quinta-feira, 7 de março de 2013

Sobre a inspiração das Escrituras


“A inspiração – mais particularmente, a inspiração profética – foi reconhecida por muitos como a característica distintiva da colecção do Antigo Testamento quando se a reconheceu como completa. A colecção estava completa em princípio, segundo Josefo, quando a ‘exacta sucessão de profetas’ terminou em Israel. Os rabinos tiveram por profetas os autores dos principais livros históricos (Josué, Juízes, Samuel, Reis) como também do Pentateuco e dos Salmos. Segundo os livros posteriores do Novo Testamento, toda a Escritura hebraica (fosse o texto original ou na versão grega) ‘é inspirada por Deus’ (2 Timóteo 3:16), pois ´homens movidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus’ (2 Pedro 2:21).
Os cristãos tiveram razão ao discernir o Espírito Santo igualmente activo nas Escrituras do Novo Testamento ... Mas tem havido uma tendência de isolar a obra do Espírito na composição das escrituras individuais do Novo Testamento, da sua obra posterior em relação com elas. Os cristãos dos primeiros séculos não pensavam que a inspiração tinha cessado com o último livro do Novo Testamento; continuaram conscientemente gozando de inspiração eles próprios (embora não unida com a autoridade apostólica que põe os escritos do Novo Testamento num nível singular)...
A obra do Espírito Santo não se discerne mediante as ferramentas comuns do ofício do historiador. O seu testemunho interior dá a certeza aos ouvintes ou leitores da Escritura de que nas suas palavras o próprio Deus se dirige a eles; mas quando alguém está a considerar o processo pelo qual o cânon da Escritura ganhou forma seria mais sábio falar da providência ou guia do Espírito que do seu testemunho... Certamente, quando alguém olha para trás o processo de canonização nos primeiros séculos cristãos, e recorda algumas das ideias de que eram capazes certos escritores eclesiásticos dessa época, é fácil concluir que ao chegar a uma conclusão sobre os limites do cânon eles foram guiados por uma sabedoria maior do que a sua. Pode ser que aqueles cujas mentes tinham sido em grande medida formadas pela Escritura tal como foi canonizada achassem natural realizar um juízo deste tipo. Mas não é mera retrospecção dizer, com William Barclay, que ‘os livros do Novo Testamento tornaram-se canónicos porque ninguém os pôde impedir’ ou, na linguagem exagerada de Oscar Cullmann, que ‘os livros que formariam o futuro cânon se impuseram na Igreja pela sua autoridade apostólica intrínseca, como ainda o fazem, porque o Kyrios Cristo fala neles’.”
(F.F. Bruce, “The Canon of Scripture”. Downers Grove: InterVarsity Press, 1988, pp. 280-282).
Dado que os livros sagrados têm uma autoridade intrínseca que provém do seu Autor, o seu carácter canónico não depende da sanção humana em geral, nem eclesiástica em particular. A Igreja não decidiu nem decretou o cânon, mas o discerniu ou reconheceu, e a seguir o confessou e proclamou.

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