Na Sessão IV do Concílio Vaticano I (18 de Julho de 1870) se sancionou a Constituição Dogmática I sobre a Igreja de Cristo, que em concreto fala do primado e da infalibilidade papais. O seu capítulo 3 se titula Da natureza e razão do primado do Romano Pontífice. Numa parte diz assim:
[Da jurisdição do Romano Pontífice e dos bispos.] Ora, tão longe está este poder do Sumo Pontífice de danificar aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal pelo qual os bispos que, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28], sucederam aos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; que pelo contrário, este poder é afirmado, robustecido e vindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: «A minha honra é a honra da Igreja universal. A minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou eu verdadeiramente honrado, quando não é negada a honra que a cada um é devida».
(Denzinger # 1828; negrito acrescentado)
(Denzinger # 1828; negrito acrescentado)
A citação de Gregório Magno (bispo de Roma 590-604) parece, tal como é apresentada, concordar perfeitamente com o que se vem dizendo de como o primado do papa como bispo universal não afecta a autoridade dos demais bispos.
No entanto, a verdadeira opinião de Gregório sobre o primado se vê quando a porção citada se lê no seu contexto original. Trata-se de uma carta a Eulógio, bispo de Alexandria, que na parte pertinente diz:
Vossa Bem-aventurança também foi cuidadoso em declarar que não faz agora uso de títulos orgulhosos, que brotam de uma raiz de vaidade, ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em carácter meus pais. Eu não ordenei, então, mas estava desejoso de indicar o que me parecia ser benéfico. Contudo, não acho que Vossa Bem-aventurança tenha estado disposto a recordar perfeitamente esta mesmíssima coisa que trago à sua memória. Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do género; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo. Pois, quanto a mim, não busco ser prosperado por palavras, mas pela minha conduta. Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles. Pois a minha honra é a honra da Igreja universal; a minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade.
(Epístola 8.30 a Eulógio, bispo de Alexandria)
(Epístola 8.30 a Eulógio, bispo de Alexandria)
Como se pode notar, os bispos do Vaticano I realizaram, em prol do primado, a façanha de fazer dizer a Gregório Magno exactamente o oposto do que ele disse. Este bispo de Roma se dava perfeita conta que nenhum bispo tinha direito ao título de universal, e de que conceder tal título a um bispo em particular implicava rebaixar a dignidade dos demais bispos.
Em contrapartida, no Concílio Vaticano I se usou, com uma audácia que raia o cinismo, uma porção desta carta para demonstrar a tese de que o episcopado universal do bispo romano não somente era compatível, mas também benéfico para a autoridade dos demais bispos.
De modo que, na constituição que definiu dogmaticamente o primado e a infalibilidade, a Igreja de Roma deturpa até o dito por um bispo de Roma.




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