terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Defendamos Cipriano de Cartago dos apologistas romanos


Existem dezenas de sites católicos que nas suas páginas atribuem a Cipriano de Cartago a seguinte frase: “Estar em comunhão com o Papa é estar em comunhão com a Igreja Católica.” (Epist. 55, n.1, Hartel, 614);
Ora, acontece que Cipriano de Cartago nunca disse isto.
Esta é uma entre várias citações fraudulentas atribuídas a Cipriano que apologistas romanos sem escrúpulos alardeiam pela internet fora, numa infeliz tentativa de provar a existência do papado no tempo de Cipriano.
Alguém que não tenha acesso à carta e conheça algo do pensamento de Cipriano pode ficar com uma impressão extremamente errada.
Quem tenha interesse na verdade, deverá saber que Cipriano nunca disse esta frase (veremos abaixo a citação autêntica) e ter em conta que o contexto desta epístola, como o de muitas outras de Cipriano, é o chamado cisma novaciano, produzido na Igreja ocidental em meados do século III. Traduzo a seguinte informação:
Novacianismo. Um cisma rigorista na Igreja do ocidente, que surgiu a partir da perseguição de [l imperador] Décio (249-250). O seu líder, Novaciano, era um presbítero de Roma e o autor de uma obra importante (e completamente ortodoxa) sobre a doutrina da Trindade. Na sua atitude para com muitos cristãos que se tinham envolvido com o paganismo durante a perseguição, Novaciano alinhou ao princípio com Cipriano, bispo de Cartago, em perdoar a excomunhão vitalícia consecutiva à defecção. Mais tarde, aparentemente por estar contrariado com a eleição de Cornélio como Papa (251), uniu-se ao partido rigorista, que depreciava tais concessões, e foi eleito bispo rival de Roma. As opiniões novacianistas foram aprovadas por Antíoco mas rejeitadas por Dionísio em Alexandria. O próprio Novaciano sofreu o martírio sob Valeriano em 257-258.
F.L. Cross, Ed.: The Oxford Dictionary of the Christian Church. London: Oxford University Press, 1958, p. 968.
Em outras palavras, como consequência do cisma ocorrido em Roma, havia nessa cidade um bispo legítimo (Cornélio), reconhecido pelos outros bispos em comunhão e particularmente por Cipriano (veja-se a sua Epístola 41 [45 na Edição de Oxford]) e um cismático, ou antipapa, ou seja Novaciano. Cipriano havia trocado abundante correspondência com Cornélio e a sua Igreja sobre o cisma de Novaciano (Epístolas 42-50 [ed. Oxford 46,47,49,50 – 54]).
Ora, o motivo da carta da qual os romanistas supostamente extraíram a breve citação falsa foi que o bispo de Numídia, Antoniano, tinha recebido cartas de Novaciano e estava a inclinar-se para os cismáticos rigoristas. Por isso Cipriano escreve para confirmar Antoniano na sua posição inicial e para defender Cornélio como o legítimo bispo de Roma.
Cipriano a Antoniano seu irmão, saúde. Recebi as tuas primeiras cartas, queridíssimo irmão, mantendo firmemente a concórdia do colégio sacerdotal, e aderindo à Igreja Católica, nas quais anunciavas que não guardavas comunhão com Novaciano, mas seguias o meu conselho, e mantinham um comum acordo com Cornélio, nosso co-bispo [agora segue-se o texto autêntico da citação em causa]. Escreveste-me, também, que transmitisse uma cópia dessas mesmas cartas a Cornélio nosso colega, de modo que ele pudesse deixar de lado toda a ansiedade, e saber de imediato que guardas comunhão com ele, ou seja, com a Igreja Católica.
Cipriano, Epístola 51 [55 Ed. Oxford]: 1
Mais adiante, Cipriano fala com maior extensão de Cornélio, a quem chama “nosso queridíssimo irmão”. Fala do seu valor na perseguição, salienta que não é um intruso mas um fiel ministro que tinha passado por todos os ofícios eclesiásticos antes de ser proclamado bispo, e que na realidade, a dignidade episcopal lhe foi imposta contra a sua vontade. Também fala da própria eleição, o que nos dá uma ideia de como deviam ser eleitos os bispos de Roma (e de outras partes) no século III, coisa muito diferente da prática actual:
E ele foi feito bispo por muitíssimos dos nossos colegas que estavam então presentes na cidade de Roma ... Mais ainda, Cornélio foi feito bispo pelo juízo de Deus e de seu Cristo, pelo testemunho de quase todo o clero, pelo voto do povo que então estava presente, e pela assembleia de anciãos sacerdotes e homens bons, quando ninguém o havia sido assim antes dele, quando o lugar de Fabião, isto é, quando o lugar de Pedro e o grau do trono sacerdotal estava vacante; o qual sendo ocupado pela vontade de Deus, e estabelecido pelo consentimento de todos nós, quem quer que agora deseje tornar-se um bispo, deve necessariamente sê-lo feito a partir de fora; e não pode ter a ordenação da Igreja quem não mantém a unidade da Igreja.
Cipriano, Epístola 51 [55 Ed. Oxford]: 8
Agora pode entender-se melhor a que se refere Cipriano: se Antoniano estabelecesse laços de comunhão com o bispo cismático, Novaciano, em vez de com o legitimamente eleito, Cornélio, estaria com isso fazendo-se cismático ele próprio. Pelo contrário, ao manter a comunhão com Cornélio conservava-se dentro da comunhão universal ou católica.
Que é disto que se trata, e não de que Cipriano considerasse Cornélio como seu superior hierárquico, o mostra o facto de o chamar “nosso co-bispo” e “nosso colega”.
A mesma carta dá testemunho de que em cada congregação era o consenso dos membros (naturalmente, com os pastores à cabeça) e na Igreja universal o acordo dos bispos e não a primazia do bispo de Roma, o que permitia estabelecer as decisões:
E isto também escrevi com grande extensão a Roma, ao clero que ainda estava actuando sem um bispo, e aos confessores, Máximo o presbítero, e o resto que então estavam encerrados na prisão, mas que agora estão na Igreja, reunidos com Cornélio. Podes saber que escrevi isto da resposta deles, pois na sua carta escreveram assim: “No entanto, o que tu próprio declaraste num assunto tão importante é satisfatório para nós, que a paz da Igreja deve manter-se antes de tudo; então, que uma assembleia para conselho seja reunida, com bispo, presbíteros, diáconos e confessores, assim como com os laicos que permanecem fiéis, e nela tratássemos o assunto dos caídos”. Acrescentou-se também – escrevendo então Novaciano, ... e subscrevendo o presbítero Moisés, então ainda um confessor, mas agora um mártir- que devia conceder-se a paz aos caídos que estavam enfermos e agonizantes. Esta carta foi enviada por todo o mundo, e levada ao conhecimento de todas as igrejas e de todos os irmãos.
De acordo, porém, com o que antes havia sido decidido, quando a perseguição foi suprimida, e houve oportunidade de reunir-se, um grande número de bispos, cuja fé e a divina protecção nos tinha preservado em bem-estar e segurança, nos reunimos; e tendo-se trazido à colação as Sagradas Escrituras de ambos os lados, equilibramos a decisão com ampla moderação, de modo que nem se negasse por completo a esperança de comunhão e paz aos caídos, não fosse que caíssem ainda mais na desesperação, e, por a Igreja estar fechada para eles, vivessem, mundanamente, como pagãos; nem, por outro lado, se perdoasse a censura do Evangelho, de modo que se apressassem precipitadamente para a comunhão, mas o arrependimento retardasse, e a clemência paternal fosse penosamente desprezada, e os casos, e os desejos, e as necessidades dos indivíduos fossem examinados, de acordo com o que está contido num pequeno livro, que confio te tenha chegado, no qual as várias rubricas das nossas decisões foram recopiladas. E para evitar que porventura pudesse parecer insatisfatório o número de bispos de África, também escrevemos a Roma, ao nosso colega Cornélio, respeitante a isto, o qual por sua vez reunindo um concílio com muitíssimos bispos, concorreu na mesma opinião que havíamos sustentado, com igual gravidade e ampla moderação.
Relativamente à qual se tornou agora necessário escrever-te, para que possas saber que nada fiz de ânimo leve, mas  ... tinha posto tudo à determinação comum do nosso concílio, e na verdade não tinha comunicado com nenhum dos caídos, enquanto havia ainda uma abertura pela qual os caídos poderiam receber não somente perdão, mas também uma coroa. No entanto depois, como o exigia o acordo do nosso colégio, e a vantagem de reunir a irmandade toda junta, e de sarar a sua ferida, me submeti à exigência dos tempos, e pensei que a segurança de muitos devia ser provida; e não retrocedo agora destas coisas que foram uma vez determinadas no nosso concílio de comum acordo, embora muitas coisas sejam ventiladas pelas vozes de muitos, e se profiram mentiras contra os sacerdotes de Deus da boca do diabo, para romper a concórdia da unidade católica.
Cipriano, Epístola 51 [55 Ed. Oxford]: 5-7
Desta carta, como de outros escritos de Cipriano, vê-se que para a Igreja católica ou universal, cuja unidade ele tanto valorizava, a validade das decisões dependia de que houvesse um consenso entre os bispos, quantos mais melhor. De facto, em vez de pedir a Cornélio que certificasse com a sua própria autoridade “papal” a decisão dos bispos africanos, pede ao seu co-bispo, como gosta de chamá-lo, que reúna o maior número possível de colegas com o fim de dar plena validade às conclusões.
Finalmente, na mesma carta que os romanistas tão atinadamente invocam, podemos ver que o bispo de Cartago não considerava que uns bispos fossem superiores em autoridade a outros:
Enquanto permaneça o vínculo da concórdia, e persista o sacramento indiviso da Igreja Universal, cada bispo dispõe e dirige seus próprios actos, e deverá prestar contas dos seus propósitos ao Senhor.
Cipriano, Epístola 51 [55 Ed. Oxford]: 21; negrito acrescentado.
Palavras que seriam muito difíceis de entender se um bispo estivesse posto acima de todos os outros.
Creio que o até aqui apresentado é suficiente para clarificar o panorama tanto para católicos como para não católicos.

4 comentários:

  1. Outra frase que Cipriano nunca disse foi:

    “Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica.” (Epist. 48, n.3, Hartel, 607).

    Esta citação de Cipriano está adulterada e isolada do contexto. As palavras «Roma» e «trono» são interpolações, pois não constam do texto original.

    O texto a que esta citação se refere encontrei na edição ANF na epístola 44 de Cipriano. http://www.ccel.org/ccel/schaff/anf05.iv.iv.xliv.html

    E diz assim:

    "Porque nós, que fornecemos todas as pessoas que navegam daqui com um plano para que possam navegar sem qualquer ofensa, sabemos que os exortamos a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica (ut ecclesiae catholicae matricem et radicem agnoscerent ac tenerent)".

    O contexto é o seguinte.

    Esta carta de Cipriano é dirigida a Cornélio.

    Naquela altura havia um cisma na comunidade cristã de Roma, e era vital para os católicos cartagineses entrar em comunhão lá com a comunidade católica. Esta era a comunidade liderada por Cornélio, o bispo da Igreja Católica em Roma, e não a de Novaciano, o líder de um grupo cismático.

    Cipriano que era bispo de Cartago, no norte de África, menciona que pediu àqueles que viajavam para Roma para ter muito cuidado com o partido a que se juntariam naquela cidade para ter comunhão. Ele exortou-os "... a reconhecer e manter a raiz e matriz da Igreja Católica." A matriz e raiz aqui não se refere à Igreja Romana, como tal, mas o «seio e raiz» são a Igreja Católica.

    Em outras palavras, o que Cipriano diz é que exortou os cartagineses a não sair da raiz e do seio da Igreja Católica, da qual a Igreja Romana era uma parte, juntando-se em Roma ao grupo liderado por Novaciano.

    Portanto, esta passagem não tem a ver com uma supremacia jurisdicional da Igreja de Roma sobre as demais Igrejas. O primeiro bispo de Roma que explícita e claramente manifesta pretensões de supremacia sobre a Igreja universal é Leão Magno no século V. Atribuir tal ideia a Cipriano ou a qualquer outro Padre da Igreja anterior ao século V é um anacronismo.

    Para mais informações sobre Cipriano ver:

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/02/supremacia-papal-nos-escritos-ante.html

    http://www.e-cristianismo.com.br/pt/apologistas/248-cipriano-de-cartago-e-a-catedra-de-pedro

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/10/mateus-1618-nos-padres-da-igreja.html

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2011/03/igreja-primitiva-sobre-o-papado-segundo.html

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  2. Sugiro que os leitores do blog também leiam as respostas do Gustavo na caixa de comentários!!!!!A fama do Gustavo de ser um excelente apologista não é à toa...

    http://www.e-cristianismo.com.br/pt/apologetica/259-quando-um-catolico-le-cipriano

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  3. Perguntaram-me sobre a autenticidade e o contexto de uma outra frase de Cipriano manipulada habilmente pelos apologistas católicos para tentar introduzir no pensamento de Cipriano uma ideia que ele nunca teve. Aqui fica a minha resposta editada depois de uma breve pesquisa.

    Habitualmente, encontrarmos esta frase citada em textos católicos romanos (como o Catecismo da Igreja Católica) ou nos apologistas ortodoxos orientais que é: “Não pode ter Deus por Pai no Céu quem não tem a Igreja por Mãe na Terra” tirada da obra “da Unidade da Igreja” de Cipriano de Cartago.

    Ao ler isso, pode-se ficar um pouco surpreso. Mas esta famosa frase não significa o que à primeira vista se pode pensar.

    Em latim a frase de Cipriano é:

    Habere iam non potest Deum patrem qui ecclesiam non habet matrem.

    (Não pode mais ter Deus como seu Pai, aquele que não tem a Igreja como sua mãe)

    Na frase utilizada pelos católicos falta a palavra “iam” (“mais”) presente no latim. O desaparecimento dessas três letras não é surpreendente. A frase fica mais concisa e fácil de ser usada fora do contexto, sem “iam”.

    Com “iam”, é um alerta para os batizados na Igreja. Em De Unitate, Cipriano está a argumentar contra cismáticos - especificamente contra Novaciano, um bispo cismático que havia em Roma naquele tempo. Cipriano, bispo de Cartago, se esforça ao longo deste tratado para salientar a importância de não rasgar o tecido da Igreja (a palavra grega de onde vem “cisma” significa uma rutura ou rasgão).

    Ele vê cismáticos como Novaciano como negadores dos seus votos batismais. Eles desviaram-se da comunhão da Igreja que os trouxe à fé, além da tradição apostólica e da regula fidei que preservou a fé para eles e os alimenta na mesma. Eles declararam que estão acima da tradição e escolheram andar separadamente do resto da Igreja.

    Com “iam”, Cipriano não está a olhar para os pagãos (como ele foi outrora) e alertando-os para vir para a Igreja Matriz. Ele está a olhar para crentes batizados que deixaram a comunhão da Igreja e estabeleceram igrejas rivais por seu capricho, rompendo a comunhão de amor e de paz estabelecida com Cristo, e alertando-os de que estão colocando em risco a sua salvação por andar separados.

    Cipriano também se preocupa com os fiéis que não aderiram a Novaciano. Ele está incentivando-os a permanecer na comunhão da Igreja que os alimentou.

    A aplicação deste tratado Sobre a Unidade da Igreja para uma (pós) situação moderna é difícil de fazer. Cipriano, apesar das tensões presentes no Norte de África durante o seu episcopado, provavelmente nunca imaginaria que um dia toda a Igreja egípcia se separaria de todas as outras e o Ocidente latino e o Oriente grego também estariam em desacordo, e o Ocidente fragmentado e dividido numa crescente infinidade de igrejas, cada uma alegando aceder à Igreja original do Apóstolos.

    Talvez, no entanto, possa servir pelo menos de advertência para aqueles tentados a romper a comunhão com a sua denominação ou igreja local por causa de coisas como instrumentos musicais (falta ou utilização deles) ou hinos (falta ou uso deles) ou pregação (ruim ou boa) ou a presença de pecadores e cultivar a virtude da estabilidade.

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  4. Note-se que Cipriano de Cartago rompeu a comunhão com a Igreja de Roma por causa da questão do rebatismo dos hereges, o que mostra que para ele a unidade apesar de ser uma coisa que devia ser procurada, não era um valor absoluto ou algo que devia ser feito à custa da verdade.

    Portanto, na visão de Cipriano a unidade da Igreja está fundada na fé comum e na comunhão de todos os cristãos, em particular dos bispos, não na obediência cega a uma hierarquia eclesiástica.

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