quinta-feira, 31 de março de 2011

Resposta a “O Purgatório” de Catholic Answers [1]


O PURGATÓRIO

O catecismo da igreja católica define purgatório como uma "purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu", que é experimentada pelos "que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitamente purificados" (CIC 1030). Observa que "esta purificação final dos eleitos… é absolutamente distinta do castigo dos condenados" (CIC 1031).

Efectivamente, o novo Catecismo da Igreja Católica (CIC) dá esta "definição". Para comparação vejamos o que diz o Denzinger, uma obra de referência reconhecida, sendo uma compilação de documentos oficiais até 1954. Os números remetem para os parágrafos de tais documentos; os que estão em itálico correspondem a proposições condenadas.

2) O que é o purgatório. Não consiste unicamente no temor do moribundo: 744; mas em penas satisfatórias sofridas pelas almas: 464, 530, 570 t, 693, 840, 983; sendo atormentadas pelo fogo: 570 t. Não pecam procurando alívio e horrorizando-se das penas: 779.

Enquanto a explicação light do CIC fala de "purificação" e apenas menciona, como tradição da Igreja, o "fogo purificador", acrescentando uma citação de Gregório Magno.

Entretanto, o Denzinger alude a documentos da Igreja que falam de penas e tormentos.

O primeiro documento que se cita em relação ao purgatório é a carta Sub catholicae de Inocêncio IV de 1254 e afirma (baseado em Mateus 12:32 e 1 Coríntios 1:13,15) a existência do purgatório e acrescenta:

... visto que dizem [os gregos] que o lugar desta purgação não lhes foi indicado pelos seus doutores com nome certo e próprio, nós que, de acordo com as tradições e autoridades dos Santos Padres o chamamos purgatório, queremos que daqui por diante se chame com este nome também entre eles. Porque com aquele fogo transitório são purgados certamente os pecados, não os criminais ou capitais, que antes não tenham sido perdoados pela penitência, mas os pequenos e miúdos, que mesmo depois da morte pesam, ainda que tenham sido perdoados em vida.

Denzinger # 456

Como pode ver-se, Inocêncio IV diz que o purgatório é um lugar, não uma condição nem um processo. E nesse lugar a purificação é realizada pelo fogo, chamado "transitório" para distingui-lo das chamas eternas do inferno.

Na carta Super quibusdam de 1351 dirigida por Clemente VI aos arménios, fazem-se uma série de perguntas que equivalem a uma profissão de fé; entre elas a seguinte:

Perguntamos se creste e crês que existe o purgatório, a que descem as almas dos que morrem em graça, mas não satisfizeram os seus pecados por uma penitência completa. Também se crês que são atormentadas com fogo temporariamente e, que logo que estejam purgadas, ainda antes do dia do juízo, chegam à verdadeira e eterna beatitude que consiste na visão de Deus cara a cara e em amor.

Denzinger # 570 t

De novo, segundo outro papa, o purgatório é um lugar onde as almas são atormentadas pelo fogo.

Em 1547, o Concílio de Trento, no seu Cânon 30 também implica que o purgatório é um lugar:

Se alguém disser que depois de recebida a graça da justificação, de tal maneira que é perdoada a culpa e é apagada a dívida de pena eterna a qualquer pecador arrependido, que não resta dívida alguma de pena temporal que tenha de pagar-se ou neste mundo ou no outro no purgatório, antes que possa abrir-se a entrada no reino dos céus, seja anátema.

Denzinger # 840

Em outras palavras, a absolvição sacerdotal é incompleta pois não tira uma suposta "pena temporal" pelo pecado que deve pagar-se ora por acções meritórias, ora com sofrimentos purificadores.

O mesmo Concílio, no seu Decreto sobre o Purgatório de 4 de Dezembro de 1563 reafirma uma vez mais a existência do purgatório (Denzinger # 983).

A purificação é necessária porque, como a Escritura ensina, nada impuro entrará na presença de Deus no céu (Apoc. 21:27) e, enquanto podemos morrer com os nossos pecados mortais perdoados, podem ainda ficar muitas impurezas em nós, especificamente pecados veniais e o castigo temporal devido aos pecados já perdoados.

Dois julgamentos

Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo" (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: "Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos". Neste juízo geral todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5).

Não há disputa quanto aos juízos individual e final. O caso é que a doutrina do purgatório supõe uma demora entre o veredicto do juízo individual e o acesso à presença de Deus, que carece de justificação bíblica.

Santo Agostinho disse, em A Cidade de Deus, que os "castigos temporais são sofridos por alguns nesta vida somente, por outros depois da morte, por outros em ambas as situações, agora e depois; mas todos antes do mais estrito juízo final".

Muito interessante especulação do ilustre bispo de Hipona. No entanto, não constitui o que eu chamaria evidência.

É entre os juízos particular e geral, então, que a alma é purificada das consequências restantes do pecado: "Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo" (Lucas 12:59).

Por favor! Extraordinária forma de meter à pressão a doutrina do purgatório numa parábola que fala de chegar a um acordo com o oponente a caminho do juiz ...

O seu significado fica claro no texto paralelo de Mateus:

Mateus 5:21-26

Ouvistes que foi dito aos antigos: "Não matarás"; e, "Quem matar será réu de juízo". Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irritar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno.

Portanto, se estiveres apresentando a tua oferta no altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai conciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem apresentar a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele; para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que não sairás dali até que pagues o último centavo.

Aqui não se está a falar de penas purgatórias. Os versos 25 e 26 são um chamado a pôr-se em paz com os adversários em vez de arriscar as possíveis consequências, em forma de uma parábola tirada da vida quotidiana.

Isto o reconhece inclusive um comentário católico:

Pretendeu-se retirar do v. 26 de Mt a ideia do purgatório. Mas este não é mais que uma redacção parabólica, popular e de tipo «sapiencial». É uma advertência de prudência humana, para os assuntos da terra, sem mais pretensões, e que se deve aproveitar para evitar outras complicações. Assim deve-se aproveitar, analogicamente, esta lição para a ética cristã (cf. Mt 18,34.35), mas sem matizações estritas.

Manuel de Tuya, O.P. Profesores de Salamanca: Biblia Comentada, 3a Ed. Madrid: BAC, 1977, vol. 5A, p. 78; negrito acrescentado.

Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro

Um dos argumentos que os anti-católicos usam frequentemente para atacar o purgatório é a ideia de que a Igreja católica faz dinheiro ao promulgar esta doutrina. Sem purgatório, afirmam, a Igreja iria à falência. Um bom número de livros anti-Católicos expõe que a Igreja deve a maioria das suas receitas a esta doutrina. Mas os números não o sustentam.

...

Corto isto porque não tenho interesse algum em discutir números. O problema da doutrina do purgatório não é primariamente de se tratar de um subterfúgio para arrecadar dinheiro (ainda que o arrecade) ou exercer poder (ainda que o exerça).

O problema é que carece de base bíblica, e apesar disso transformou-se num dogma de assentimento obrigatório para os católicos que, para mais, justifica o sistema de indulgências e corrobora o carácter sacrificial da missa.

Uma "Invenção" Católica?

Os Fundamentalistas podem gostar de dizer que a Igreja católica "inventou" a doutrina do purgatório para fazer dinheiro, mas têm dificuldade para determinar exactamente quando. A maioria dos anti-Católicos profissionais - os que dedicam a sua vida a atacar o "Romanismo" – parecem atribuir a culpa ao Papa Gregório o Grande, que reinou entre os anos 590-604 d.C.

Mas nunca consideram a petição de Mónica, a mãe de Santo Agostinho, que pediu ao seu filho, no século IV, que se lembrasse da sua alma nas suas missas. Isto não teria nenhum sentido se ela pensasse que a sua alma não beneficiaria destas orações, como seria o caso se ela estivesse no inferno ou na glória completa do céu.

O autor deste penoso panfleto desqualifica os seus oponentes com a sua descrição de "fundamentalistas" e "anti-católicos", mas carece por completo de autocrítica na hora de expor argumentos.

Quanto ao primeiro, as crenças privadas de Santa Mónica não são o mesmo que o ensino de um bispo de Roma na sua qualidade de tal. De modo que não pode comparar-se o que a mamã de Agostinho tenha acreditado com o que Gregório Magno ensinou. Primeiro disparate.

Atribuindo a doutrina ao Papa Gregório não se poderiam explicar as pinturas nas catacumbas, onde os cristãos, durante as perseguições dos primeiros três séculos, registaram as orações pelos mortos.

Segundo disparate: as catacumbas também não defendem o purgatório. Os registos mais primitivos indicam uma afirmação ou uma expressão de desejo (Descansa em Paz, etc), sem uma oração formal a Deus. Mais tarde se acrescentam orações no sentido de que Deus guarde a alma do defunto ou tenha misericórdia dela. Mas não se insinua a ideia de que as almas foram retidas em algum sítio intermédio de purgação.

Na verdade, alguns dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, como os Actos de Paulo e Tecla e o Martírio de Perpétua e Felicidade (ambos escritos durante o segundo século), referem a prática cristã da oração pelos mortos.

Deveria ter vergonha de chamar "escritos cristãos" ao apócrifo Actos de Paulo e Tecla.

Quanto ao Martírio de Perpétua e Felicidade não é do século II mas de princípios do terceiro, já que com toda a probabilidade ambas foram executadas durante a perseguição de Septímio Severo em 202.

De qualquer modo, no capítulo 2 desta obra Perpétua tem um sonho onde vê o seu irmãozinho Dinócrates, que tinha perecido aos 7 anos "tão corroído o seu rosto por um cancro que a sua morte causou repugnância a todos". No sonho o vê sofrendo, e ora fervorosamente por ele até que o contempla alegre, fora do lugar de sofrimento onde estava. Não menciona absolutamente a presença de Deus.

O editor da obra faz a seguinte observação:

A avidez com que os escritores controversialistas latinos agarram esta fantasiosa passagem (a qual, na verdade, é subversiva de toda a sua doutrina acerca do purgatório...) enfatiza a absoluta ausência nos Padres primitivos de alguma referência a tal dogma; o qual, a ter existido, devia aparecer em cada referência ao estado dos mortos, e em cada relato da disciplina dos penitentes.

R.E. Wallis, PhD. Appendix. The Martyrdom of Perpetua and Felicitas. Em Ante-Nicene Fathers, 3:706.

Como bem diz Wallis de passagem, este texto vai contra o dogma católico pois não há a menor evidência de que Dinócrates, filho de pais pagãos e descrito por Perpétua como "meu irmão segundo a carne", tivesse sido baptizado. Pelo que somente poderia encontrar-se, segundo a doutrina católica, ou no limbo dos infantes ou, se se o considerar em idade da razão, no inferno (isto é o que parece crer Perpétua). Mas segundo a doutrina católica, tanto o inferno como o limbo das crianças são estados definitivos e portanto não modificáveis pela intercessão.

Tais orações teriam sido oferecidas somente se os cristãos cressem no purgatório, mesmo se não utilizaram esse nome para ele. (Veja-se As Respostas dos Padres Católicos mais conhecidos para conhecer a existência do purgatório nas citações destes e de outras fontes cristãs antigas.)

Esta é uma inferência injustificada, que presume uma correcção doutrinal da qual as supostas testemunhas do purgatório com toda a probabilidade careciam. A expressão de afecto através de rogar a Deus pelo descanso das almas dos seres amados falecidos não é evidência da existência de uma doutrina, muito menos de que seja verdadeira.

Porque não há protestos?

Sempre que uma data é definida para a "invenção" do purgatório, pode-se apontar evidências históricas para mostrar que a doutrina do purgatório existia antes dessa data.

Pois seria bom que começasse a exibi-las, porque o apresentado até aqui nem sequer insinua a existência de tal doutrina anteriormente ao século V ou VI.

Além disso, se em algum momento a doutrina foi tirada da cartola por um clérigo, por que a história eclesiástica não regista nenhum protesto contra ele?

Não é preciso supor que foi tirada da "cartola" por um clérigo para declará-la carente de fundamento. Agarrar-se ao mais fraco dos muitos argumentos que potencialmente podem esgrimir-se contra esta doutrina é refutar o mais fácil.

Um estudo da história das doutrinas indica que os cristãos dos primeiros séculos pegavam em armas (às vezes de forma especialmente sangrenta) se qualquer pessoa sugeria a menor mudança nas suas crenças.

Caramba, isto sim é novo... Quer dizer que os cristãos dos primeiros séculos não eram mártires mas guerrilheiros. Sem dúvida o autor está a tentar uma revisão radical da história da Igreja. Tertuliano devia ter dito que o sangue dos hereges, e não o dos mártires, é a semente da Igreja.

Eram pessoas extremamente conservadoras que testavam a verdade de uma doutrina perguntando: Era isto crido pelos nossos antepassados? Foi-nos dada através dos Apóstolos?

Esta é uma visão idealizada, quase bucólica, da história. A realidade é que através dos séculos se foram introduzindo doutrinas das quais não existe a menor evidência nem na Bíblia nem na Igreja pré-nicena (entre elas o purgatório).

Seguramente a crença no purgatório seria considerada uma grande mudança, se não tivesse sido crida desde o primeiro momento. Então, onde estão as evidências dos protestos?

Não existem. Não há nenhuma evidência, nos mais antigos documentos disponíveis para nós (ou, em outros mais tardios, a respeito deste tema), que "verdadeiros crentes" da época pós-apostólica falem do purgatório como uma "nova doutrina".

Este é um argumento tirado do silêncio, e portanto bastante fraco à falta de evidência positiva.

O argumento é cómico, porque nos documentos mais antigos não é de esperar protesto algum para uma noção ausente nessa época entre os mestres ortodoxos. Não era então nem nova nem velha doutrina. Era uma doutrina inexistente.

Por conseguinte, aqueles crentes entendiam que o ensinamento oral dos apóstolos, que os católicos chamam Tradição, e a Bíblia não só não contradizem a doutrina do purgatório, mas, na verdade, a confirmam.

Aqui o autor, depois de falhar em prover evidência sólida, dá asas à sua imaginação e visualiza os cristãos dos primeiros séculos abraçando devotamente a doutrina cuja existência não demonstrou.

Não é de admirar, pois, que os que negam a existência do purgatório tendam a abordar apenas superficialmente a história da crença.

E outros, não encontrando evidências da sua crença na história, se dedicam a inventá-las ou imaginá-las.

Preferem afirmar que a Bíblia fala somente de céu e inferno. Mas isto também não é assim. A Bíblia fala claramente de uma terceira condição, geralmente chamada o limbo dos Pais, onde os justos que morreram antes da redenção esperavam que o céu se abrisse para eles.

O "claramente" corre por conta do autor.

Depois da sua morte e antes da sua ressurreição, Cristo visitou o limbo dos Pais e lhes pregou a boa nova de que o céu estaria agora aberto para eles (1 Pedro 3:19). Estas pessoas não estavam, portanto, no céu, mas também não experimentavam os tormentos do inferno.

Que simples! Que claro!

Qualquer pessoa que saiba alguma coisa do Novo Testamento sabe que esta é uma das passagens mais difíceis de interpretar.

O exegeta católico Ricardo Franco, S.I., observa: Este versículo é o que suscita maiores dificuldades, e não há palavra nele que não tenha interpretações diversas (La Sagrada Escritura - Profesores de la Compañía de Jesús, 2a Ed. BAC: Madrid, 1967, NT 3:282).

Claríssimo!

Alguns especularam que o limbo dos Pais é igual ao purgatório. Este pode ou não ser o caso. No entanto, se o limbo dos Pais não é o purgatório, a sua existência mostra que um estado temporal, intermédio, não é contrário à Escritura.

Se pretende provar o inexistente a partir do obscuro, não creio que chegue muito longe. Primeiro deveria fundamentar melhor o limbus patrum.

Veja-o desta maneira. Se o limbo dos Pais era o purgatório, então isto nos mostra directamente a existência do purgatório.

Se tivesse demonstrado a existência do limbo dos Pais... pena por esse insignificante mas irritante detalhe.

Se o limbo dos pais era um estado temporal diferente, então a Bíblia diz pelo menos que tal estado pode existir. E, por conseguinte, prova que pode haver mais estados que o céu e o inferno.

De novo, ainda lhe falta começar a sua demonstração sobre o citado limbo. E se o conseguisse, somente demonstraria que um terceiro estado diferente de céu e inferno não é contrário à Escritura, o que está longe de ser uma evidência positiva em favor do purgatório.

"O purgatório não está na Escritura"

Alguns Fundamentalistas também argumentam, como se isso provasse realmente alguma coisa, "A palavra purgatório não se encontra em nenhum lado da Escritura." Isto é verdade, mas não refuta a existência do purgatório ou o facto de a crença nele ter sido parte sempre do ensinamento da Igreja. Trindade e Encarnação são palavras que também não estão na Escritura, contudo essas doutrinas se ensinam claramente nela. Igualmente, a Escritura ensina que existe o purgatório, mesmo se não utiliza a palavra e mesmo se 1 Pedro 3:19 se refere a um lugar diferente do purgatório.

Não é o mesmo, como pretende ao criar confusão o nosso interlocutor, dizer que a palavra purgatório não se encontra na Bíblia que dizer que a noção do purgatório está ausente das Escrituras.

Se somente se tratasse da ausência do termo latino, certamente que não haveria nenhuma objecção contanto que a ideia fosse claramente ensinada.

Já o facto de a doutrina não ser ensinada pela Escritura é um assunto fundamental.

Apesar dos seus ingentes esforços por criar confusão, a verdade é que não demonstrou nem que a noção seja escritural nem que tenha sido crida sempre pela Igreja.

Cristo se refere ao pecador que "não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (12:32 Mt.), sugerindo que alguém se pode libertar depois da morte das consequências dos seus pecados.

Nem é preciso que lhe responda. Deixo que o faça um correligionário seu:

A expressão de [Mateus], «não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro», está perfeitamente documentada nos escritos rabínicos, e significa simplesmente nunca.

Manuel de Tuya, o.c., p. 200.

O facto de o pecado contra o Espírito Santo não se perdoar "nem agora nem nunca" não significa que haja pecados que podem pagar-se no além.

Mesmo que se admitisse por causa do argumento a interpretação proposta, não falaria de alguma pena de além-túmulo, mas de um perdão de além-túmulo!

Semelhantemente, Paulo diz-nos que quando formos julgados, as obras de cada homem serão provadas. E o que sucede se a obra de um homem justo falha na prova? "Ele sofrerá perda, se bem que ele mesmo será salvo, como se pelo fogo" (1 Cor 3:15). Ora, esta perda, esta pena, não se pode referir ao envio ao inferno, uma vez que ninguém é salvo ali; e ao céu também não pode referir-se, uma vez que não há sofrimento ("fogo") ali. Só a doutrina católica do purgatório explica esta passagem.

Extraordinária exegese... Leia o texto e veja quando será provada a obra de cada um. Paulo diz que «o dia» a provará, o que no contexto indica claramente não penas de além-túmulo num estado intermédio, mas o juízo final a seguir à Parusia.

Então, é claro, existe a aprovação da Bíblia de orações pelos mortos: "Com acção tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado" (2 Mac. 12:43-45). As orações não são precisas pelos que estão no céu, e ninguém pode ajudar os que estão no inferno. Isso significa que algumas pessoas devem estar numa terceira condição, pelo menos temporariamente. Este versículo ilustra tão claramente a existência do purgatório que, durante a reforma, os protestantes tiveram que arrancar os livros dos Macabeus das suas Bíblias para evitar validar a doutrina.

Passo por alto a calúnia, e digo que obviamente, não aceitamos este texto de Macabeus como evidência válida primeiro porque aprendemos dos Padres a não basear doutrinas nos livros chamados Apócrifos, Eclesiásticos ou, desde o século XVI, deuterocanónicos. E segundo, porque este texto também não apoia a intercessão como a apresenta a Igreja Católica.

A atitude de Judas Macabeu não está autorizada por nenhum ensinamento do Antigo Testamento, especialmente se se considerar que os judeus pelos quais orou e apresentou sacrifícios tinham morrido como consequência de ter conservado para si "objectos consagrados aos ídolos de Jâmnia, que a Lei proíbe aos judeus" (12:40). Em outras palavras, tinham violado o solene mandamento de Deus que está em Deuteronómio 7:25.

Por outro lado, embora as acções de Judas Macabeu pareçam muito bem ao autor não inspirado, não há a menor indicação de que Deus tenha respondido a semelhante intercessão em favor dos idólatras.

A oração pelos mortos por causa da idolatria, que segundo a teologia católica constitui pecado mortal, e portanto os judeus que morreram estariam no inferno e não no purgatório, tem pouco apoio a prestar à doutrina do purgatório.

As orações pelos mortos e a consequente doutrina do purgatório, foram parte da religião verdadeira desde antes da época de Cristo. Podemos mostrar que não só foram praticadas pelos judeus da época dos Macabeus, mas que inclusive foram conservadas pelos judeus ortodoxos de hoje, os quais recitam uma oração conhecida como o Kaddish durante onze meses depois da morte de um ser amado, de modo que o amado possa ser purificado.

Nada do que os judeus ortodoxos de hoje seguem é ensinado na Bíblia (na verdade, não admitem 2 Macabeus) mas na sua própria tradição talmúdica. No cristianismo a oração pelos mortos não implica necessariamente a doutrina do purgatório, como antes observei. Era uma expressão de desejo, agradecimento ou prece para que Deus guardasse as suas almas, não para que as privasse de "penas purificadoras".

Não foi a Igreja Católica que acrescentou a doutrina do purgatório. Pelo contrário, a mudança no ensinamento original teve lugar no protestantismo, que rejeitou uma doutrina que tinha sido crida sempre pelos judeus e pelos cristãos.

Fácil é dizer isto. Que bonito seria se o pudesse demonstrar!

Por que ir para o Purgatório?

Por que alguém irá para o purgatório? Para ser purificado, porque "nada impuro entrará [no céu]" (Apoc. 21:27). Alguém que não se libertou totalmente do pecado e dos seus efeitos está, em certa medida, "impuro". Através do arrependimento pode ter ganho a graça necessária para ser digno do céu, o que quer dizer, que foi perdoado e a sua alma está espiritualmente viva. Mas isso não é suficiente para ganhar a entrada no céu. Ele necessita ser purificado totalmente.

Se nos pomos a especular (e a doutrina do purgatório, que veio a ser "de fé" nasceu da especulação) Deus poderia purificar todos os fiéis defuntos de maneira instantânea sem ter que detê-los no purgatório. Esta ideia tem muito mais apoio que a invenção romana, já que Paulo diz que todos os crentes que estejam vivos quando Cristo voltar (entre os quais supomos que haverá muitos imperfeitos) serão transformados num instante, num abrir e fechar de olhos (1 Coríntios 15:51-52).

Os Fundamentalistas protestantes argumentam que "A Escritura claramente revela que todas as exigências da justiça divina no pecador se satisfizeram totalmente em Jesus Cristo. Também revela que Cristo redimiu totalmente ou resgatou todo o que se havia perdido. Os defensores de um purgatório (e da necessidade de oração pelos mortos) dizem, na realidade, que a redenção de Cristo foi incompleta. . . Tudo foi feito por nós por Jesus Cristo, não há nada a ser acrescentado ou ser feito pelo homem".

É inteiramente correcto dizer que Cristo conseguiu toda a nossa salvação para nós na cruz. Mas isso não resolve a questão de como esta redenção se aplica a nós. A Escritura revela que se aplica a nós no curso do tempo através, entre outras coisas, do processo da santificação com o qual se torna santo o cristão. A Santificação envolve sofrimento (ROM 5:3-5), e o purgatório é a etapa final da santificação que alguns de nós temos necessidade de experimentar antes de entrarmos no céu. O purgatório é a fase final em que Cristo nos aplica a purificação redentora que ele conseguiu para nós pela sua morte na cruz.

Não existe nenhuma contradição.

A resistência fundamentalista à doutrina bíblica do purgatório presume que há uma contradição entre Cristo que nos redime na cruz e o processo pelo qual nos santificamos. Não há tal. E um fundamentalista não pode dizer que sofrendo na etapa final da santificação se entra em conflito com a suficiência do sacrifício de Cristo sem dizer que o sofrimento nas etapas iniciais da santificação também apresenta um conflito similar. O fundamentalista o tem ao contrário: O nosso sofrimento na santificação não é tirado da cruz. Ao contrário, a cruz produz a nossa santificação , que resulta no nosso sofrimento, porque "nenhuma correcção parece no momento ser motivo de gozo, mas de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça" (Heb. 12:11).

Nada impuro

O purgatório faz sentido porque existe o requisito de que uma alma que foi declarada justa deve estar realmente limpa antes que um homem possa entrar na vida eterna. Afinal, se uma alma culpável é meramente "aprovada", se o seu estado pecaminoso ainda existe mas é oficialmente ignorado, então ainda é uma alma culpável. Ainda está impura.

A teologia católica leva a sério a noção de que "nada impuro entrará no céu." Disto deduz-se que uma alma menos que purificada, mesmo se "aprovada" continua a ser uma alma suja e não serve para o céu. Necessita ser purificada ou "purgada" das suas imperfeições restantes. A purificação ocorre no purgatório. De facto, a necessidade de purgar é ensinada em outras passagens da Escritura, tal como 2 Tessalonicenses 2:13, a qual declara que Deus nos elegeu "para sermos salvos pela santificação do Espírito". A Santificação não é, portanto, uma opção, algo que pode ou pode não suceder antes que se consiga entrar no céu. É um requisito absoluto, como hebreus 12:14 indica que devemos esforçar-nos "pela santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor".

Sinceramente já me cansei de tanta chachada. Parece-me que não acrescenta nada de novo a não ser repetir argumentos para ver se convence algum incauto.

Somente acrescento que dificilmente o texto esgrimido de 2 Tessalonicenses ensina um purgatório, quando fala da santificação e da fé como parte dos dons ou meios para a salvação. Não diz nada de uma purificação de além-túmulo.

[1] O artigo original em inglês encontra-se publicado Aqui

2 comentários:

  1. Excelentes respostas sobre um tema (Purgatório) que, infelizmente para muitos ainda tem credibilidade.

    Louvado seja o Deus Verdadeiro e Bíblico.
    Flor

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