sexta-feira, 11 de março de 2011

A Igreja primitiva sobre o Papado segundo os apologistas romanos


Os apologistas romanos costumam apresentar alguns documentos e citações de escritores antigos para demonstrar que os cristãos primitivos criam no papado. A maioria dessas citações que transcrevem falam do Apóstolo Pedro. Creio que ninguém disputará o destacado papel de Pedro tanto durante o ministério de Jesus como no nascimento e desenvolvimento inicial da Igreja primitiva, tal como se narra nos 12 primeiros capítulos do livro dos Actos.

Ora bem, o que deve questionar-se, e com a maior energia, é a validade de compilar citações sobre o Apóstolo Pedro e aplicá-las aos bispos de Roma. Isto equivale a deturpar o dito pelos Padres, com excepção dos próprios bispos de Roma, os quais por motivos óbvios foram os que se agarraram à ideia de ser "sucessores de Pedro" de um modo especial e exclusivo, para ganhar poder sobre os demais bispos.

Eis aqui alguns exemplos.

Clemente de Alexandria

"O bendito Pedro, o eleito, o preeminente, o primeiro entre os discípulos, para quem, além de si mesmo, o Salvador pagou o tributo [Mt 17:27], rapidamente compreendeu e entendeu o seu significado. E que é o que ele diz?`Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos'" [Mt 19:27; Mc 10:28] (Quem é o rico que é salvo? 21:3-5 [A.D. 200]).

Sem dúvida Clemente não excede os limites dos dados escriturais ao expressar-se assim acerca do Apóstolo Pedro. Além disso, noutros dois casos Clemente coloca Pedro juntamente com os filhos de Zebedeu como os Apóstolos mais destacados (embora aparentemente no segundo texto confunda Tiago o Justo, com o seu homónimo irmão de João). Numa ocasião coloca Pedro em primeiro lugar e na outra em terceiro. No primeiro caso se trata do facto de nenhum do trio ter tomado para si a honra de ser bispo de Jerusalém:

Clemente [de Alexandria], no livro VI das Hypotyposeis, aduz o seguinte: "Porque -diz - depois da ascensão do Salvador, Pedro, Tiago e João, mesmo tendo sido os preferidos do Salvador, não tomaram para si esta honra, mas elegeram como bispo de Jerusalém Tiago o Justo."

Eusébio, História Eclesiástica, II, 1:3.

No segundo caso trata-se da instrução recebida por Pedro e pelos filhos de Zebedeu e supostamente transmitida por eles ao resto dos Apóstolos:

E o mesmo autor, no livro VIII da mesma obra, diz ainda sobre ele o seguinte: "O Senhor, depois da sua ressurreição, fez entrega do conhecimento a Tiago o Justo, a João e a Pedro, e estes o transmitiram aos demais apóstolos, e os demais apóstolos aos setenta, um dos quais era Barnabé».

Eusébio, História Eclesiástica, II, 1:3.

Em outras palavras, não há em Clemente terreno algum para afirmar que Pedro agisse como chefe ou único mestre supremo, da antiga Igreja.

Tertuliano

"Porque embora vocês creiam que o céu ainda está fechado recordem que o Senhor deixou as chaves do céu aqui a Pedro, e através dele à Igreja, chaves que cada um levará consigo se tiver sido interrogado e tiver feito uma confissão [de fé]" (Scorpiace 10 [A.D. 211]).

Aqui é preciso atender ao contexto. Tertuliano defende a ideia ortodoxa de que os cristãos devem confessar o nome do Senhor aqui na terra (e não no céu como sustentavam certos heterodoxos). E os que confessarem o Senhor aqui, têm já abertas as portas do céu, de modo que «nenhum atraso nem interrogatório há-de receber os cristãos no umbral, já que eles não hão-de ser ali discriminados uns dos outros, mas aceites, e não questionados, mas recebidos».

A isto se segue o texto citado: «Porque embora vocês concebam o céu ainda fechado, recordem que o Senhor deixou aqui a Pedro e através dele à Igreja, as chaves daquele, as quais cada um que tenha sido questionado aqui, e também feito confissão, levará consigo».

Em outras palavras, segundo o texto de Tertuliano, longe de ser a posse das chaves uma prerrogativa exclusiva do Apóstolo Pedro, as chaves do reino são aqui e agora propriedade de todo o autêntico cristão.

E, desde logo, o texto não diz nem insinua palavra acerca de supostos sucessores exclusivos de Pedro.

Tertuliano

"O Senhor disse a Pedro, 'Sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, te darei as chaves do reino dos céus [e] tudo o que ligares ou desligares na terra será ligado ou desligado nos céus' [Mt 16:18-19] . . . Sobre ti, diz, eu edificarei a minha Igreja; e eu te darei as chaves a ti, não à Igreja; e qualquer coisa que tu ligares ou desligares, não o que eles ligarem ou desligarem" (Modéstia 21:9-10 [A.D. 220]).

O inveterado hábito de pegar em textos patrísticos que falem de Pedro com o intuito de sustentar as pretensões do papado, sem examinar apropriadamente o seu contexto, pode trazer surpresas. Tal é o caso desta citação do tratado de Tertuliano "Sobre a Modéstia" (De pudicitia).

Este tratado foi escrito no final da vida de Tertuliano, quando fazia mais de uma década que se tinha unido à seita rigorista de Montano, a qual reivindicava para si os carismas proféticos. "Sobre a Modéstia" é um virulento ataque contra o perdão de pecados sexuais cometidos depois do baptismo. Diz Quasten:

Segundo o conceito montanista que o autor tem da Igreja, o poder de perdoar não pertence à hierarquia eclesiástica, mas à hierarquia espiritual, isto é, aos apóstolos e profetas.

Johannes Quasten , Patrología. I. Hasta el concilio de Nicea. Madrid: BAC, 1978, 1:610.

Há quem pense que o tratado foi dirigido primariamente contra o bispo de Roma, Calisto (217-222), embora o seu adversário possa também ter sido Agripino, bispo de Cartago. Tertuliano chama sarcasticamente o seu oponente com o título pagão de pontifex maximus (que ainda não havia sido reclamado pelo bispo de Roma).

Em todo o caso, e de forma obviamente contraditória com a atribuição das chaves a todo o cristão autêntico que defendeu no Scorpiace (ver acima), aqui Tertuliano se agarra à ideia de concessões pessoais a Pedro para negar o poder da Igreja institucional para perdoar pecados. Vejamos a passagem no seu contexto:

Agora inquiro a vossa opinião, [para ver] de que fonte usurpas este direito para "a Igreja".

Se, por o Senhor ter dito a Pedro, «Sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja», «a ti eu te dei as chaves do reino celestial», ou «qualquer coisa que ligares ou desligares na terra, será ligada ou desligada nos céus», tu portanto supores que o poder de ligar e desligar derivou para ti, ou seja, para toda a Igreja semelhante a Pedro, que tipo de homem és, subvertendo e mudando totalmente a manifesta intenção do Senhor ao conferir este [dom] pessoalmente a Pedro? «Sobre ti», diz, «eu edificarei a minha Igreja»; e «Eu te darei as chaves a ti», não à Igreja; e «o que desligares ou ligares», não o que «eles desligarem ou ligarem».

Pois assim o ensina também o resultado. No próprio (Pedro) a Igreja foi criada; isto é, através dele próprio; ele próprio testou a chave; e tu vês qual: «Homens de Israel, deixai que o que digo penetre nos vossos ouvidos: Jesus Nazareno, homem destinado por Deus para vós», etc. O próprio (Pedro), portanto, foi o primeiro a abrir, no baptismo de Cristo, a entrada para o reino celestial, no qual são «desligados» os pecados que antes estavam «ligados»; e aqueles que não foram «desligados» estão «ligados», de acordo com a verdadeira salvação; e a Ananias o «ligou» com a ligadura da morte, e aos de pés fracos «absolveu» da sua falta de saúde. Ademais, naquela disputa acerca da observância ou não da Lei, Pedro foi o primeiro de todos a ser dotado com o Espírito e, depois de fazer um prefácio respeitante ao chamado das nações, ao dizer «E agora, por que estais vós tentando o Senhor pondo sobre os irmãos um jugo que nem nós nem nossos pais fomos capazes de suportar? Mas, no entanto, através da graça de Jesus cremos que seremos salvos do mesmo modo que eles». Esta frase tanto «desligou» aquelas partes da Lei que foram abandonadas, como «ligou» aquelas que foram conservadas. Daí que o poder de desligar e ligar confiado a Pedro não tinha nada que ver com os pecados capitais de crentes; e se o Senhor lhe tinha dado um preceito de que devia conceder o perdão a um irmão que pecasse contra ele «até setenta vezes sete», é claro que não lhe ordenaria «ligar» – isto é, reter - nada subsequentemente, a não ser porventura os tais [pecados] cometidos contra o Senhor, não contra um irmão. Pois o perdão [dos pecados] cometidos no caso de um homem é um prejuízo contra a remissão de pecados contra Deus.

Ora, que [tem isto que ver] com a Igreja, e em particular com a tua, Psíquico? Pois, de acordo com a pessoa de Pedro, é a homens espirituais que este poder pertencerá correspondentemente, seja a um apóstolo ou a um profeta. Pois a mesmíssima Igreja é, própria e principalmente, o próprio Espírito, em quem está a Trindade da única Divindade – Pai, Filho e Espírito Santo. [O Espírito] une essa Igreja que o Senhor fez consistir em «três». E assim, desde aquele tempo em diante, todo número [de pessoas] que se uniram entre si nesta fé é contada como «uma Igreja», do Autor e Consagrador [da Igreja]. E concordantemente «a Igreja», é verdade, perdoará pecados; mas a Igreja do Espírito, por meio de um homem espiritual; não a Igreja que consiste num número de bispos. Pois o direito e arbítrio são do Senhor, não dos servos; do próprio Deus, não dos sacerdotes.

Sobre a modéstia, 21.

Em outros termos, Tertuliano ensina aqui a limitação do «poder das chaves» a Pedro pessoalmente, e o nega totalmente à Igreja institucional e hierárquica. É incompreensível que alguém possa ver neste tratado um argumento a favor do episcopado monárquico em geral, ou romano em particular. O texto diz completamente o contrário.

Cipriano de Cartago

"O Senhor disse a Pedro: 'Em verdade vos digo, 'diz, 'que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja' . . . . Sobre ele [Pedro] ele edifica a Igreja, e a ele dá o mandato de apascentar as ovelhas [João 21:17], e apesar de atribuir um poder similar a todos os apóstolos, ainda assim ele fundou uma única sede [cátedra], e estabeleceu por sua própria autoridade uma fonte e uma razão intrínseca para essa unidade. . . . Sem dúvida, os outros também foram o que Pedro foi [i.e., apóstolos], mas a primazia se concedeu a Pedro, pelo que fica claro que há só uma Igreja e uma sede. Do mesmo modo também, [os apóstolos] são pastores e o rebanho é um, alimentado pelos apóstolos num mesmo espírito. Se alguém não se mantém firme nesta unidade de Pedro, pode imaginar-se que ainda sustém a fé? Se desertasse da sede de Pedro sobre a qual a Igreja foi fundada, pode ainda confiar em que está na Igreja?" (A Unidade da Igreja Católica 4; [A.D. 251]).

Cipriano defende aqui a unidade da Igreja com vários argumentos, entre eles o da primazia de Pedro. No entanto, não há razão para pensar que o que Cipriano diz em relação a Pedro deva atribuir-se sem mais ao bispo de Roma. Que isso está longe de ser assim fica claro pela reacção do mesmo Cipriano à cabeça dos bispos africanos, juntamente com Firmiliano e os bispos asiáticos, contra o bispo de Roma, Estêvão, a propósito do baptismo dos hereges. Vejam-se os textos em "Supremacia papal ante-nicena", aqui.

Efrém, o Sírio

[Jesus disse:] Simão, meu seguidor, eu te fiz fundamento da Santa Igreja. Eu te chamei Pedro, porque tu suportarás todos os seus edifícios. Tu és o inspector dos que edificaram uma Igreja na Terra para mim. Se eles quiserem edificar o que é falso, tu, o fundamento, os condenarás. Tu és a cabeça da fonte da qual meu ensinamento flui; tu és o chefe dos meus discípulos. Através de ti darei de beber a todos os povos. Tua é essa doçura dadora de vida que eu dispenso. Te escolhi a ti para ser, por assim dizer, o primogénito na minha instituição de modo tal que, como o herdeiro, possas ser administrador dos meus tesouros. Te entreguei as chaves do meu reino. Olha, te dei autoridade sobre todos os meus tesouros" (Homílias 4:1 [A.D. 351]).

Não tenho este documento à mão para estudar o contexto, mas com base no que diz a citação, parece tratar-se de Pedro pessoalmente, sem que se contemplem "sucessores" em geral ou bispos de Roma em particular.

Ambrósio de Milão

"[Cristo] lhe respondeu: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja . . .' Não podia ele, então, fortalecer a fé do homem ao qual, agindo com a sua própria autoridade, entregou o reino, a quem ele chamou a pedra, declarando-o desse modo fundamento da Igreja [Mt 16:18]?" (A Fé 4:5 [A.D. 379]).

A citação acima é precedida por estas palavras:

Além disso, para que possas saber que é segundo a sua humanidade que intercede, e em virtude da sua divindade que ordena, está escrito para ti no Evangelho de Lucas que disse a Pedro: «Orei por ti, para que a tua fé não falhe». Ao mesmo Apóstolo, de novo, quando numa ocasião anterior disse, «Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo», ele lhe respondeu...

Segue-se a citação em cima, e depois a conclusão:

Considera, então, a maneira da sua intercessão, as ocasiões da sua ordenança. Ele intercede quando nos é mostrado como na véspera do sofrimento; Ele ordena, quando é reconhecido como Filho de Deus.

De novo, isto é dito de Pedro pessoalmente e sem ter no horizonte nenhuma "sucessão". O contexto é uma discussão acerca do que Cristo pode ou não fazer, em relação às suas naturezas divina e humana.

Papa Dámaso I

"Do mesmo modo se decreta . . . que deve anunciar-se que . . . a santa Igreja Romana foi posta à frente não por decisões conciliares de outras igrejas, mas recebeu a primazia pela voz evangélica de nosso Senhor e Salvador, que diz: 'Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela; e a ti te darei as chaves do reino dos céus. . . ' [Mt 16:18-19]. A primeira sede, portanto, é a de Pedro o apóstolo, a da Igreja Romana, que não tem mancha nem defeito nem coisa parecida." (Decreto de Dámaso 3 [A.D. 382]).

É bem sabido que os que apelaram, ao princípio sem grande resultado, aos textos que falam de Pedro como se fossem uma razão para fundamentar a autoridade suprema da Igreja de Roma, foram os próprios bispos dessa cidade. Como diz George Salmon, se alguém dissesse que proeminentes intelectuais afirmam que Paris é a capital cultural do mundo, e quando é questionado sobre os que dizem isso responde Victor Hugo, Balzac, e Alexandre Dumas, haveria uma inevitável suspeita de enviesamento. O mesmo ocorre quando o bispo de Roma exalta o seu próprio ofício.

São Jerónimo

"'Mas, tu [Joviniano] dirás, 'foi sobre Pedro que a Igreja foi fundada' [Mt 16:18]. Bom. . . um dentre os doze foi eleito para ser sua cabeça para evitar qualquer ocasião de divisão" (Contra Joviniano 1:26 [A.D. 393]).

É muito curioso que se cite precisamente este texto a favor da supremacia petrina (para não falar do papado), já que o seu propósito no contexto é demonstrar a superioridade do Apóstolo João sobre o Apóstolo Pedro.

A obra de Jerónimo Contra Joviniano é basicamente uma defesa da virgindade como um estado superior ao matrimónio. Jerónimo apresenta uma série de argumentos, de diferente valor, a favor da sua tese. Um deles é que João era e permaneceu virgem, e por essa causa foi mais amado pelo Senhor; "e o que Pedro, que era casado, não se atreveu a perguntar, pediu a João que perguntasse". Jerónimo apresenta ainda outros argumentos e continua:

Se, porém, Joviniano obstinadamente contendesse que João não era virgem (ao passo que sustentámos que a sua virgindade foi a causa do especial amor que o Senhor lhe tinha), que explique, se não era virgem, por que era mais amado que os outros Apóstolos. Mas tu dizes, «a Igreja foi fundada sobre Pedro», ainda que em outro lado se diga o mesmo de todos os Apóstolos, e todos eles receberam as chaves do reino dos céus, e a força da Igreja depende de todos eles por igual, no entanto um dos doze é escolhido de modo que se dispôs uma cabeça para que não haja ocasião de cisma. Mas, por que não foi escolhido João que era virgem? Foi prestada deferência à idade, porque Pedro era o mais velho: alguém que era jovem, quase diria um garoto, não podia ser posto sobre homens de idade avançada; e de um bom mestre que se propunha tirar toda a ocasião de disputa entre os seus discípulos, e que lhes havia dito, «Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz» e «O que é maior entre vós, que seja o menor» não pode pensar-se que proporcionaria um motivo de inveja contra o jovem que tinha amado... Pedro é um Apóstolo, e João é um Apóstolo - um é um homem casado, o outro um virgem; mas Pedro é somente um Apóstolo, enquanto João é um Apóstolo, um Evangelista, e um Profeta. Um Apóstolo, porque escreveu às Igrejas como mestre; um Evangelista, porque compôs um Evangelho, coisa que nenhum outro Apóstolo, excepto Mateus, fez; um profeta, porque viu na ilha de Patmos, onde tinha sido desterrado pelo imperador Domiciano como um mártir do Senhor, um Apocalipse contendo os ilimitados mistérios do futuro.

Coloquei em itálico a suposta "citação sobre o papado", que em todo o caso fala pessoalmente de Pedro. E ainda esta alusão é vista sob uma luz muito diferente quando é examinada no contexto, já que Jerónimo – com razão ou sem ela - obviamente minimiza o privilégio de Pedro e exalta a pessoa e a obra de João. De modo que em vez de fortalecer o argumento romanista, esta passagem o contradiz flagrantemente.

São Jerónimo

"Simão Pedro, filho de João, do povo de Betsaida na província da Galileia, irmão de André o apóstolo, e chefe ele mesmo dos apóstolos, depois de ter sido bispo da Igreja de Antioquia e ter pregado à Diáspora . . . foi enviado a Roma no ano segundo de Cláudio para abater Simão o Mago, e manteve a sede sacerdotal ali por vinte e cinco anos até ao final, isto é o décimo quarto ano de Nero. Nas suas mãos recebeu a coroa do martírio sendo cravado na cruz com a cabeça para o chão e os seus pés para o alto, afirmando que não era digno de ser crucificado da mesma maneira que o seu Senhor" (Vidas de Homens Ilustres 1 [A.D. 396]).

Aqui Jerónimo faz eco de uma lenda pós-apostólica que pode traçar-se à literatura pseudo-clementina, da primeira metade do século III. Que o Apóstolo Pedro viajasse para Roma numa data tão precoce e permanecesse ali por 25 anos é impossível se se levarem em conta os dados do Novo Testamento. Isto o mostrei noutro lado: Aqui

Papa Inocêncio I

"Ao buscar as coisas de Deus . . . Vocês reconheceram que todo o juízo deve ser remetido a nós [o papa], e demonstraram saber que é devido à Sé Apostólica [Roma], já que todos os que estamos neste lugar desejamos seguir o próprio apóstolo [Pedro] de quem este episcopado e toda a autoridade deste nome surgiram" (Epístolas 29:1 [A.D. 408]).

Esta citação é muito interessante, pois esta carta do bispo de Roma Inocêncio I é a resposta à solicitação de ratificação da condenação dos erros pelagianos feita pelos bispos africanos, encabeçados nada menos que por Agostinho de Hipona.

De novo, é necessário examinar o fundo histórico, que é o da heresia pelagiana. Pelágio era um monge que provavelmente provinha das Ilhas Britânicas, mas iniciou a sua carreira em Roma pelo ano 400. Alto, imponente, conhecedor da teologia e capaz de expressar-se fluidamente em latim e em grego, rapidamente adquiriu boa reputação por sua austeridade. Desenvolveu uma antropologia e soteriologia heréticas, já que entre outras coisas negava a absoluta necessidade da graça para a salvação. Durante anos pregou em Roma a sua doutrina, junto com o seu seguidor, o advogado Celéstio. Deve notar-se que não houve oposição alguma a esta actividade por parte dos bispos de Roma.

Mesmo se as suas intrigas secretas ou abertas não passaram desapercebidas, todavia os dois amigos não foram importunados pelos círculos oficiais romanos. Mas as coisas mudaram quando em 411 deixaram o hospitaleiro solo da metrópole, a qual havia sido saqueada por Alarico, (410) e rumaram para o Norte de África.

Joseph Pohle, Pelagius and Pelagianism em The Catholic Encyclopedia (1911), vol. 11.

Enquanto Pelágio continuou viajando para a Palestina, Celéstio tentou ser feito presbítero em Cartago. No entanto, os seus ensinamentos foram denunciados perante o bispo dessa cidade, Aurélio, que convocou um sínodo (411) que além de negar-lhe a ordenação condenou os seus ensinamentos. Celéstio viajou então para Éfeso, onde conseguiu ser ordenado.

Entretanto, os ensinamentos de Pelágio se tinham difundido no norte de África e motivaram os primeiros escritos de Agostinho contra esta heresia. No entanto, Pelágio se encontrava na Palestina, como um estimado hóspede do bispo João de Jerusalém, e continuava propagando as suas ideias. Tanto Jerónimo como Agostinho se opunham a ele, e aliou-se a eles o bispo Orósio, que acusou Pelágio. Houve um sínodo na Palestina em 415 que, perante a sólida defesa de Pelágio, não chegou a nenhuma conclusão, mas dada a origem do suposto heresiarca, resolveu deixar o juizo aos latinos. No mesmo ano dois bispos ocidentais exilados, Heros de Arles e Lázaro de Aix, acusaram Pelágio perante o bispo Eulógio de Cesareia. Graças a uma série de circunstâncias afortunadas para Pelágio, um sínodo reunido em Diospolis o exonerou dos cargos. De modo que pela segunda vez consecutiva, Pelágio havia triunfado no Oriente.

Estes factos causaram profunda inquietação entre os bispos norte-africanos, os quais condenaram as doutrinas pelagianas em dois sínodos, o primeiro com 67 bispos da África proconsular em Cartago (415) e o segundo com 59 bispos de Numídia em Milevi (416), província à qual pertencia a sede de Agostinho. Ambos os sínodos solicitaram a ratificação da sede romana, e cinco bispos (Agostinho, Aurélio, Alípio, Evódio e Posídio) escreveram ao bispo romano Inocêncio expondo a doutrina ortodoxa. Que se solicitasse a ratificação da sede romana era natural dada a confusão reinante no Oriente, a importância da Igreja de Roma e o facto de a heresia ter surgido nessa cidade.

O bispo de Roma ratificou com gosto o efectuado pelos africanos, não sem perder a oportunidade de sublinhar os direitos e privilégios de que se cria credor, segundo a citação que está mais acima, e que se reproduz em Denzinger # 100, seguida pelos ensinamentos de Cartago e Milevi (Denzinger# 101-106). É claro que os bispos africanos se alegraram de que Roma ratificasse o efectuado e aderisse aos seus ensinamentos.

Em África, onde a decisão foi recebida com verdadeiro entusiasmo, toda a controvérsia foi agora considerada como encerrada, e Agostinho, a 23 de setembro de 417 anunciou desde o púlpito (Serm., cxxxi, 10 em P. L., XXXVIII, 734), "Jam de hac causa duo concilia missa sunt ad Sedem apostolicam, inde etiam rescripta venerunt; causa finita est". (Tendo dois sínodos escrito à Sé Apostólica sobre este assunto, chegou a resposta; a questão está concluída). Mas estava enganado; o assunto não estava concluído.

Pohle, o.c.

Esta citação de Agostinho é o mais próximo que conheço da frase supostamente dita por ele: Roma locuta, causa finita est. E, como diz Pohle, o bispo de Hipona se enganava. A condenação definitiva do pelagianismo teve de aguardar até o Concílio de Éfeso de 431. Curiosamente, foi um bispo de Roma quem retardou o fim da controvérsia. Inocêncio I morreu a 12 de Março de 417 e foi sucedido por Zósimo, que foi convencido pelos heresiarcas de que eles tinham sido injustamente acusados. O papa Zósimo se convenceu da inocência dos pelagianos, censurou os bispos Heros e Lázaro por agirem contra Pelágio, e acusou os bispos africanos de agirem precipitadamente.

A solicitação de ratificação por parte da sede romana indica a sua importância mas não demonstra de modo algum o primado de jurisdição, nem a infalibilidade, como se pode ver na reacção dos bispos africanos perante as exigências de Zósimo. Eles se mantiveram firmes nas suas decisões, e no final foi o papa Zósimo quem teve de ceder.

Para mais informação sobre este tema, veja-se: Aqui

Agostinho

Entre os apóstolos em quase todos os lugares Pedro mereceu representar a Igreja toda. Por causa desta representação da Igreja, que só ele exerceu, mereceu escutar: 'Eu te darei as chaves do reino dos céus'" (Sermões 295:2 [A.D. 411]).

Agostinho

"Dizem-se certas coisas que parecem estar especialmente relacionadas com o apóstolo Pedro, e cujo significado não é claro a não ser que se refiram à Igreja a qual, segundo é reconhecido, a sua figura representou tendo em conta a primazia que exerceu entre os discípulos. Tais como: 'Eu te darei as chaves do reino dos céus,' e outras passagens similares. Do mesmo modo, Judas representa aqueles judeus que foram inimigos de Cristo" (Comentário sobre o Salmo 108 1 [A.D. 415])

Deveria ser óbvio que o suposto ensino de exclusividade de Pedro do primeiro texto é negado pelo segundo. Eis aqui a minha tradução (negrito acrescentado):

Pois como se dizem certas coisas que parecem aplicar-se peculiarmente ao Apóstolo Pedro, e no entanto não são claras em significado, a menos que se refiram à Igreja, a quem ele é reconhecido como tendo representado figuradamente, por causa da primazia que tinha entre os discípulos; como está escrito, «Eu te darei as chaves do reino dos céus» e outras passagens similares; assim Judas representa aqueles judeus que eram inimigos de Cristo... E agora, na sua linha de sucessão, continuando esta espécie de impiedade, o odeiam.

Claramente, Agostinho sugere aqui uma interpretação colectiva (eclesiástica) da entrega das chaves; Pedro as recebeu não como "papa" mas como representante do Corpo de Cristo. Em outro lado diz Agostinho no mesmo sentido, a propósito do facto de, no mesmo capítulo 16 de Mateus, Pedro ser chamado "bem-aventurado" e "Satanás":

Ora, este nome de Pedro lhe foi dado pelo Senhor, [para] que numa figura, representasse a Igreja. Pois vendo que Cristo é a Pedra (Petra), Pedro é o povo cristão. Pois a pedra (Petra) é o nome original. Portanto, Pedro é assim chamado pela Pedra, não a Pedra por Pedro; como Cristo não é chamado Cristo por causa do cristão, mas o cristão por Cristo… Eu te edificarei a ti sobre mim, não me edificarei a mim sobre ti.

Pois os homens que desejam edificar-se sobre homens diziam "Eu sou de Paulo; e eu de Apolo, e eu de Cefas" que é Pedro. Mas outros que não desejam ser edificados sobre Pedro, mas sobre a Pedra, dizem, "Mas eu sou de Cristo". E quando o Apóstolo Paulo notou que ele foi escolhido e Cristo desprezado, disse: "Está dividido Cristo? ou fostes baptizados em nome de Paulo?" E, como não em nome de Paulo, também não em nome de Pedro, mas em nome de Cristo: para que Pedro pudesse ser edificado sobre a Pedra, não a Pedra sobre Pedro.

Este mesmo Pedro, portanto, que havia sido pronunciado pela Pedra "bendito", portando a figura da Igreja, sustentando o lugar principal do Apostolado, ... desgostou o Senhor... [que]... o chamou "Satanás"...

Distingamos, vendo-nos a nós próprios neste membro da Igreja, o que é de Deus e o que é de nós. Pois então não vacilaremos, então estaremos fundados na Pedra, estaremos fixos e firmes contra os ventos, e tormentas, e correntes, as tentações, quero dizer, do mundo presente. Vede ainda Pedro, que era então nossa figura; ora confia, ora vacila; ora confessa o Imortal, ora teme que morra. Porquê? Porque a Igreja de Cristo tem tanto fortes como fracos; e não pode existir sem fortes e fracos; pelo que diz o Apóstolo Paulo, "Ora os que são fortes suportem as fraquezas dos fracos". Pedro ao dizer "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo" representa os fortes, mas ao vacilar, e não querer que Cristo sofra, ao temer a morte d`Ele, e não reconhecer a Vida, representa os fracos da Igreja. Naquele único Apóstolo então, ou seja, em Pedro, na ordem dos Apóstolos primeiro e principal, em quem toda a Igreja estava figurada, ambos os tipos haviam de estar representados, ou seja, tanto os fortes como os fracos; porque a Igreja não pode existir sem ambos.

Sermão 26 sobre Mateus 16:25; negrito acrescentado.

Agostinho

"Quem ignora que o primeiro dos apóstolos é o mui bendito Pedro?" (Comentário sobre João 56:1 [A.D. 416]).

Poderíamos responder que não o ignora ninguém. Diga-se a propósito, que o contexto desta passagem é a lavagem dos pés, quando Pedro resistiu a ser lavado pelo Senhor. Agostinho nota que "foi um episódio de grande audácia para o servo contradizer o seu Senhor, a criatura o seu Deus".

Concílio de Éfeso

"Felipe, presbítero e legado do Papa [Celestino I] disse: 'Oferecemos o nosso agradecimento ao santo e venerável sínodo, porque quando os escritos de nosso bendito e santo papa vos foram lidos . . . Vós vos unistes à santa cabeça também mediante as vossas santas aclamações. Já que vossas santidades não ignoram que a cabeça da fé toda, a cabeça dos Apóstolos, é o bendito Pedro o Apóstolo'" (Actas do Concílio, sessão 2 [A.D. 431]).

Esta é, finalmente, outra peça de propaganda romana. Isto que Felipe leu não foi votado nem aprovado pelo dito concílio. Representa, portanto, a opinião que o bispo romano tinha de si.

4 comentários:

  1. Será que S. Jerônimo não aceitava a autoridade do Bispo de Roma, como sendo o sucessor de Pedro, a rocha, sobre a qual Jesus Cristo, a pedra rejeitada pelos pedreiros, construiu a sua única Igreja. Vejamos:

    "Eu acho que é meu dever consultar a cátedra de Pedro e se voltar para uma igreja cuja fé foi elogiada por Paulo"(Rm 1,8).(carta 15 de S. Jerônimo ao Papa Dâmaso Nº1)

    "Minhas palavras são faladas ao sucessor do pescador, o discípulo da cruz. Como eu sigo nenhum líder salvo Cristo, para me comunicar com ninguém, mas o seu bem-aventurado, que está com a cátedra de Pedro. Por isso, eu sei , é a rocha sobre a qual está construída a Igreja! (Mateus 16:18) Esta é a casa onde somente o cordeiro pascal pode ser bem comido. (Êxodo 12:22) Esta é a arca de Noé , e quem não for encontrado nela perecerá quando o dilúvio prevalecer".(carta 15 de S. Jerônimo ao Papa Dâmaso Nº2)

    "Aquele que se agarra à cátedra de Pedro é aceito por mim".(carta 16 de S. Jerônimo ao Papa Dâmaso Nº2)

    E o que dizer de S. Agostinho:

    "O consentimento dos povos e nações que me mantém na Igreja, faz assim a sua autoridade, inaugurada por milagres, nutrida pela esperança, ampliada pelo amor, instituído pela idade. A sucessão de bispos que mantém a partir da sede própria do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor, depois de sua ressurreição, deu-lhe o cargo de apascentar suas ovelhas, até o episcopado presente".(S. Agostinho, Contra A Epístola Fundamental dos Maniqueus, Cap.4 Nº 5)

    "Porque, se a sucessão linear de bispos, deve ser tida em conta, quanto mais com certeza e benefício à Igreja que vamos contar para trás até que nós alcançamos o próprio Pedro, a quem, como tendo valor em toda a Igreja, o Senhor disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela!" (Mateus 16:18 ). O sucessor de Pedro foi Lino, e seus sucessores na continuidade ininterrupta foram estas: - Clemente, Anacleto, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Aniceto, Pio, Sótero, Eleutério, Victor, Zeferino, Calisto, Urbano, Ponciano, Antero, Fabiano, Cornélio, Lúcio, Estêvão, Xistos, Dionísio, Félix, Eutiquiano, Caio, Marcelino, Marcelo, Eusébio, Milcíades, Silvestre, Marcos, Júlio, Libério, Dâmaso e Siricio, cujo sucessor é o atual bispo Anastácio".(S. Agostinho, carta 53 Nº2)

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  2. Claro que Jerónimo reconhecia autoridade ao bispo de Roma, mas não uma autoridade superior à dos outros bispos, que lhe permitisse impor alguma coisa sozinho.

    Os excessos de cortesía e as bajulações de Jerónimo para com o bispo romano Dámaso, que os apologistas católicos tanto gostam de citar, não exige a crença no primado de jurisdição do bispo de Roma sobre a igreja universal.

    Vejamos pois o que diz Jerónimo em outras epístolas onde mostra uma postura diferente:

    "Se se trata de autoridade, o mundo é muito maior do que uma cidade. Para que me invocas a prática de uma só cidade? Para que submetes a ordem da Igreja a um pequeno número, do qual procede a presunção? Onde quer que há um bispo, seja em Roma ou em Gubbio, seja em Constantinopla ou em Reggio, tem a mesma dignidade e sacerdocio. O poder das riquezas e a abjecção da pobreza não fazem o bispo superior ou inferior" (Jerónimo, Cartas, CXLVI, 1, 2)

    Aqui claramente Jerónimo diz que todas as igrejas e bispos são iguais, algo que o papismo rejeita, alegando que por direito divino - algo completamente falso - a igreja romana é superior às outras, e o seu bispo é universal.

    "Se, no entanto, Joviniano obstinadamente contendesse que João não era virgem (enquanto sustentámos que a sua virgindade foi a causa do especial amor que o Senhor lhe tinha), que explique, se não era virgem, por que era mais amado que os outros Apóstolos. Porém, dizes, «a Igreja foi fundada sobre Pedro», ainda que em outro lado o mesmo é atribuído a todos os Apóstolos, e eles recebem todos as chaves do reino do céu, e a força da Igreja depende de todos eles por igual, mas um dentre os doze é escolhido para que estando uma cabeça nomeada, não pudesse haver ocasião para cisma. Mas por que não foi escolhido João, que era virgem? Foi prestada deferência à idade, porque Pedro era o mais velho: alguém que era jovem, quase diria um garoto, não podia ser posto sobre homens de idade avançada; e um bom mestre que estava disposto a tirar toda a ocasião de contenda entre os seus discípulos ... não deve pensar-se que daria motivo de inveja contra o jovem que tinha amado... Pedro é um Apóstolo, e João é um Apóstolo; mas Pedro é somente um Apóstolo, enquanto João é um Apóstolo, e um Evangelista, e um profeta. Um Apóstolo, porque escreveu às Igrejas como mestre; um Evangelista, porque compôs um Evangelho, coisa que nenhum outro dos Apóstolos, excepto Mateus, fez; um profeta, porque viu na ilha de Patmos, onde tinha sido exilado pelo imperador Domiciano como um mártir do Senhor, um Apocalipse contendo os ilimitados mistérios do futuro... O escritor virgem expôs mistérios que não pôde expor o casado, e para resumir brevemente tudo e mostrar quão grande foi o privilégio de João, a Mãe virgem foi confiada pelo Senhor virgem ao discípulo virgem" (Jerónimo, Contra Joviniano, 1)

    Jerónimo neste fragmento exalta João e rejeita que a Igreja esteja edificada sobre Pedro, aludindo que o está sobre todos os apóstolos e que todos eles receberam as chaves do Reino dos Céus.

    (continua)

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  3. Jerónimo: «Mas vós dizeis que a Igreja está fundada sobre Pedro, ainda que o mesmo se diz em outro lugar de todos os apóstolos , e todos recebem o Reino dos céus, e a solidez da Igreja está estabelecida igualmente sobre todos». (Adv. Jovianum, 1:26 (Migne). PL 23:258.) Jerónimo crê, como Cipriano, que Pedro é como o símbolo da unidade episcopal e como este «recusa ao bispo de Roma toda autoridade ou poder superior para manter mediante leis a solidariedade da qual é o centro»; E isso se deve «sem dúvida, porque considera este primado como um primado de honra, e o bispo de Roma, como «primus ínter pares» (primeiro entre iguais, de acordo com o conceito da Igreja Católica antiga), segundo Quasten. (Johannes Quasten, Patrología, 1. BAC, Madrid 1961, p.652)

    Quanto a Santo Agostinho para lá do que já está dito no post, acrescento ainda que é vão e impossível tentar basear o papado na autoridade do bispo de Hipona, pois além das suas várias e contraditórias interpretações de Mateus 16:18, participou num Concílio que excomungou os que tinham apelado para Roma, o que é suficiente para refutar a pretensão de querer basear o papado no testemunho de Santo Agostinho.

    Além disso, a lista de bispos que dá santo Agostinho mostra bem que é uma lenda, pois diz que a ordem foi a seguinte: Pedro, Lino, Clemente, Anacleto, Evaristo; enquanto Roma diz que foram Pedro, Lino, Anacleto, Clemente, Evaristo... Do que se deduz a fragilidade sobre a qual está edificada a igreja romana, isto é, sobre lendas incomprováveis, e sobre uma sucessão apostólica (que mais não é do que uma ficção) da qual a Biblia não diz nada.

    Note-se ainda a respeito desta passagem que, embora Santo Agostinho gostasse muito das "sedes apostólicas", uma vez que podiam remontar aos Apóstolos, ele não diz em nenhum momento que a lendária sucessão de bispos de Roma significa que são novos Pedros.

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  4. Atenção que a citação de Santo Agostinho deixada aqui pelo comentador católico está adulterada.

    A citação dele é «Porque, se a sucessão linear de bispos, deve ser tida em conta, quanto mais com certeza e benefício à Igreja que vamos contar para trás até que nós alcançamos o próprio Pedro, a quem, como tendo valor em toda a Igreja, o Senhor disse: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela!" (Mateus 16:18 ). O sucessor de Pedro foi Lino, e seus sucessores na continuidade ininterrupta foram estas..»,

    A parte «como tendo valor em toda a Igreja» é espúria, não consta no original. O texto autêntico diz «como transportando numa figura toda a Igreja»

    O texto autêntico é «Porque se a sucessão linear de bispos for tomada em conta, com quanto mais certeza e benefício para a Igreja podemos contar para trás até chegarmos ao próprio Pedro, a quem, como transportando numa figura toda a Igreja, o Senhor disse: «Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela»! O sucessor de Pedro foi Lino, e os seus sucessores numa continuidade ininterrupta foram estes...

    Epístola a Generoso, LIII,2 (NPNF2 12:298)

    Qual a razão desta adulteração?

    É que Santo Agostinho aqui diz claramente que o Senhor disse "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" a Pedro COMO UMA FIGURA DA IGREJA, não a ele pessoalmente. Assim pois, este fragmento não legitima o papado, mas, ao contrário, o refuta convenientemente.

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