Vaticano exclui todos os livros de Macabeus; pelo contrário, o Alexandrino inclui os quatro livros de Macabeus. Em outras palavras, nos manuscritos às vezes faltam livros tidos hoje por canónicos pela Igreja de Roma, e noutras ocasiões se incluem livros cuja canonicidade rejeita a citada Igreja.

    Esses exemplares da bíblia tem em seu interior livros aceitos pela igreja primitiva, mas veja como você de forma tendenciosa ou por uma questão de espírito de que procura negar uma coisa, e por isso mesmo não vê um erro seu:

    Veja seu argumento sobre os Sinaítico, Vaticano e o Alexandrino.

    Você alude que eles diferem entre livros, nisso você está certo
    Você erra de forma grosseira quando sua lógica diz que:
    Quando de forma velada no texto diz que a ausência desses ou daquele livro deuterocanônico anula a sua canonicidade, quando o correto seria dizer:
    Os exemplares Sinaítico, Vaticano e o Alexandrino, confirmam o uso pelos cristãos dos livros deuterocanônico, esses exemplares por vezes variam os livros, mas provam de forma inequívoca o uso dos deuterocanônico. E a ausência de um livro protocanonicos e ou deuterocanônico, não pode ser tida como o não uso do mesmo, tendo em vista que esses livros não foram achados, não significa dizer que eles não eram usados.
    Resumidamente, se os exemplares não tem esse ou aquele livros seja ele o Cânon católico ou os livros do AT aceito pelos protestantes isso não significa dizer que ele não era aceito, esse é o erro principal seu.
    O argumento que vocês constantemente usam que são os judeus que tem o poder de escolher quais livros são ou não são inspirados é tão falho.
    Irmão se os judeus têm o poder de escolher os livros inspirados, por que você aceita o novo testamento, pois eles negaram o novo?
    Irmão, para responder essa resposta você terá que dizer, foi a Igreja católica que disse que esse ou aquele livro do NT é inspirado, e se você aludir ao Espirito Santo, lhe digo que é ele que ajudou aos católicos a escolher quais eram os livros, mas:
    Foi o espírito santo que ajudou os judeus a escolher?
    Você nunca responderá essas e outras perguntas, pois não que ver qual é o que existe dse verdade sobre o Cânon!

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  2. Recomenda-se também a leitura de "O Cânon dos Judeus" de William Webster em:

    http://www.e-cristianismo.com.br/pt/bibliologia/241-o-canon-dos-judeus

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  3. Como andam para aí uns apologistas católicos a arremeter contra espantalhos, acho por bem fazer o seguinte esclarecimento para evitar mal-entendidos.

    Quando Josefo diz que:

    "Desde o tempo de Artaxerxes até ao nosso próprio cada acontecimento foi registado; mas os registos não foram considerados dignos do mesmo crédito que os da época mais antiga, porque a exacta sucessão de profetas não foi continuada"

    Não diz aqui que depois da época de Artaxerxes a PROFECIA CESSOU OU QUE DEIXARAM DE HAVER PROFETAS EM ISRAEL.

    O ponto é que O ESCRITO PELOS PROFETAS HEBREUS ATÉ À ÉPOCA DE ARTAXERXES É CONSIDERADO COMPLETAMENTE DIGNO DE CRÉDITO, e o que foi escrito depois não o é da mesma maneira.

    Outra ideia que, por vezes é referida, é que Josefo mencionou um ponto de vista sectário adaptado às decisões de Jâmnia.

    Mas esta ideia ignora três detalhes. Em primeiro e fundamental lugar que em Jâmnia não houve inovações. Em segundo lugar, que Josefo deixou a Palestina depois da guerra de 66-70 e não era muito bem visto pelos seus compatriotas. Em terceiro lugar, que as decisões dos rabinos de Jâmnia não se tornaram vinculantes de imediato, e pouca influência podiam ter sobre Josefo, que habitava comodamente em Roma. O facto é que Josefo expressa a posição judaica anterior a 70, que coincide com a posterior.

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