terça-feira, 15 de março de 2011

Um perfeito exemplo de como se cozinham os dogmas em Roma


Na Sessão IV do Concílio Vaticano I (18 de Julho de 1870) sancionou-se a Constituição Dogmática I sobre a Igreja de Cristo, que em concreto fala do primado e da infalibilidade papais. O seu capítulo 3 intitula-se Da natureza e razão do primado do Romano Pontífice. Numa parte diz assim:

[Da jurisdição do Romano Pontífice e dos bispos.] Ora, tão longe está este poder do Sumo Pontífice de danificar aquele poder ordinário e imediato de jurisdição episcopal pelo qual os bispos que, constituídos pelo Espírito Santo [cf. At 20,28], sucederam aos Apóstolos, apascentam e regem, como verdadeiros pastores, os seus respectivos rebanhos; que pelo contrário, este poder é afirmado, robustecido e vindicado pelo pastor supremo e universal, segundo o dizer de S. Gregório Magno: «A minha honra é a honra da Igreja universal. A minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou eu verdadeiramente honrado, quando não é negada a honra que a cada um é devida».

(Denzinger # 1828; negrito acrescentado)

A citação de Gregório Magno (bispo de Roma 590-604) parece, tal como é apresentada, concordar perfeitamente com o que se vem dizendo de como o primado do papa como bispo universal não afecta a autoridade dos demais bispos.

No entanto, a verdadeira opinião de Gregório sobre o primado vê-se quando a porção citada se lê no seu contexto original. Trata-se de uma carta a Eulógio, bispo de Alexandria, que na parte pertinente diz:

Vossa Bem-aventurança também foi cuidadoso em declarar que não faz agora uso de títulos orgulhosos, que brotam de uma raiz de vaidade, ao escrever a certas pessoas, e se dirige a mim dizendo, «Como tu o ordenaste». Esta palavra, ordenar, lhe rogo que a afaste dos meus ouvidos, já que sei quem sou eu e quem sois vós. Pois em posição sois meus irmãos, em carácter meus pais. Eu não ordenei, então, mas estava desejoso de indicar o que me parecia ser benéfico. Contudo, não acho que Vossa Bem-aventurança tenha estado disposto a recordar perfeitamente esta mesmíssima coisa que trago à sua memória. Pois eu disse que nem a mim nem a mais ninguém devia escrever alguma coisa do género; e eis que no prefácio da epístola que me dirigiu a mim que me recuso a aceitá-lo, considerou apropriado fazer uso de um apelido orgulhoso, chamando-me Papa Universal. Mas rogo à sua dulcíssima Santidade que não volte a fazer tal coisa, já que o que é concedido a outro para lá do que a razão exige é subtraído de você mesmo. Pois, quanto a mim, não busco ser prosperado por palavras, mas pela minha conduta. Nem considero uma honra aquilo pelo qual sei que meus irmãos perdem a honra deles. Pois a minha honra é a honra da Igreja universal; a minha honra é o sólido vigor dos meus irmãos. Então sou verdadeiramente honrado quando não é negada a eles a honra devida a todos e cada um. Pois se Vossa Santidade me chama a mim Papa Universal, nega que seja você o que me chama a mim universalmente. Mas longe esteja isto de nós. Fora com as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade.

(Epístola 8.30 a Eulógio, bispo de Alexandria)

Como se pode notar, os bispos do Vaticano I realizaram, em prol do primado, a façanha de fazer dizer a Gregório Magno exactamente o oposto do que ele disse. Este bispo de Roma se dava perfeitamente conta de que nenhum bispo tinha direito ao título de universal, e de que conceder tal título a um bispo em particular implicava rebaixar a dignidade dos demais bispos.

Em contrapartida, no Concílio Vaticano I se usou, com uma audácia que raia o cinismo, uma porção desta carta para demonstrar a tese de que o episcopado universal do bispo romano não somente era compatível, mas também benéfico para a autoridade dos demais bispos.

De modo que, na constituição que definiu dogmaticamente o primado e a infalibilidade, a Igreja de Roma deturpa até o dito por um bispo de Roma.

5 comentários:

  1. Interessante. O que acha dessa tentativa de refutação feita? Em suma, os argumentos são: Gregório Magno considerava "universalis" como "unicus" e ele em outros escritos e ações demonstrou ter primazia.

    http://www.biblicalcatholic.com/apologetics/num7.htm

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  2. Acho que com papas e bolos se enganam os tolos.

    O imperador bizantino deu o título de bispo "ecuménico" ao Patriarca de Constantinopla, João o Jejuador, e em Roma traduziram erradamente o termo "ecuménico" por "universal".

    Assim, o então bispo de Roma, Gregório Magno, se opôs fortemente ao uso deste título por parte de um bispo, por considerar que nenhum bispo devia ter um título único, exclusivo, que o colocava acima dos demais bispos.

    Chegando a afirmar, entre outras coisas menos abonatórias, que tal título era profano e que quem o usasse era o precursor do anticristo.

    Portanto, se o papa Gregório Magno era contra o uso de um título honorífico de "Bispo universal" (que segundo ele tinha sido oferecido aos bispos de Roma pelo concílio de Calcedónia), muito mais o era contra o uso de um poder efetivo de jurisdição universal por parte de algum Bispo.

    Os textos de Gregório Magno estão disponíveis para qualquer um que os queira ler, e são bem claros quanto à sua defesa da igualdade de todos os bispos e à sua rejeição da noção de supremacia universal para qualquer bispo. Somente quem estiver cegado pelo fanatismo ou for desonesto não vê isso.

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  3. Agradeço pela resposta. :)

    Por curiosidade, sabes quais são as posições teológicas gerais de Gregório? Infelizmente wikipédia & cia. analisam a patrística sobre uma ótica católica romana.

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  4. As posições teológicas gerais de Gregório Magno podia dar uma tese de doutorado. É uma questão que não pode ser respondida aqui com uma curta resposta. Exigiria uma investigação profunda.

    Mas já o tenho abordado em relação com vários assuntos neste blogue, como por exemplo:

    1) Era contra o culto às imagens

    2) Não reconhecia os livros apócrifos como canónicos

    3) Era contra um primado jurisdicional universal de qualquer bispo, ao contrário do seu predecessor Leão Magno. Gregório aceitou o Canon 28 de Calcedónia.

    Pode ver aqui um trecho alargado da sua carta ao imperador Maurício.

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2010/10/mateus-1618-nos-padres-da-igreja.html

    4) Esteve envolvido no desenvolvimento da doutrina do purgatório.

    5) Escreveu de forma incompatível com a crença na Imaculada Conceição de Maria.

    E era um dos melhores teólogos do seu tempo e um homem respeitado. O canto gregoriano parece que tem origem nele. Por algum motivo foi-lhe dado o epíteto de Magno. E por isso indiretamente contribuiu para afirmar o poder da Igreja de Roma no Ocidente.

    Mas tenho a certeza que muito mais podia ser dito.

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  5. Alguns excertos das cartas de Gregório Magno que condenam a ideia do primado e supremacia papal. Aqui:

    http://conhecereis-a-verdade.blogspot.pt/2014/08/gregorio-magno-o-papa-que-condenou-o.html

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