domingo, 24 de março de 2013

A doutrina de Sola Fide como a entenderam os Reformadores


Os apologistas católicos, por ignorância culposa ou dolosa, costumam caricaturar a doutrina de Sola Fide ao seu gosto. Eis aqui algumas amostras do que os Reformadores verdadeiramente afirmaram; podem ver-se muitas mais em Philip Schaff, The Creeds of Christendom. With a history and critical notes. Vol. 3: The Evangelical Protestant Creeds, 6th Ed. Grand Rapids: Baker Books, 1983 (original 1931).
 
Cremos, portanto, ensinamos e confessamos que esta mesma coisa é a nossa justiça diante de Deus, a saber, que Deus nos perdoa os pecados por mera graça, sem consideração alguma das nossas obras anteriores, presentes ou seguintes, ou do nosso valor ou mérito. Pois ele nos outorga e imputa a justiça da obediência de Cristo; por causa desta justiça somos recebidos na graça por Deus e contados como justos.
 
Cremos, também, ensinamos e confessamos que só a fé é o meio e instrumento pelo qual nos apossamos de Cristo, e assim em Cristo daquela justiça que é proveitosa diante de Deus; pois esta fé, por causa de Cristo, nos é imputada como justiça (Romanos 4:5).
 
Cremos, mais ainda, ensinamos e confessamos que esta fé justificante não é um mero conhecimento da história de Cristo, mas um dom de Deus pelo qual chegamos ao correcto conhecimento de Cristo como nosso Redentor na Palavra do Evangelho, e confiamos n`Ele, isto é, que por causa somente da sua obediência temos por graça a remissão dos pecados, somos contados santos e justos diante de Deus o Pai, e alcançamos a salvação eterna...
 
...
 
Cremos, ensinamos e confessamos que, embora a contrição que precede e as boas obras que se seguem, não pertençam ao artigo da justificação diante de Deus, não se deve imaginar uma tal fé justificante que possa existir e permanecer ao lado de uma má intenção para pecar e para agir contra a consciência. Mas depois que o homem é justificado pela fé, então a fé verdadeira e viva opera pelo amor (Gálatas 5:6), de modo que as boas obras sempre seguem a fé justificante, e são certamente encontradas com ela, sempre que se trate de uma fé viva e verdadeira. Pois a verdadeira fé nunca está sozinha, mas sempre tem com ela amor e esperança.
 
Fórmula da Concórdia, 1576, 1584.
 
Segundo o apóstolo no seu tratamento da justificação, justificar significa perdoar os pecados, absolver da falta e seu correspondente castigo, receber em graça, declarar um homem justo .... (Romanos 8:33,34; Actos 13:38,39)
 
Ora, é absolutamente certo que todos somos pecadores por natureza, e diante do trono do juízo de Deus somos acusados de impiedade, e réus de morte. Mas somos justificados - isto é, declarados livres do pecado e da morte - por Deus, o Juiz, só pela graça de Cristo, e não por algum respeito ou mérito nosso (Rom 3:23,24).
 
Pois Cristo tomou sobre si e carregou os pecados do mundo, e satisfez a justiça de Deus. Deus, portanto, é misericordioso para com os nossos pecados só por Cristo, que sofreu e ressuscitou, e não no-los imputa a nós. Mas imputa a justiça de Cristo a nós como se fosse nossa, de modo que agora não só somos limpos do pecado, purificados e santos, mas também dotados da justiça de Cristo; sim, e livres do pecado, morte e condenação (2 Cor. 5:19-21); finalmente, somos justos, e herdeiros da vida eterna. Para falar propriamente, então, é só Deus que nos justifica, e justifica somente por Cristo, ao não nos imputar os nossos pecados, mas nos imputando a justiça de Cristo (Rom. 4:23-25).
 
E porque recebemos esta justificação, não por alguma obra, mas pela fé na misericórdia de Deus e em Cristo, por isso ensinamos e cremos, com o apóstolo, que o homem pecador é justificado somente pela fé em Cristo, não pela lei ou por quaisquer obras ... (Romanos 3:28; 4:2,3,5; Efésios 2:8-9....)
 
...
 
Portanto, não dividimos o benefício da justificação, dando parte à graça de Deus ou a Cristo, e parte a nós, à nossa caridade, obras ou mérito; mas o atribuímos totalmente para o louvor de Deus em Cristo, e isto através da fé. Mais ainda, o nosso amor e as nossas obras não podem agradar a Deus se forem feitas de modo que não sejam justas; portanto, devemos primeiro ser justos antes que possamos amar ou fazer quaisquer obras justas...
 
Portanto, neste assunto não falamos de uma fé fingida, vã ou morta, mas de uma fé viva e vivificante; a qual, por Cristo (que é vida e dá vida), a quem apreende, tanto é como é chamada, uma fé viva, e demonstra ser tal por obras vivas. E, portanto, São Tiago não fala nada contrário a esta doutrina; pois ele fala de uma fé vã e morta, da qual alguns se vangloriaram, mas sem ter Cristo vivendo neles por fé. E também diz São Tiago que as obras justificam (2:14-26); contudo não é contrário a Paulo … mas mostra que Abraão declarou a sua fé viva e justificante por obras. E assim fazem todos os piedosos, que porém confiam só em Cristo, não nas suas próprias obras. Pois o apóstolo diz outra vez: “Já não vivo eu, mas Cristo vive em mim. E a vida que vivo na carne, a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois se a justiça fosse mediante a lei, então Cristo morreu em vão” (Gálatas 2:20,21).
 
Segunda Confissão Helvética, 1566.

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