sábado, 4 de junho de 2011

São as genealogias de Jesus Cristo contraditórias?


É notável que a Igreja cristã aceitou virtualmente desde o princípio a existência de quatro versões da vida de Cristo. Para Ireneu de Lyon no século II a existência e validade dos quatro Evangelhos era tão axiomática como a dos pontos cardeais. À diferença do ocorrido, por exemplo, no Islão, onde as tradições aparentemente divergentes acerca de Maomé foram precocemente suprimidas e o texto do Corão unificado, os cristãos preservaram o Evangelho quádruplo. Uma das razões é que desde o princípio os relatos foram considerados complementares e não antagónicos. Esquematicamente pode dizer-se que Mateus apresenta Jesus como verdadeiro hebreu e herdeiro do trono de David, Marcos como o Servo de Yahveh (cf. 10:45), Lucas como o Filho do homem com uma mensagem de salvação universal, e João como o Verbo de Deus verdadeiramente encarnado. Apesar desta ênfase, todas as características mencionadas (e outras) da pessoa de Jesus estão presentes nos quatro Evangelhos.

No caso concreto da genealogia de Jesus, há que entender antes de tudo que as genealogias tinham múltiplos propósitos (diferentes mas não contraditórios) já no Antigo Testamento. Por exemplo:

1. Demonstrar a relação entre Israel e as tribos vizinhas traçando-as a ascendentes comuns.

2. Relacionar elementos respeitantes à primitiva história israelita.

3. Estabelecer a continuidade histórica dos relatos.

4. Demonstrar o direito de um indivíduo para determinado ofício (por exemplo, sacerdotal ou régio)

5. Estabelecer a legitimidade de pertença à nação de Israel

6. Formular uma divisão da história em épocas com base nas gerações.

Uma mesma genealogia determinada pode cumprir um ou mais destes propósitos. Portanto é evidentemente incorrecto supor que se o propósito da genealogia de Mateus é diferente do da de Lucas, isto as transforma ipso facto em incompatíveis ou que representam contradições.

Se se compararem as genealogias de Mateus e Lucas, observa-se que existem várias diferenças óbvias (além dos nomes dos antepassados de Jesus depois de David, assunto que retomarei mais abaixo):

1. Mateus coloca a sua genealogia precisamente ao princípio do Evangelho, enquanto Lucas a inclui imediatamente antes do começo do ministério público de Jesus. Isto já sugere um diferente propósito teológico.

2. A ordem em Mateus é descendente, enquanto em Lucas é ascendente.

3. Mateus inicia a sua genealogia em Abraão enquanto Lucas retrocede até Adão.

Estas três particularidades, e o contexto geral de ambos os Evangelhos, indicam que Mateus está interessado em demonstrar fundamentalmente, como já o anuncia em 1:1, que Jesus era descendente de Abraão (portanto membro do povo hebreu) e de David (logo legítimo aspirante ao seu trono). Por seu lado Lucas, escrevendo a um cristão gentio, o apresenta como um descendente do primeiro homem, Adão, por sua vez filho de Deus. O facto de Lucas ascender até Adão não contradiz, antes pelo contrário, pressupõe o dito por Mateus; só que vai mais além.

4. Mateus nomeia quatro mulheres mas Lucas não menciona nenhuma.

5. Mateus divide esquematicamente a genealogia em três grupos com catorze nomes cada um, enquanto Lucas simplesmente dá a lista de forma contínua.

6. Mateus usa a fórmula “A gerou B” enquanto Lucas usa o artigo tou com o nome correspondente em genitivo (“A tou B”).

7. O número de nomes dado por Lucas é maior que o de Mateus, mesmo sem contar os ascendentes de Abraão; isto indica que, em prol do seu esquema de 14 x 3, Mateus omitiu nomes. Esta prática era frequente e aceite, e sugere que a expressão de Mateus “A gerou B” não deve necessariamente tomar-se em sentido de paternidade biológica.

8. Nos nomes que aparecem em ambas as listas, há diferenças menores de grafia.

Quanto aos nomes de cada lista entre David e Jesus, além de ser em geral diferentes (excepto para Salatiel e Zorobabel) é de destacar o facto de que Mateus segue a linha de Salomão enquanto Lucas segue a de Natã, outro filho de David. F.F. Bruce (p. 544) observa: “É sumamente improvável que os nomes, em qualquer das listas, que não recebem confirmação pelo Antigo Testamento, foram simplesmente inventados pelos evangelistas ou por suas fontes”. Se isto é verdade, terá que haver alguma explicação plausível que justifique as diferenças.

Ao longo da história se propuseram múltiplas explicações, mas as três principais, cada uma delas com diversas variantes, são:

1. Ambas as listas dão a genealogia de Jesus através de José, mas Mateus segue a linha pelo pai real (biológico), Jacob, enquanto Lucas segue a linha do pai legal, Eli.

2. Ambas as listas dão a genealogia de Jesus através de José, mas Mateus segue a linha pelo pai legal, Jacob, e Lucas pelo pai biológico, Eli.

3. A lista de Mateus dá a genealogia através de José, para estabelecer o direito de Jesus ao trono de David, enquanto a lista ascendente de Lucas corresponderia aos varões dos ascendentes de Maria, e por conseguinte mostra o vínculo biológico com David, Abraão e Moisés.

No meu entender, esta última explicação é a mais acertada, por razões que posso detalhar noutra ocasião. De qualquer modo, o ponto central e básico é que não é absolutamente claro que as genealogias sejam “contraditórias”; para afirmar tal coisa seria preciso mais informação do que a que se dispõe. Ambas coincidem em mostrar que Jesus de Nazaré era descendente de Abraão e de David.

Para quem se interesse pelo tema, eis aqui uma bibliografia sobre o tema:

G.R. Bliss. El Evangelio según Lucas. Comentario Expositivo sobre el Nuevo Testamento). El Paso: Casa Bautista, 1966, 2:251-253.

Raymond E. Brown. El nacimiento del Mesías. Comentario a los relatos de la infancia (Trad. T. Larriba). Madrid: Cristiandad, 1982, p. 51-91.

F.F. Bruce. Genealogía de Jesucristo. Em J.D. Douglas, N. Hyllier (Eds.), Nuevo Diccionario Bíblico. Buenos Aires: Certeza, 1991, p. 543-544.

D.A. Carson. Matthew. Em Frank E. Gaebelein (Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984; 8:61-70.

Norman Geisler e Thomas Howe. When Critics Ask. A Popular Handbook on Bible Difficulties. Wheaton: Victor Books, 1992, p. 325-326; 385-386.

Norman Hyllier. The genealogies of Jesus Christ. Em Colin Brown (Ed.), New International Dictionary of New Testament Theology. Gran Rapids: Zondervan, 1978; 3: 653-660.

Joachim Jeremias. Jerusalén en tiempos de Jesús. Estudio económico y social del mundo del Nuevo Testamento (Trad. J. Luis Ballines). Madrid: Cristiandad, 1977; p. 303 –309.

M.D. Johnson. Genealogy of Jesus. Em Geoffrey W. Bromiley (Ed.), International Bible Standard Encyclopedia. Grand Rapids: W.B. Eerdmans, 1982; 2: 428-431.

Walter L. Liefield. Luke. Em Frank E. Gaebelein (Ed.), The Expositor’s Bible Commentary. Grand Rapids: Zondervan, 1984; 8: 860-862.

Jim Loucks. The genealogies in Matthew and Luke (Bible Commentary Matthew 1:1-7; Luke 3:23 b- 38). Em http://www.answering-islam.org/BibleCom/mt1-1.html

A.T. Robertson. Una armonía de los cuatro Evangelios, 3ª Ed. El Paso: Casa Bautista, 1975, p. 211-214.

Antonio Salas. La infancia de Jesús (Mt 1-2). ¿Historia o teología?. Madrid: Biblia y Fe, especialmente p. 204-206.

2 comentários:

  1. Paz irmão

    Como é que a lista de Lucas corresponderia aos varões dos ascendentes de Maria se começa com «José era filho de Eli». Não devia começar antes com «Maria era filha de Eli»?

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  2. Paz

    Maria era filha de Eli, mas a genealogia fornecida por Lucas alista o marido de Maria, José, como "filho de Eli". A Cyclopædia (Ciclopédia) de M'Clintock e Strong (1881, Vol. III, p. 774) diz: "É bem conhecido que os judeus, ao elaborarem suas tabelas genealógicas, levavam em conta apenas os varões, rejeitando o nome da filha quando o sangue do avô era transmitido ao neto por uma filha, e contando o marido desta filha em lugar do filho do avô materno. (Números 26:33, Números 27:4-7)." Possivelmente por este motivo Lucas diz que José era «filho de Eli» (Lucas 3:23).

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