terça-feira, 12 de junho de 2012

Resposta a “Uma pergunta para um irmão evangélico sério” do Padre Juan Carlos Sack – 2ª Parte


À resposta anterior recebi uma réplica do P. Juan Carlos, que por minha vez respondi.

Este diálogo prosseguiu até que o P. Juan Carlos teve que interrompê-lo devido às suas muitas ocupações.

[Juan Carlos] Tinha-te escrito uma carta muito mais extensamente, mas mudei de opinião, e creio que seria mais conveniente nos limitarmos a algum aspecto do tema, e segundo creio este é o aspecto central do artigo que escrevi, e que não me parece tenhas respondido directamente, a saber, em que momento a Igreja passou de aceitar toda a tradição, a oral e a escrita, ao meramente escrito. Em relação a tudo o resto que me dizes, e que li com grande atenção, devo dizer-te que há coisas que me parecem muito oportunas, observações muito claras. Por outro lado há também muitos raciocínios que não acho lógicos, pois tentam provar coisas que eu aceito, junto com toda a Igreja Católica, como as Escrituras serem inspiradas por Deus. Não compreendo por que insistes em que "a pregação deve estar baseada na Bíblia", etc., pois isso o aceitamos também nós, e poderia citar-te Padres e Concílios que dizem isso. O que NÃO aceitamos é a doutrina da SOLA scriptura, como sabes.

[Fernando Saraví] Não me lembro de ter escrito a frase que citas entre aspas. Sem dúvida, não tem muito sentido esforçar-se por convencer alguém do que já crê. O tema central é se Sola Scriptura é um princípio válido ou não é.

Antes de prosseguir o nosso diálogo, convém resumir – para evitar mal-entendidos - o que os evangélicos entendem por Sola Scriptura. Digo isto porque embora "Sola Scriptura" – somente a Bíblia - possa tomar-se como uma declaração que não necessita de comentários, na realidade não é assim. Ocorre mais ou menos como com a teoria da Relatividade ... que não significa que "tudo é relativo". Sola Scriptura significa:

1. Que a Bíblia é a única regra infalível da fé (doutrina) e da prática (costumes).

2. Que o ensino da Bíblia é suficiente para que as pessoas aceitem Jesus Cristo como Senhor e Salvador, e fazendo o que ela diz, alcancem a vida eterna.

Corolários:

1. A Igreja de Jesus Cristo não necessita de revelações que não se achem explicitamente ou por lógica e clara implicação na Bíblia.

2. Não há outra regra infalível de fé fora das Escrituras.

Por outro lado, Sola Scriptura NÃO significa:

1. Que a Bíblia contenha absolutamente tudo o que Deus disse e fez.

2. Que a Palavra de Deus não se tenha transmitido oralmente em muitas ocasiões e situações históricas.

3. Que a Igreja careça de autoridade para interpretar, ensinar e defender a Palavra de Deus.

4. Que toda a tradição não escrita deva ser rejeitada a priori e a fortiori.

Os cristãos evangélicos crêem que a Igreja é coluna e fundamento da verdade, que deve ter mestres piedosos e conhecedores das Escrituras, e que muitas tradições são expressões válidas da fé cristã. Aceitam as expressões normativas dos Credos dos primeiros concílios ecuménicos, e tomam seriamente os ensinos dos Padres, assim como dos muitos e muito bons mestres, doutores e comentaristas que Deus deu à Igreja ao longo dos séculos. Não crêem que a Escritura seja de interpretação privada (livre interpretação), mas sustentam o princípio do Livre Exame.

Se aceitam algumas coisas e rejeitam outras, o fazem com base no que consideram ser os ensinos das Escrituras. O ensino da tradição – sim, mesmo da sua própria tradição - , dos concílios, dos Padres, etc, deve conformar-se às Escrituras, que são a Palavra final, inspirada e infalível de Deus.

[Juan Carlos] De modo que, se não te importas, proponho delimitar o diálogo à própria pergunta do artigo: qual seria então o teu fundamento para pensar que o que não ficou escrito na Bíblia - por exemplo, a suposta Assunção de Maria aos céus -, ao não encontrar-se explicitamente relatado aí deva ser esquecido pela Igreja? Em outras palavras, QUANDO começou a doutrina de só a bíblia?

Tu escreves-me, por exemplo:

Até que ponto podem ser relevantes para a doutrina e a prática as coisas que os autores do Novo Testamento, inspirados pelo Espírito Santo, declinaram incluir nos seus escritos?

Conforme escreves, dá a impressão que para ti o que os autores do NT não puseram por escrito é pelo menos "pouco relevante". Estás a dizer, com bastante clareza, que o que não ficou escrito não é relevante.

[Fernando Saraví] Sugiro-te que leias de novo o parágrafo que precede a pergunta que citas. Em relação ao teu comentário, com efeito, a minha resposta é, certamente, que o que não ficou escrito não é relevante para a doutrina ou a prática.

Ora, o facto de eu ter uma resposta não significa que a pergunta seja retórica. Dado que se trata de um diálogo sobre certas diferenças, a pergunta exige uma resposta fundada.

Eu admitiria como resposta válida uma lista daquelas coisas ensinadas por Jesus ou pelos Apóstolos que, não contendo-se explicitamente ou por clara implicação nas Escrituras, são absolutamente necessárias para a salvação do ponto de vista doutrinal ou prático. Evidentemente, tal lista deverá ser acompanhada da documentação probatória de que tais coisas realmente remontam a Jesus ou aos Apóstolos.

Em relação às coisas que não se ensinam na Bíblia e que hoje algumas Igrejas crêem, pois, muitas delas poderiam ser admitidas como crenças piedosas desde que não se opusessem às Escrituras, mas de modo algum como algo que é necessário para a salvação. Isso não exime a Igreja de investigar diligentemente a origem de tais crenças, se é que quer cumprir a sua função como proclamadora da Verdade revelada por Deus. Se a origem é duvidosa ou directamente espúria, pois... terá que discerni-lo e ensiná-lo claramente.

[Juan Carlos] Terias gostado que os escritores sagrados tivessem terminado os seus escritos com palavras deste teor: "Pois bem, aqui termina o meu evangelho-carta-actos, tudo o que eu não escrevi no meu livro, seja considerado irrelevante, ainda que tenha sido ensinado por Jesus e pelos Apóstolos". Resultar-te-á ridícula tal expressão. Mas parece que não te é tão ridículo o conteúdo, pois te perguntas até que ponto pode ser relevante o que não escreveram, sugerindo claramente a resposta: "pouco relevante, ou melhor, totalmente irrelevante, pois o Espírito Santo lhes mandou que o deixassem de fora". Ou seja, gostarias que cada livro bíblico tivesse terminado como te disse mais acima.

[Fernando Saraví] Suponho que um pouco de reflexão te convencerá da fraqueza deste argumento; parece-me que não corresponde ao nível desta discussão. A minha resposta breve é não, não gostaria, e além disso acharia muito difícil de crer que qualquer escritor inspirado pelo Espírito Santo tivesse escrito tal coisa: “...seja considerado irrelevante, ainda que tenha sido ensinado por Jesus e pelos Apóstolos”. Quanto à ideia subjacente não se trata do meu gosto pessoal, mas dos factos tal como estão registados na história. Creio que um exame da evidência permite concluir razoavelmente que nada importante “para a vida e para a piedade” ficou de fora, e quem opine o contrário deverá prover evidência de quais verdades ou mandamentos fundamentais foram excluídos com o consentimento do Espírito Santo para ser transmitidos por via oral.

[Juan Carlos] No entanto isso não é assim, Deus não teve esse plano. TUDO o que disse e fez Jesus é relevante. "Ide e ensinai a guardar TUDO o que vos disse", disse Jesus. Houve algum apóstolo que pelo menos tenha sugerido que o que ele escreveu transmite TUDO? Realmente acreditas que é irrelevante o que não ficou escrito? A questão é esta: foi intenção de Deus REDUZIR o relevante da doutrina ao que ficou por escrito ou não? Tu dizes que sim, segundo toda a tua carta, eu digo que não.

[Fernando Saraví] Dizer que tudo o que disse e fez Jesus é relevante pode soar muito piedoso, mas creio que um instante de reflexão mostrará que é pouco realista. A Bíblia cala por completo tudo o que Jesus fez e disse até aos doze anos, e desde aí até aos (tradicionalmente) trinta anos. A Bíblia cala inclusive o conteúdo preciso dos ensinamentos relativos a muito do que Jesus disse depois de ressuscitar (Lucas 24:25-27, 44-47; Actos 1:3). Com toda a probabilidade, estas coisas foram, no entanto, incorporadas na paradosis apostólica, inicialmente oral e depois cristalizada por escrito no Novo Testamento. Eu creio que é bastante razoável afirmar que, ainda que nenhum Apóstolo individualmente tenha transmitido TUDO o que Jesus ensinou e mandou, o seu trabalho conjunto no Novo Testamento é um registo confiável e perpétuo do cumprimento desse mandato do Senhor ressuscitado.

Embora se trate de uma hipérbole, julgo que há muito de substância no dito em João 21:25, “Jesus fez também muitas outras coisas, tantas que se cada uma delas se escrevesse, penso que os livros que poderiam escrever-se não caberiam no mundo”. Há pouco tempo li que se escreveram algo como 65000 livros sobre Jesus.

Ora, o argumento que tu aplicas às Escrituras se aplica também à tradição oral: também não poderia conter TUDO o que fez e disse Jesus. Mesmo que pudesse, seria impossível para qualquer cristão individual, por mais erudito e consagrado que fosse, ter um conhecimento adequado de semelhante hipotético cúmulo de informação. Por outro lado, como antes te assinalava, à diferença das Escrituras, jamais Igreja alguma determinou sequer aproximadamente o conteúdo da suposta tradição oral de origem apostólica.

De modo que, voltando ao tema, creio que na revelação escrita em seu conjunto – Antigo e Novo Testamento - está contido TUDO o que Deus quis que soubéssemos para nossa salvação e vida de fé. Aplica-se aqui aquilo de “As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas são para nós e para os nossos filhos, para que observemos todas as palavras desta Lei” (Deut 29:29).

[Juan Carlos] Não interessa o que a ti ou a mim nos pareça, como tu bem dizes citando Santo Agostinho, pois em questões de religião devemos buscar o que DEUS estabeleceu, não o que NÓS cremos ser o melhor (Jesus, tudo o que estabeleceu, o estabeleceu de modo oral... curioso, verdade?.

[Fernando Saraví] Acabas de tirar do contexto a citação a que te referes, uma vez que o bispo de Hipona continua dizendo “Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa”. Ou seja, que as Escrituras eram o árbitro final, e isto devido a que são o que Deus estabeleceu.

Deus mandou a Moisés que escrevesse tudo quanto lhe havia mandado, sem acrescentar nem diminuir (Deut 4:2). Também a Isaías, etc. Jesus e os Apóstolos usaram as Escrituras, não a tradição oral, para ensinar e refutar falsas crenças.

É verdade que Jesus não escreveu nada, como também é verdade que, desde a criação do mundo até ao tempo de Moisés não houve um registo inspirado do que Deus quis que soubéssemos... e não se trata de uma crónica exaustiva da história do mundo nem de TUDO o que Deus fez nesse tempo, mas da história da salvação. No caso dos ensinamentos de Jesus, o intervalo entre os factos e o seu registo escrito é de umas poucas décadas se tanto.

Ambos admitimos que os Apóstolos não actuaram caprichosamente, mas em obediência ao mandato do Senhor de transmitir fielmente os Seus ensinamentos. Quando São João recebeu a Revelação ou Apocalipse, Jesus lhe mandou que a escrevesse: Apoc 1:3, 11, 19; 2:1, 12 etc.).

Em outro lado, São João afirma que escreve “o que foi desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, isto vos anunciamos a respeito do Verbo da vida.” (1 João 1:1).

[Juan Carlos] No meu artigo eu dizia que há que ver o que Deus quis fazer e como Deus o quis fazer. Ele pôde ter excluído da doutrina revelada - como o fazem, de facto, os evangélicos - tudo o que não estivesse escrito explicitamente na Bíblia, ou melhor dizendo, pôde ter querido que nós nos fiquemos com o que explicitamente diz a Bíblia, e basta. Mas... de onde tiramos essa doutrina? É evangélica? Foi ensinada por Jesus ou pelos apóstolos? Podes-me dar algumas citações? Que me dizes das citações onde se fala de conservar a doutrina oral, de cujas citações não mencionas nada?

[Fernando Saraví] Creio que podemos conhecer o que Deus quis fazer com base no que efectivamente fez, visto que os Seus propósitos não podem ser torcidos pela vontade do homem. É um erro grave sustentar que os evangélicos excluem da doutrina revelada tudo o que não está explicitamente escrito na Bíblia. Um exemplo óbvio deste erro é a doutrina da Santíssima Trindade, que não se ensina explicitamente na Bíblia, mas pode deduzir-se dela como uma necessidade lógica das afirmações que sustentam que há um só Deus verdadeiro, que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deus e ao mesmo tempo Pessoas diferentes.

Do mesmo modo, a doutrina da Sola Scriptura pode deduzir-se como logicamente necessária a partir dos dados da Bíblia e da história. Mais à frente ocupo-me da história; por agora vejamos como se deduz da Bíblia, porque

[1] Jesus advertiu muito seriamente contra invalidar as Escrituras – obrigatórias e inspiradas - por causa da tradição oral (Mar 7: 8-9 e par.). Não estamos falando aqui de quaisquer tradições, mas das tradições religiosas piedosamente transmitidas e conservadas pelos mestres do seu tempo.

[2] Além da Sua própria Palavra de plena autoridade, o Senhor recorreu sempre às Escrituras para decidir qualquer controvérsia.

[3] Porque Jesus Cristo acusou os judeus não de ignorar as tradições orais, mas de não compreender que as Escrituras davam testemunho d`Ele (João 5:39).

[4] Porque aos Saduceus, que rejeitavam a tradição oral dos fariseus, o Senhor não lhes reprovou isso, mas sim o desconhecer "as Escrituras e o poder de Deus" (Mar 12: 24-27 e par.).

[5] Os Apóstolos e alguns dos seus condiscípulos (como Marcos ou Lucas) consideraram apropriado – inspirados seguramente pelo Espírito Santo - pôr por escrito os seus ensinamentos, como Moisés, Isaías e o resto dos autores humanos do AT puseram por escrito os seus.

[6] São Paulo afirma a natureza essencialmente inspirada das Escrituras e a sua absoluta suficiência quando escreve a Timóteo (2 Tim 3: 15-17); o facto de o Apóstolo se referir ao AT não modifica o seu juízo sobre a natureza da Escritura quanto ao seu carácter normativo.

[7] Os escritos apostólicos são considerados "Escritura" (2 Pedro 3: 15-16; 1 Tim 5:18 comparado com Lucas 10:7).

[8] Considera-se louvável que os que ouviam os Apóstolos vissem por si mesmos se a pregação era consistente com o já revelado por escrito no AT (Actos 17:11).

[9] Ao dirigir-se aos Coríntios a propósito das contendas entre facções, São Paulo recomenda que, "como está escrito, o que se gloria, glorie-se no Senhor" (1:31, cf. Jer 9: 23-24). E mais adiante, no mesmo contexto, aconselha "a não ir além do que está escrito" (4:6). Como quer que se veja este versículo, parece claro que para São Paulo o escrito tinha um carácter normativo que ia para lá dos pareceres individuais.

[10] A própria Bíblia dá testemunho do pouco confiável que é a tradição oral no médio ou longo prazo. "Por isso o dito se propagou entre os irmãos que aquele discípulo não morreria, mas Jesus não disse que não morreria..." (João 21:23). São João obviamente corrige aqui, por escrito, uma tradição oral errónea.

[Juan Carlos] Ou pelo menos, foi ensinada pela Igreja em algum momento da história? Tu sabes quando os cristãos começaram a guiar-se exclusivamente pelo que diz a Bíblia, deixando de lado os ensinamentos da Igreja que não estavam contidos explicitamente na Bíblia?

[Fernando Saraví] Como o indiquei antes, “explicitamente” é uma qualificação que não convém nem às crenças católicas romanas, nem às cristãs evangélicas (nem às ortodoxas orientais se formos por aí).

Além disso, não estávamos a discutir os ensinamentos da Igreja. Como já disse, os evangélicos não questionam o direito ou melhor dito a obrigação kerigmática, docente e disciplinar da Igreja, mas os colocam em subordinação ao claro ensinamento escritural.

O foco da discussão era a Sola Scriptura (tal como a delimitei antes) e consequentemente, os supostos ensinamentos orais de origem apostólica que não se encontram na Bíblia.

O problema é que tal tradição oral, se é que existe, carece da precisão, clareza, incorruptibilidade e confiabilidade da revelação escrita. Se pomos como exemplo os ditos e feitos de Jesus e dos Apóstolos que não aparecem no NT, sabes perfeitamente que há um grande acúmulo de literatura apócrifa que tentou preencher este vazio. Diversos estudiosos tentaram identificar possíveis ditos autênticos de Jesus que puderam ter-se transmitido por esta via, com um sucesso muito baixo (por exemplo, o luterano Joachim Jeremias no seu “Palavras desconhecidas de Jesus”). Estas fontes seguramente confiariam em diversas tradições – como a refutada por São João que já mencionei - que não eram de modo nenhum confiáveis. Acertadamente, a antiga Igreja católica cedo rejeitou todas estas lendas e especulações.

Não insisti, como assinalas, nos mandatos apostólicos de receber o que eles ensinaram tanto por escrito como verbalmente (embora na minha primeira carta tenha incluído uma série de citações a tal respeito) por uma razão muito simples. Os Apóstolos receberam do Senhor a sua missão como Testemunhas do Cristo ressuscitado. Enquanto eles viviam, era natural que tanto os seus ensinamentos orais como escritos fossem recebidos como a doutrina autorizada pelo próprio Deus. Isto não está em discussão: os Apóstolos ensinaram com autoridade tanto oralmente como por escrito. No entanto, há uma diferença importante entre autoridade e infalibilidade. Como católico, podes facilmente entender esta diferença, pois aplica-se ao magistério ordinário e extraordinário (ex cathedra) do Papa.

O facto dos Apóstolos terem possuído tal autoridade não significa que fossem infalíveis em todos os seus ensinamentos e condutas. Na realidade existem indicações de que este não era o caso, como quando São Paulo teve de exortar São Pedro pelo seu comportamento reprovável em Antioquia (Gálatas 2:11-14). Também São Paulo, nos seus conselhos aos coríntios, distingue entre o que é mandamento do Senhor do que é a sua própria postura, sem dúvida válida e autorizada mas ainda assim não necessariamente inspirada (1 Cor 7:10,12).

Por conseguinte, é preciso traçar uma distinção entre tudo o que os Apóstolos fizeram e disseram, e os seus ensinamentos inspirados e portanto infalíveis. Estes últimos se encontram com certeza no Novo Testamento. Dos outros, pouco sabemos. As supostas tradições orais, pela sua própria natureza, não são fontes confiáveis, muito menos infalíveis, do que os Apóstolos ensinaram. A Bíblia sim.

Deveria ser evidente que a Igreja primitiva compreendeu claramente a diferença entre a autoridade e vigência permanente do escrito. Não se pode assinalar com precisão um “momento”, porque não o houve. Depois que os Apóstolos morreram, persistiram por um tempo alguns dos seus ensinamentos orais, transmitidos pelos seus ouvintes directos. A julgar por alguns deles que menciona Ireneu, tais ensinamentos sofreram rápida corrupção. O exemplo das tradições supostamente apostólicas conservadas pelo ilustre mas pouco crítico bispo de Hierápolis, Papias, devia bastar como advertência.

Já desde o século II os mestres da Igreja, como Justino, Ireneu, Tertuliano, Cipriano, etc., provam as suas doutrinas mediante as Escrituras. Sem dúvida que defendem o papel fundamental da Igreja, assim como a sua tradição interpretativa, mas não a colocam jamais acima das Escrituras. Em outras palavras, ainda que não usassem a expressão “Sola Scriptura” procuravam basear os seus ensinamentos no escrito, e não em supostas tradições apostólicas independentes. Este feliz estado de coisas manteve-se por séculos, e deu como resultado global (sem discutir detalhes como o baptismo infantil) a sustentação da ortodoxia bíblica pelo conjunto da Igreja, expressa entre outras coisas pelos Credos históricos.

Já no segundo século – ou seja, logo que morreu o último Apóstolo - se perfila o núcleo do que há-de constituir o NT. A autoridade apostólica, a consistência interna, a antiguidade e a catolicidade destes Escritos sagrados foram alguns dos factores que influíram na sua pronta aceitação. Em finais do século IV o cânon alcançou a sua forma actual, mas já existia desde muito antes um amplo consenso em termos gerais. Ao fixar o cânon, a Igreja universal não concedeu aos escritos alguma autoridade que não tivessem intrinsecamente, como Palavra inspirada de Deus. O que a Igreja fez foi dar testemunho ao mundo de tal qualidade. Notavelmente, em contrapartida, a Igreja primitiva não fez a mesma coisa com alguma tradição oral.

Um par de séculos mais tarde, no entanto, começou a propiciar-se a noção da tradição como “outra fonte de revelação”. O sucesso de tal inovação evidencia-se no curso posterior dos factos. Quando chegamos ao século XVI o clamor de reforma dentro da Igreja do Ocidente (governada desde Roma) era tão intenso como extenso. Os Reformadores não fizeram senão reformular um princípio que tinha sido informalmente admitido já pela Igreja sub-apostólica.

[Juan Carlos] A minha posição é esta: a própria Bíblia - tomada por ti e por mim como a Palavra de Deus escrita - ensina o contrário: nunca limita a revelação a um livro ou a cem livros.

[Fernando Saraví] Pois, querido irmão, este é um argumento perigosíssimo. Tanto os católicos como os evangélicos sustentam que a revelação de Deus em Cristo é a Palavra divina final e definitiva para a humanidade, e que não devemos esperar outra revelação antes de o Senhor voltar. Que a Bíblia não o diga explicitamente não significa que não possa correctamente inferir-se dela (Hebreus 1:1-3, etc).

Da perspectiva evangélica, os desvios doutrinais mais graves ocorreram não pela adesão à Sola Scriptura, mas precisamente pelo seu abandono. Isto se aplica tanto aos católicos como aos protestantes. Por exemplo, no mormonismo as revelações de Joseph Smith têm precedência sobre a Escritura. Entre as Testemunhas de Jeová pouco importa o que os membros interpretem: o seu Corpo Governante decide por eles qual é A interpretação das Escrituras (e as mudam com frequência). De igual modo, no catolicismo romano é o abandono de Sola Scriptura o que torna tão difícil de conciliar as diferenças com outros cristãos que partilham com ele muitas doutrinas fundamentais.

[Juan Carlos] (o que dizes de Apocalipse 22 é uma aplicação que tu fazes a toda a Bíblia do que São João escreveu em relação às profecias de UM livro: com que autoridade o fazes? posso eu pensar que NÃO se referia a toda a Bíblia? quem decide a questão?).

[Fernando Saraví] Parece-me que não leste esta parte com cuidado. A minha alusão a Apocalipse 22 era uma resposta concreta a esta afirmação tua: “Ninguém pode dizer baseado em algum texto bíblico que os autores dos textos do Novo Testamento quiseram limitar o ensinamento de Jesus ou dos Apóstolos ao que eles estavam escrevendo”.

Agora lê COM CUIDADO o que eu escrevi a tal respeito (depois de citar o texto): “Isto significa que, contrariamente ao que dizes, pelo menos um autor bíblico, e um muito importante, considerou apropriado restringir taxativamente os limites desta revelação. Claro está que em sentido estrito esta advertência somente é válida para o Apocalipse, mas por outro lado o facto de ter sido provavelmente o último livro bíblico a escrever-se, e a Igreja primitiva ter considerado apropriado colocá-lo no final da Bíblia não pode passar-se levianamente por alto”.

Da advertência de João observa-se que ele considerava fundamental que este documento não fosse alterado de modo algum. Não achas que este princípio é apropriado para todo o NT?

3 comentários:

  1. Muito interessante o debate!!!!!O debate está em um bom nível e não possui aquele clima beligerante,rude e agressivo de alguns "pseudoapologistas"!

    Um velho adágio diz: Um bom debate é feito por bons debatedores!Sou cristão de origem reformada e sou adepto do princípio da sola scriptura e considerei a resposta muito bem elaborada e fundamentada!

    Continuem nesse bom nível!!!!

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  2. Foi um debate diferenciado, de fato, não como tantos outros debates entre católicos e protestantes. Por outro lado eu ouso afirmar que o lado católico errou por vezes ao interpretar as afirmações do lado protestante e isso levanta questões muito sérias. Eu também não vi do lado católico respostas a todos os argumentos protestantes, e acredito que este tenha deixado algumas coisas passarem para o bem do curso do debate. De forma geral, esta leitura foi um ensaio apologético de muito alto nível!

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