quinta-feira, 4 de abril de 2013

A controvérsia pascal - um dos primeiros episódios que atestam o primado do bispo de Roma?


Alguns católicos romanos alegam que a controvérsia pascal ocorrida em finais do século II representa um dos primeiros episódios que atestam o primado do bispo de Roma.
No entanto, a controvérsia pascal não se trata de um episódio em que o bispo romano Vítor exerceu um imaginário primado. É antes um episódio de um bispo de uma sede importante que extravasou as suas funções, talvez por um excessivo zelo uniformista, mas mais provavelmente por circunstâncias que detalho mais abaixo. Seja como for, creio que ficará claro que Vítor carecia de autoridade para impor alguma prática ao resto da igreja; que encontrou firme resistência entre os bispos da Ásia Menor; e que se a prática finalmente se impôs de maneira definitiva em Niceia (325) foi porque a maioria das comunidades da Igreja do século II, com a excepção notável das citadas asiáticas, já tinha este costume como regra.
Argumento católico
1) Para a celebração da Páscoa havia duas tradições distintas no seio da Igreja. Vítor quis unificar ambas as tradições e para isso ordenou que se celebrassem concílios locais para estudar o assunto. Ora, alguém disse a Vítor que ele não tinha autoridade para ordenar que se celebrassem esses sínodos episcopais fora do âmbito territorial de Roma? Não!!. Portanto, temos o primeiro facto assinalável deste assunto:
- O bispo de Roma ordenou que se celebrassem concílios locais para tratar o tema e assim se fez
2) A decisão tomada na maioria dos sínodos celebrados foi a de seguir a Páscoa segundo determinou o bispo de Roma. Não foi assim com as dioceses da Ásia, as quais insistiram em seguir o seu próprio costume. Então Vítor decide excomungá-los se não mudarem de opinião. Diante de uma decisão assim, qual foi a reacção de boa parte da cristandade?
Pedir a Vítor que reconsiderasse a sua decisão. Mas, atenção, ninguém, absolutamente ninguém utilizou o argumento de que Vítor não tinha autoridade para fazer o que queria fazer. Apresentaram-se várias razões para convencer Vítor mas entre elas não estava a de que "tu não tens autoridade para fazer o que estás fazendo"
O próprio Ireneu roga a Vítor que não excomungue os asiáticos por seguirem as suas próprias tradições mas em nenhum caso lhe faz a observação de que não pode fazê-lo.
3) E, finalmente, o tempo acabou dando razão a Vítor no essencial da sua petição e as igrejas da Ásia acabaram celebrando a Páscoa como o resto da cristandade.
Sobre Vítor e o papel que desempenhou na controvérsia pascal, é sem dúvida muito interessante a versão alla romana apresentada pelos católicos. É uma pena, no entanto, que segundo tudo o que conhecemos, nos aspectos que dizem respeito ao tema em discussão, não seja compatível com os factos.
1. Antes de tudo, o costume de celebrar a Páscoa no domingo seguinte ao 14 de Nissan, embora provavelmente não fosse o original, estava muito difundido já em finais do século II. Na realidade, na maioria das Igrejas já se celebrava desse modo, excepto na Ásia menor. Os cristãos asiáticos, baseados numa tradição que Eusébio chama “muito antiga”, celebravam a páscoa segundo o uso judeu, a 14 de Nissan. Mas, repito, em finais do século II o resto não tinha este costume, que alguns consideravam “judaizante” (por exemplo Hipólito de Roma, em seus Philosophumena 8,11). Portanto, não necessitavam de ser convencidos nem que se lhes ordenasse que se adaptassem ao uso que já era tradicional para eles; em tais circunstâncias não é de admirar que a posição que já no tempo de Vítor sustentava a maioria dos bispos fosse promulgada como a prática universal em Niceia. O tempo não deu razão a Vítor mais do que deu a Teófilo de Cesareia, Narciso de Jerusalém, Ireneu de Lyon, e tantos outros que observavam a Páscoa no domingo.
2. Segundo a argumentação católica, “Vítor quis unificar ambas as tradições e para isso ordenou que se celebrassem concílios locais para estudar o assunto”. Isto é duplamente errado. Em primeiro lugar, Vítor não queria unificar ambas as tradições, mas extirpar a asiática a favor da adoptada pela maioria das igrejas. Em segundo lugar, Eusébio, que é a fonte primária sobre esta controvérsia pascal ou quartodecimana, de modo algum insinua, nem muito menos diz, que os sínodos que por então se reuniram para tratar o assunto em diversos lugares foram convocados por Vítor.
Por este tempo levantou-se uma questão bastante grave ... Para tratar este ponto houve sínodos e reuniões de bispos, e todos unânimes, por meio de cartas, formularam para os fiéis de todas as partes um decreto eclesiástico: que nunca se celebre o mistério da ressurreição do Senhor de entre os mortos em outro dia que não no domingo, e que somente nesse dia guardemos o fim dos jejuns pascais.
Ainda se conserva até hoje um escrito dos que se reuniram naquela ocasião na Palestina; presidiram-nos Teófilo, bispo da igreja de Cesaréia, e Narciso, da de Jerusalém. Também sobre o mesmo assunto conserva-se outro escrito dos reunidos em Roma, que mostra Vítor como bispo; e também outro dos bispos do Ponto presididos por Palmas, que era o mais antigo, e outro das igrejas da Gália, das quais era bispo Ireneu.
Assim como também as de Osroene e as demais cidades da região, e em particular de Baquilo, bispo da igreja de Corinto, e de muitos outros, todos os quais, emitindo um único e idêntico parecer e juízo, estabelecem a mesma decisão.
História Eclesiástica V, 23:1-4
Mesmo se Vítor tivesse sido quem solicitou em primeiro lugar que se realizassem sínodos, isso não prova algum primado; antes demonstraria o contrário, ou seja, que não podia impor a sua vontade e necessitava do consenso do resto dos bispos.
Mas além disso, do relato de Eusébio não se depreende de modo algum que os sínodos tenham sido iniciados por Vítor, nem sequer de maneira oficiosa. E quando Eusébio nomeia os principais sínodos põe em primeiro lugar os da Palestina sob Teófilo e Narciso, e menciona vários outros além do presidido por Vítor. Mais, apesar do historiador dizer com todas as letras que o escrito de Vítor se conservava na sua própria época, omite a sua citação, e em troca cita neste assunto o asiático Polícrates, Ireneu e, a favor da posição maioritária, bispos da Palestina e Síria:
Os bispos da Palestina antes mencionados, Narciso e Teófilo, e com eles Cassio, bispo da igreja de Tiro, e Claro da de Ptolemaida, assim como os que haviam se reunido com estes, deram detalhadas e abundantes explicações acerca da tradição sobre a Páscoa, vinda até eles por sucessão dos apóstolos, e ao final da carta acrescentam textualmente:
«Procurai que se envie cópia de nossa carta a cada igreja, para que não seja­mos responsáveis pelos que, com grande facilidade, desencaminham suas próprias almas. Manifestamos a vós que em Alexandria celebram precisa­mente o mesmo dia que nós, pois entre eles e nós vêm-se trocando corres­pondência epistolar, de modo que nos é possível celebrar o dia santo em consonância e simultaneamente».
História Eclesiástica V, 25
Embora não conste, pois, que Vítor tivesse sido o promotor desses sínodos, em contrapartida foi quem, conjuntamente com a Igreja de Roma, solicitou a reunião dos bispos da Ásia Menor, precisamente onde se encontrava concentrada a oposição. E neste caso particular, eis que a resposta lhe foi adversa.
Pergunta o católico retoricamente: “Alguém disse a Vítor que ele não tinha autoridade para ordenar que se celebrassem esses sínodos episcopais fora do âmbito territorial de Roma?
A resposta é que não consta que tenha “ordenado” alguma coisa. No caso dos asiáticos, como disse, os romanos com Vítor à cabeça lhes solicitaram que se reunissem; não poderiam ordená-lo. Na sua resposta, Polícrates afirma que ele e os demais asiáticos celebram intacto esse dia, “sem acrescentar nem tirar nada”. Cita em seu favor Felipe, João, Policarpo, Traseas, Sagaris, Papírio, e Melitão, como também sete da sua própria família que foram bispos antes dele, e prossegue:
«Portanto, irmãos, eu com meus sessenta e cinco anos no Senhor, que conversei com irmãos procedentes de todo o mundo e que recorri toda a Sagrada Escritura, não me assusto com os que tratam de impressionar-me, pois os que são maiores do que eu disseram: Importa mais obedecer a Deus do que aos homens» [Palavras de Pedro e dos apóstolos! At. 5:29].
Depois acrescenta isto que diz sobre os bispos que estavam com ele quando escrevia e eram da sua mesma opinião:
«Poderia mencionar os bispos que estão comigo, que vós me pedistes que convidasse e que eu convidei. Se escrevesse seus nomes, seria demasiado grande seu número. Eles, mesmo conhecendo minha pequenez, deram seu comum assentimento à minha carta, sabedores de que não é em vão que levo meus cabelos brancos, mas que sempre vivi em Cristo Jesus».
História Eclesiástica V, 24: 7-8
Pode ver-se pelo que transcreve Eusébio que, apesar de Vítor e Polícrates encabeçarem as respectivas comunidades, este último dirige-se aos romanos sempre no plural («irmãos», «vós») e não pessoalmente a Vítor. E também que, longe de tratar-se de uma “ordem papal”, o ponto de partida da reunião de Polícrates e seus colegas foi um pedido dos ministros de Roma. Obviamente, solicitar não é sinónimo de ordenar.
Tendo pois precisado a participação de Vítor como um dos protagonistas da controvérsia, fica por tratar a razão da sua tentativa fracassada de excomungar os asiáticos e a natureza da reacção dos outros bispos.
Quanto à primeira questão, na passagem citada da sua História Eclesiástica (IV, 24), Eusébio simplesmente anota a atitude de Vítor à resposta de Polícrates. Não dá nem sugere nenhuma causa de tal virulenta reacção.
A controvérsia quartodecimana já havia sido levantada antes, entre 150 e 155, quando Policarpo de Esmirna tratou o assunto em Roma com o bispo local, Aniceto. Nenhum conseguiu convencer o outro, mas nem por isso romperam a comunhão. Mais tarde, em 170, ressurgiu a controvérsia em Laodiceia. Nesta ocasião Melitão de Sardes defendeu a prática quartodecimana e Apolinário de Hierápolis a posição oposta. No entanto, a prática divergente não havia sido causa de séria divisão, e na verdade pelo que Ireneu diz a Vítor, em finais do século II ambas as tradições ainda coexistiam pacificamente no Ocidente (Eusébio, História Eclesiástica V, 24: 11-17); segundo o bispo de Lyon, “o desacordo quanto ao jejum confirma o acordo quanto à fé”. Então, de novo, porquê a posição intransigente de Vítor?
Ainda que não fosse impossível que Vítor se julgasse com algum direito especial por ser o bispo de Roma, o mesmo Eusébio dá-nos noutro lado uma pista sobre uma provável motivação mais concreta e urgente que explicaria a tentativa de excomunhão dos quartodecimanos.
Com efeito, um pouco antes no mesmo livro V da sua História Eclesiástica, Eusébio refere-se aos hereges montanistas da Ásia e Frígia, e a seguir fala-nos de outros da mesma laia:
[Do cisma de Blasto em Roma]
Os outros [hereges, cismáticos, falsos profetas] floresciam em Roma, eram dirigidos por Florino, um excluído do presbitério da Igreja, e com ele Blasto, que tivera uma queda similar. Estes arrastaram muitos da Igreja e os submeteram à sua vontade, tentando um e outro introduzir novidades sobre a verdade, cada um por seu lado.
História Eclesiástica V, 15; negrito acrescentado.
Eusébio não explica em que consistia a heresia de Florino e de Blasto. No entanto, na obra de Pseudo-Tertuliano Contra todas as heresias (capítulo 8), o tal Blasto é acusado de judaizante:
Além de todos estes, está igualmente Blasto, que introduziria sub-repticiamente o judaísmo. Pois ele diz que a páscoa não deve ser guardada de outro modo senão de acordo com a lei de Moisés, no [dia] décimo quarto do mês.
Por outro lado, Paciano numa epístola caracteriza Blasto como montanista, facto que já é sugerido porque tanto Eusébio como o Pseudo-Tertuliano o nomeiam ambos imediatamente a seguir de Montano e seus seguidores. Em contrapartida, Florino era um gnóstico (História Eclesiástica IV, 20); que se tratava de duas heresias diferentes o confirma Eusébio ao dizer que cada um por seu lado se esforçava por introduzir novidades. E o corrobora o facto de que Ireneu escreveu a cada um em separado: a Blasto uma epístola Sobre o Cisma e a Florino uma Sobre a monarquia (ou sobre que Deus não é o autor do mal; História Eclesiástica V, 20). Ora, Eusébio menciona ambos, Florino e Blasto, no mesmo parágrafo, em razão de ambos terem sido expulsos do presbitério da Igreja de Roma, e de terem sido contemporâneos. Sabe-se que Florino agiu quando Vítor era bispo, pelo que o mesmo deve ser certo para Blasto. Assim, pois, Blasto era cismático, montanista, quartodecimano, e estava extraviando muitos em Roma, onde Vítor era bispo.
Portanto, aqui temos uma boa causa para a desmesurada reacção de Vítor contra os asiáticos, a saber, que tinha, por assim dizê-lo, o inimigo em sua própria casa. Se a Igreja universal mostrasse coincidência quanto à celebração da Pascoa, Vítor teria um forte argumento contra Blasto e seus seguidores. Mas então se deparou com a firme resistência dos asiáticos, e perante os sólidos argumentos destes quis recorrer à excomunhão, note-se bem, “de todos os irmãos daquela região, sem excepção” (História Eclesiástica V, 24:9).
Agora vejamos a reacção dos outros bispos que, como Vítor, sustentavam o costume de celebrar a Ressurreição no domingo seguinte ao 14 de Nissan.
Tal como a apresenta a argumentação católica, tal reacção consistiu em:  
Pedir a Vítor que reconsiderasse a sua decisão. Mas, atenção, ninguém, absolutamente ninguém utilizou o argumento de que Vítor não tinha autoridade para fazer o que queria fazer. Apresentaram-se várias razões para convencer Vítor mas entre elas não estava a de que "tu não tens autoridade para fazer o que estás fazendo"
Gostaríamos de saber como se chega a esta conclusão de que ninguém questionou a autoridade de Vítor. Esta afirmação parece ainda mais ousada quando se sabe que a única carta que transcreve Eusébio é a de Ireneu, que deve ter sido uma das mais suaves, pois diz Eusébio:
E Ireneu, fazendo honra a seu nome [Eirenaios = pacífico], pacificador pelo nome e por seu próprio carácter, fazia estas e semelhantes exortações e servia de embaixador em favor da paz das igrejas, pois tratava por correspondência epistolar ao mesmo tempo, não somente com Vítor, mas também com muitos outros chefes de diferentes igrejas, sobre o problema debatido.
História Eclesiástica IV, 24: 18
Os argumentos de Ireneu foram:
1. Que na sua própria região se havia mantido a paz apesar das práticas diferentes.
2. Que os antecessores de Vítor desde o tempo de Sisto (em 120) tinham observado o domingo mas guardavam a paz com os que seguiam a prática quartodecimana.
3. Que nunca ninguém foi rejeitado pela prática quartodecimana.
4. Que sendo bispo Aniceto não somente não brigou com Policarpo, mas inclusive teve a deferência de ceder ao bispo de Esmirna a celebração da eucaristia.
A citação de Ireneu termina com as seguintes palavras: “E toda a Igreja tinha paz, tanto os que observavam o dia como os que não o observavam”. Isto implica que era agora Vítor quem estava perturbando a paz com a sua tentativa de excomungar os asiáticos. E o tempo mostrou que não teve êxito nisto, facto que é notado pelo editor Argimiro Velasco Delgado: “A excomunhão não surtiu efeito, a julgar pelo termo peiratai (tentou), porém, segundo o texto, não é possível duvidar que Vítor a decretou” (1:334, nota 369).
Ora, mesmo que se admita que o mais que fez Ireneu foi acusar implicitamente o bispo romano de perturbar a paz, não é possível pensar que os outros bispos descontentes com o proceder de Vítor fossem tão diplomáticos. Com efeito, depois de mencionar o descontentamento, diz Eusébio que estes colegas “repreendem Vítor com bastante energiasegundo a versão de Velasco Delgado. Não parece que repreender com bastante energia tenha consistido em simplesmente argumentar. Além disso, o tradutor da edição que cito foi mais moderado ainda que Ireneu ao verter com extrema delicadeza a expressão grega plêktikôteron kazaptomenôn tou Biktoros. Em Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series (1:243) traduz-se com mais exatidão “sharply rebuking Victor”.
Com efeito, o verbo grego kazaptô é muito mais forte que uma simples repreensão. Em sentido militar, pode significar “atacar” ou “atirar-se para cima de alguém”; e no contexto que nos ocupa, significa “repreender” ou “reprovar com veemência”. Mas se dúvidas houvesse, Eusébio lhe acrescentou o advérbio plêktikôteron, que significa neste caso, “duramente”, “belicosamente”, como aos socos (de plêktikos, à porrada).
De modo que, embora os católicos gostem de pensar o contrário, é claro que Vítor foi repreendido com dureza pelos seus colegas por causa de ter pretendido excomungar os orientais.
Em jeito de conclusão, portanto, reiteramos o que já mostramos em Supremacia papal nos escritos ante-nicenos?, que o bispo romano Vítor não conseguiu impor o costume romano aos orientais e, quando pretendeu excomungá-los, trouxe sobre si o desagrado generalizado dos seus colegas e a repreensão de Ireneu, que por outros aspectos era um admirador da Igreja de Roma. E Vítor teve que engolir a sua cólera, pois não tinha autoridade para proceder como queria.

1 comentário:

  1. George Salmon escreveu:

    "Suponhamos que tivesse sido Ireneu que tinha precipitadamente rompido comunhão com as Igrejas Asiáticas; suponhamos que Vítor tivesse então escrito uma carta a Ireneu, repreendendo-o duramente, e tivesse escrito também a outros bispos, alertando-os para não se separarem daqueles que tinham sido injustificadamente excomungados; e suponhamos que em consequência desta ação de Vítor a ameaça de cisma tivesse sido evitada, não seria isso exposto como uma decisiva prova da Supremacia Papal?"

    (The Infallibility Of The Church [London, England: John Murray, 1914], p. 386)

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