segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Sobre o sacramento da penitência


1. Análise de alguns cânones pertinentes do concílio de Trento sobre o chamado sacramento da penitência (ou da reconciliação, que é a nova denominação «politicamente correcta»):

Cânon 1. Se alguém disser que a penitência na Igreja Católica não é verdadeira e propriamente sacramento, instituído por Cristo nosso Senhor para reconciliar com o próprio Deus os fiéis, quantas vezes caem em pecado depois do baptismo, seja anátema.


Na fundamentação deste Cânon (Denzinger 894) citam-se vários textos do Antigo e do Novo Testamento que falam do arrependimento, mas nenhum que fale do «sacramento» tal como o ensina e pratica a Igreja de Roma. O principal texto aduzido é João 20:22-23:

«Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos».

Referir-me-ei a este texto mais à frente. Para já basta dizer que não existe a mínima evidência bíblica de que Jesus tenha instituído algo remotamente parecido ao sacramento da penitência tal como o ensina a Igreja católica. De modo que, com anátema ou sem ele, o cânon falta à verdade.

"Na Sagrada Escritura não se expressa directamente a instituição divina da confissão particular dos pecados e a sua necessidade para conseguir a salvação, mas estas verdades se deduzem do facto de Cristo ter instituído o poder para perdoar pecados dando-lhe forma judicial.
...
As passagens de 1 Ioh [João] 1,9; Iac [Tiago] 5,16; Act [Actos] 19,18, que nos falam da confissão de pecados, não deixam ver com clareza se se trata efectivamente de uma confissão sacramental; há razões poderosas que parecem advogar contra".

(Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. Ed. Rev. Barcelona: Herder, 1969, p. 633.

Cânon 2. Se alguém, confundindo os sacramentos, disser que o próprio baptismo é o sacramento da penitência, como se estes dois sacramentos não fossem distintos e que, por isso, não se chama rectamente à penitência «segunda tábua depois do naufrágio», seja anátema."

Não há forma de confundir o baptismo com a penitência. O primeiro é um mandamento ou ordenança - sacramento, se se quiser - directo e claro do Senhor: o segundo não é nada disto.

Por outro lado, o texto que se invoca (João 20:22-23) não estabelece a condição de que tal perdão deve conceder-se ou negar-se depois do baptismo.

 
Cânon 3. Se alguém disser que as palavras do Senhor nosso Salvador: Recebei o Espírito Santo, àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos [Jo. 20, 22 s], não devem entender-se do poder de perdoar e reter os pecados no sacramento da penitência, como a Igreja Católica o entendeu sempre desde o princípio, mas as torcer, contra a instituição deste sacramento, para a autoridade de pregar o Evangelho, seja anátema.

«Sempre desde o princípio» são palavras muito ousadas, que na verdade a Igreja católica se limita a proferir sem poder demonstrá-las.

Esta passagem do Evangelho de João é o equivalente da «Grande Comissão» de Mateus 28:16-20. Os discípulos são enviados pelo Senhor do mesmo modo em que o Pai enviou Jesus Cristo, com uma diferença importante: o Senhor Jesus não somente anunciou as boas novas da salvação, mas a tornou possível através da sua obra expiatória; agora resta aos seus discípulos proclamar este evangelho.

"Enviados como Ele foi enviado, não são enviados para condenar o mundo, mas para que o mundo possa salvar-se através d`Ele; mas na obra deles, como na d`Ele, os homens são condenados porque a luz é vinda ao mundo, e os homens amam as trevas mais do que a luz.

Os princípios últimos sobre os quais descansa este poder são os assinalados acima – ter sido enviados por Cristo, e a recepção do Espírito Santo. Deus prometeu perdão onde quer que haja arrependimento; não prometeu arrependimento onde quer que haja pecado. Resulta de cada declaração de perdão feita no nome do Pai através de Jesus Cristo, que os corações que em arrependimento a aceitam, recebem remissão dos seus pecados, e que a dureza dos corações que voluntariamente a rejeitam é aumentada pela sua rejeição, e as mesmas palavras pelas quais os seus pecados teriam sido perdoados se tornam as palavras pelas quais são retidos".

(H.W. Watkins, The Gospel according to St. John. Em Charles John Ellicott (Ed.), A Bible Commentary for Bible Students. London- Edinburgh: Marshall Brothers, 1890; 6:544).

Para determinar se esta interpretação condenada por Trento é verdadeira ou não, o mais apropriado é ver o que fizeram os discípulos em obediência ao mandato do Senhor. Certamente que nunca os vemos ouvindo confissões em privado, ou seja «administrando a penitência» como o entenderam os bispos de Trento. Também não vemos que tenham ensinado outros a fazer tal coisa.

Em contrapartida, vemos que no Dia de Pentecostes proclamam a Boa Nova da salvação, a qual depois se estende a samaritanos e a gentios. Quando as tarefas de serviço às mesas se tornam excessivamente gravosas, os Apóstolos solicitam aos irmãos que escolham sete varões de boa reputação, cheios do Espírito e sábios, para que se encarreguem do serviço. Deste modo, os Apóstolos ficariam livres ... para ouvir confissões? Não, para entregar-se «à oração e ao ministério da Palavra» (Actos 6:1-7).

Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo declara a missão a que foi chamado:

«Porque Cristo não me enviou a baptizar, mas a pregar o evangelho, não com palavras eloquentes, para que não se faça vã a cruz de Cristo» (1:17).

Admite no entanto que baptizou uns poucos, mas não diz que tenha administrado o «sacramento» da penitência a alguém.

Na segunda Carta aos Coríntios, Paulo dá o que poderia considerar-se a sua própria versão da Grande Comissão:

«De maneira que nós de agora em diante já não conhecemos ninguém segundo a carne; ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora já não o conhecemos assim. De modo que se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas passaram; eis que tudo se fez novo. E tudo isto procede de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação; a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos encarregou da palavra da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus rogasse por meio de nós; em nome de Cristo rogamo-vos: Reconciliai-vos com Deus! Àquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus» (2 Coríntios 5:16-21).

O ministério da reconciliação que menciona aqui Paulo não está dirigido à restauração dos crentes, mas à conversão dos incrédulos.

Também o apóstolo Pedro não parece ter conhecido o «sacramento da penitência». Na sua primeira carta exorta várias vezes a uma vida santa, mas o antídoto contra o pecado não é para ele a confissão auricular, mas o amor:

«Sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados» (1 Pedro 4: 8).

Tiago exorta os crentes a que confessem os seus pecados uns aos outros, como também que orem uns pelos outros (Tiago 5: 16). Esta mútua confissão e oração também não se assemelha à confissão auricular. À primera vista a passagem parece promissora para o dogma católico, porque fala dos anciãos (presbyteroi) da Igreja:

«Está alguém entre vós doente? Chame os anciãos da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.»

No entanto, nada se diz aqui de uma confissão privada e secreta. Pelo contrário, como disse antes Tiago prossegue dizendo que devemos confessar os nossos pecados uns aos outros e orar uns pelos outros.

Finalmente, o apóstolo João diz o seguinte em relação ao pecado nos crentes:

«Se dissermos que não temos pecado, nos enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a iniquidade» (1 João 1: 8-9).

De novo, não há o menor indício de uma confissão privada a um presbítero, e quem pronuncia a absolvição do pecador arrependido é Deus. Não poderia ser de outra forma, pois somente Deus conhece os nossos corações.

De maneira que quem retorce as Escrituras para justificar as suas práticas alheias à Bíblia não é mais ninguém senão a Igreja de Roma.

Cânon 6. Se alguém disser que a confissão sacramental ou não foi instituída ou não é necessária para a salvação por direito divino; ou disser que o modo de confessar-se secretamente com o sacerdote, que a Igreja Católica observou sempre desde o princípio e continua observando, é alheio à instituição e mandato de Cristo, e uma invenção humana, seja anátema.


Com este infortunado cânon a Igreja de Roma ratificou nada mais nada menos que ir contar os pecados ao sacerdote é necessário para a salvação, e isto de direito divino. Sinceramente me parece que beira a blasfémia o invocar autoridade divina para uma prática que a Bíblia nem ensina nem recomenda.

Além disso, novamente afirma o que não pode demonstrar e é altamente improvável, a saber, que a prática da confissão auricular se observou sempre desde o princípio.

2. Análise de ensinamentos do catecismo da Igreja Católica sobre a penitência:


986. "Por vontade de Cristo, a Igreja possui o poder de perdoar os pecados dos baptizados, e exerce-o de modo habitual no sacramento da Penitência através dos bispos e dos presbíteros."

As palavras aduzidas de Cristo não estabelecem que o perdão que Jesus deu poder de pronunciar se limite aos baptizados. Donde terá saído esta estranha doutrina?

1422. "«Aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão dos pecados cometidos contra Ele e, ao mesmo tempo, se reconciliam com a Igreja, à qual ofenderam com os seus pecados. Ela os move à conversão com o seu amor, o seu exemplo e as suas orações»"

Este parágrafo é bastante curioso. Os que acedem ao sacramento da penitência, não são segundo a própria doutrina tridentina já necessariamente membros da Igreja? Se isto é assim, quando um fiel peca, a Igreja peca. Por que se a coloca como se fosse algo diferente dos que a compõem? Donde tiraram que os pecadores que formam parte da Igreja devem reconciliar-se com ela?


1423. "É chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai da qual o pecador se afastou pelo pecado.

É chamado sacramento da Penitência, porque consagra um processo pessoal e eclesial de conversão, de arrependimento e de reparação por parte do cristão pecador."

Aqui haveria várias coisas para comentar, mas simplesmente observarei que a agora chamada «reparação» e antes denominada «satisfação» (é notável como ao impulso dos tempos Roma adapta a sua terminologia para torná-la mais tragável) se efectua principalmente por orações, jejuns e esmolas. 
 

1424. "É chamado sacramento da confissão porque a declaração ou manifestação, a confissão dos pecados perante o sacerdote, é um elemento essencial deste sacramento. Num sentido profundo este sacramento é também uma «confissão», reconhecimento e louvor da santidade de Deus e da sua misericórdia para com o homem pecador."

Aquele «elemento essencial» é o que brilha pela sua ausência nas Escrituras. Como pode ser essencial num acto do qual supostamente depende nada menos que o destino eterno de uma pessoa, uma coisa da qual a Bíblia não diz nada? 
 
"É chamado sacramento do perdão porque, pela absolvição sacramental do sacerdote,
Deus concede ao penitente «o perdão e a paz»."

O interessante é que é o próprio sacerdote que pronuncia a sentença de absolvição. Não se diz «Deus te perdoa», mas «Eu te absolvo». Ora, isto não o faz segundo a própria doutrina católica em virtude de uma revelação especial, mas a partir do que o próprio pecador expressou. Como assinala um autor:

"os sacerdotes não podem saber com certeza se o arrependimento do pecador é genuíno ou não ... Nada significa o Ego te absolvo se o penitente não tem a certeza absoluta que a sua compunção é verdadeira e que é real o seu propósito de afastar-se de uma vida pecaminosa. Se pode estar convencido disso como católico, também o pode estar sendo protestante. Mas o protestante leva vantagem, porque ele busca e obtém o testemunho directo do Espírito [Santo] com o seu espírito, a não ser que Deus não possa comunicar-se pessoalmente com um protestante arrependido dos seus pecados, amante de Deus e do seu próximo e rendido completamente ao seu Criador."

J.A. Phillips, Análisis del Romanismo, 2ª Ed. Trad. E.B. Vargas. El Paso: Casa Bautista, 1956, p. 121.


"É chamado sacramento da Reconciliação porque dá ao pecador o amor de Deus que reconcilia: «Deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5, 20). Aquele que vive do amor misericordioso de Deus está pronto para responder ao apelo do Senhor: «Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão» (Mt 5, 24)."

A primeira citação está arrancada do seu contexto, uma vez que não se refere ao falso sacramento da penitência mas à pregação apostólica do Evangelho. Depois se acusa os protestantes de tirar textos do seu contexto....

A segunda citação, por outro lado, é irrelevante para o que se quer defender, uma vez que se trata de uma acção privada de um crente para com outro, e suponho que não se pretenderá que este último possa pronunciar a absolvição. 
 

1428. "Ora, o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos. Esta segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que «recebe no seu próprio seio os pecadores» e que sendo «santa ao mesmo tempo que necessitada de purificação constante, busca sem cessar a penitência e a renovação». Este esforço de conversão não é somente uma obra humana. É o movimento do «coração contrito» [Sal 51,19.], atraído e movido pela graça para responder ao amor misericordioso de Deus que nos amou primeiro."

Perfeito, se bem que não se entende o que têm que ver estes princípios com a confissão sacramental.

Seguem-se os parágrafos 1430, 1431, 1432, 1433, onde se ensina sobre a penitência interior do crente, mas de novo fica exposto o problema de que nenhum homem pode ver os corações alheios (às vezes não vê bem nem o seu próprio), o que torna ociosas as absolvições que possa pronunciar por mais sacerdote que seja. Se há verdadeiro arrependimento são desnecessárias, e se não o há só servem para criar uma perigosa ilusão.

 

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