sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Resposta às afirmações de um católico sobre o cânon bíblico


[Católico] Os protestantes só aceitam os livros do cânon feito pelos judeus que viviam na Palestina, os quais aceitaram como inspirados unicamente os livros escritos em hebraico e na Palestina rejeitando aqueles que estavam escritos em grego (Século 2 dc).

Não é claro o que quer dizer com a referência ao século II d.C. Se se refere às tradições reflectidas no Talmude, elas não fazem mais do que ratificar o que já estava aceite desde muito antes. Isto é evidenciado pelo testemunho de Jesus ben Sirá, Josefo, de Filão, de 4 Esdras e pelo uso que o Senhor e os Apóstolos fizeram das Escrituras do cânon hebreu. O Senhor e os seus discípulos diferiam dos judeus na interpretação das Escrituras, mas não há a mínima evidência de que tivessem discordâncias em relação à extensão do cânon. Quando Jesus disse aos judeus, "Esquadrinhai as Escrituras" não foi necessário que lhes desse uma lista. Quando o Senhor falou do sangue de Abel até o de Zacarias filho de Berequias, estava a mencionar o primeiro e o último mártir escritural segundo o cânon hebreu (palestino), que começava em Génesis e terminava em Crónicas (pois este vinha depois de Esdras-Neemias).

Os protestantes, pois, não fazem mais do que aceitar o mesmo cânon que foi normativo para Jesus e os seus discípulos.

A incorporação dos apócrifos/deuterocanónicos na vida da Igreja se deveu não ao uso do Senhor e dos Apóstolos, mas aos cristãos de fala grega que usaram a versão grega Septuaginta, que incluía estes livros.

[Católico] Critério um pouco contrastante pois todos os livros que tem na sua bíblia protestante do novo testamento são traduções do grego. Como notará, além disso, quando os judeus fizeram isto já não tinham nenhuma autoridade pois Deus havia concedido toda a autoridade a Cristo e à sua Igreja (Mt 28:19).

A primeira afirmação supõe que a única razão pela qual estes livros foram rejeitados era porque estavam escritos em grego. A principal razão, no entanto, é que jamais foram reconhecidos como inspirados.

A segunda frase já foi respondida antes.

[Católico] A relação de livros que utiliza a Igreja Católica foi dada pelos judeus da diáspora (dispersão) que aceitaram tanto os escritos em grego como em hebraico.

Quer dizer que os judeus palestinos foram privados de toda a autoridade e os da diáspora não????

Parece-me um argumento insustentável.

[Católico] Além disso, esta era a relação utilizada pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos; como poderá observar em vários versículos do NT (Sir 28:13-26 cf. Tg 3:1-12; Sir 19:20-30 cf. Tg. 3:13-18; Sir 4:26 cf. Tg 5:15; etc.)

É um facto comprovado e aceite pelos eruditos católicos que não existe nenhuma citação directa de algum livro deuterocanónico/apócrifo do AT no Novo Testamento. Existem sim semelhanças e alusões, mas estas podem-se explicar facilmente pelo facto de que tanto os escritos do Novo Testamento como os apócrifos/deuterocanónicos do AT tinham uma base comum que eram as Escrituras do cânon hebreu. Assim, por exemplo, os paralelos que menciona, que não são citações textuais, se explicam porque Tiago é uma carta cuja ênfase está na sabedoria, ou seja, na aplicação prática e quotidiana do conhecimento de Deus, à semelhança de Jesus ben Sirá (Sirácide ou Eclesiástico). Ambos dependem em boa medida da literatura sapiencial canónica, em particular Provérbios. Este é um tema bem conhecido da historiografia: dois textos têm semelhança entre si sem que um dependa do outro, porque ambos têm um fundo comum. De modo que em ausência de citações directas que demonstrem dependência literária, este argumento carece por completo de validade.

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