terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Arrependimento de Deus


Diversas Escrituras fazem referência ao arrependimento de Deus, enquanto outras afirmam muito claramente que Deus não se arrepende. De modo que há aqui duas possibilidades.

A primeira a considerar é que se trata de simples contradições dos autores bíblicos. A mais extrema poderia encontrar-se em 1 Samuel 15, onde nos versículos 10-11 e 35 lemos:

"Então veio a palavra do Senhor a Samuel, dizendo: Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porque deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras"; "E Samuel chorava por Saul, porque o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel".

No entanto, no mesmo capítulo (v. 28-29) Samuel diz:

"O Senhor rasgou de ti hoje o reino de Israel, e o deu a um teu próximo, que é melhor do que tu. E aquele que é a Força de Israel não mentirá nem se arrependerá, porque não é homem para que se arrependa".

A segunda possibilidade é que os versículos que falam do arrependimento de Deus e os que afirmam que Deus não se arrependerá se referem a coisas diferentes. Em tal caso não há necessariamente contradição.

As palavras

A palavra hebraica que se usa com referência ao arrependimento de Deus é nacham, que pode traduzir-se por arrepender-se, lamentar, entristecer-se; segundo o contexto e o modo verbal pode alternativamente significar "confortar" e "ser consolado" ou alentado, como em Salmo 23:4 ou em Isaías 40:1, nachamu nachamu 'ammi, «Consolai, consolai o meu povo» (diz Deus).

Provém provavelmente de uma raiz que significava "respirar profundamente" e faz parte de nomes bíblicos como Nahum (Consolo) e Nehemias (Yahveh [Deus] consola). Entre as palavras derivadas de nacham estão nocham (compaixão; Oseias 13:14), nichum (consolo, Isaías 57:18, compaixão, Oseias 11:8), nechama (consolo, Salmo 119:50; Job 6:10) e tanchum (consolo, Jeremias 16:7; consolação, Isaías 66:11, etc).

Em que difere do arrependimento do homem?

Ora, quando se refere ao arrependimento de Deus há que distinguir entre a resposta de Deus perante as obras do homem, e o propósito eterno de Deus. Em geral, os textos que dizem que Deus se arrepende apresentam a reacção divina à conduta humana, ao passo que os que afirmam o contrário aludem à vontade soberana de Deus, inquebrantável, irresistível e imutável.

A Bíblia proclama que Deus é eterno (João 17:5, 2 Timóteo 1:9), que o seu conselho é imutável (Hebreus 6:17), e que Ele não muda (Malaquias 3:6, Tiago 1:17). Além disso, ensina que Deus conhece todas as coisas: 1 Samuel 2:3; Job 12:13; Salmo 94:9, 147:5; Isaías 29:15, 40:27-28.

Quando um ser humano se arrepende de algo, deve-se a que se deu conta de algo que ignorava. Contudo, Deus conhece todas as coisas e, por conseguinte, não pode arrepender-se no mesmo sentido que um ser humano. As referências ao arrependimento de Deus devem pois entender-se, tal como se apresentam nas Escrituras, como uma mudança no proceder divino produzida pelas acções ou intenções humanas. Assim lemos em Jonas 3:10 que quando a cidade condenada de Nínive creu em Deus e deu mostras de conversão, "Deus viu o que fizeram, que se converteram do seu mau caminho, e se arrependeu do mal que tinha anunciado fazer-lhes, e não o fez".

A modificação nos tratos de Deus com os homens, gerada pelas mudanças de atitude destes (para pior ou para melhor) é descrita com um antropomorfismo, figura bíblica na qual se representa Deus mediante linguagem que se aplica com propriedade somente aos seres humanos.

Assim, por exemplo, os habitantes pré-diluvianos desviaram-se de Deus pecando até mais não, e Deus decidiu castigá-los (Génesis 6:6-7). Tal decisão, conforme a santidade e justiça divinas, foi consistente com o seu plano eterno, mas é-nos apresentada, vista desde a perspectiva humana, como um arrependimento. Todavia o texto bíblico reafirma o propósito eterno ao acrescentar de imediato: "Mas Noé achou graça aos olhos do Senhor" (versículo 8).

Deus verdadeiramente se desgosta pelo pecado humano. Há outro aspecto interessante, que tem a ver com o papel de Noé. John H. Sailhamer (Expositor´s Bible Commentary, 2:80-81) o explica assim:

No v. 6 - «Yahveh se arrependeu (wayyinnachem), de ter feito o homem sobre a terra, e o seu coração se encheu de dor (wayyit'asseb)» - o autor descreve a resposta do Senhor à impiedade humana fazendo um curioso jogo de palavras com a nomeação de Noé por Lameque: «Ele nos consolará (yenachamenu) do … trabalho das nossas mãos» (ûmeissebon, 5:29). Assim, em ambas as passagens Noé é apresentado com jogos de palavras que associam o seu nome, "Noé" (noach) com o "consolo" (nicham) do desgosto e da dor (atsab) causada pela rebelião do homem (cf. Cassuto). Ao fazer de Deus o sujeito dos verbos no v.6, o autor mostrou que o desgosto e a dor pelo pecado do homem não era algo que somente sentia o homem. O próprio Deus estava desgostado pelo pecado humano (v.7). Ao voltar deste modo ao papel de "consolador" implicado no significado do nome de Noé, o autor sugere que Noé não somente trouxe consolo à humanidade em sua dor, mas também trouxe consolo a Deus".

Igualmente, em Êxodo 32, Deus anuncia o seu propósito de destruir o povo pela sua idolatria, mas Moisés intercede em favor dos seus. Como consequência, diz o relato: "Então, o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo" (32:14).

Novamente, em 1 Samuel 15, Deus arrepende-se devido à má conduta de Saul. Por isso a sua decisão de tirar-lhe o reino é irrevogável, já que novamente obedece ao plano eterno de Deus.

Conclusão

Concluo com uma citação que resume adequadamente o assunto (Theological Wordbook of the Old Testament, ed. by R.L Harris et al; Chicago, Moody Press, 1980, 2:571):

À diferença do homem, que sob a convicção do pecado sente remorso e desgosto genuínos, Deus está livre de pecado. Todavia, as Escrituras dizem que Deus se arrepende (Génesis 6:6-7; Êxodo 32:14; Juízes 2:18; 1 Samuel 15:11, etc), isto é, que se aplaca ou modifica os seus tratos com o homem segundo os seus propósitos soberanos. Superficialmente, tal linguagem parece inconsistente, para não dizer contraditória, com certas passagens que afirmam a imutabilidade de Deus: "Deus não é homem … para que se arrependa" (1 Samuel 15:29 contra v.11), "O Senhor jurou e não se arrependerá" (Salmo 110:4). Quando nacham se usa acerca de Deus, no entanto, a expressão é antropomórfica e não há uma tensão insuperável. Desde a perspectiva limitada, terrenal, finita do homem apenas parece que os propósitos de Deus mudaram. Assim, o Antigo Testamento afirma que Deus se 'arrependeu' dos juízos ou do 'mal' que tinha planeado realizar (1 Crónicas 21:15; Jeremias 18:8, 26:3; Amós 7:3,6; Jonas 3:10). Certamente Jeremias 18:7-10 é uma contundente lembrança de que, desde a perspectiva de Deus, a maior parte da profecia (excluindo as predições messiânicas) é condicional à resposta do homem".

Em vez de um deus imutável, cego e surdo ao clamor do homem, o Deus da Bíblia vê, ouve e actua em consequência. É uma fonte de enorme alento e consolação saber que o nosso misericordioso Deus e Pai está atento aos nossos actos e às nossas orações, e está sempre pronto a responder a elas.

12 comentários:

  1. Totalmente esclarecedor! Obrigado pela postagem.

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  2. Quero fazer uma crítica deste trecho: "Em vez de um deus imutável, cego e surdo ao clamor do homem, o Deus da Bíblia vê, ouve e actua em consequência".

    Se isso fosse verdade, nós teríamos poder de influir no próprio ser de Deus, fazendo-O passar de um estado a outro! Acho que devemos manter o antigo ensino de que Deus é, não apenas imutável, como também impassível. A CFW, por exemplo, diz: "Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões; é imutável, imenso, eterno, incompreensível" (II, 1).

    O "alegrar-se" e o "entristecer-se" do Espírito de Deus, a meu ver, referem-se ao efeito Dele nas criaturas. E não a uma mudança de estado no próprio Deus. Do contrário, neste exato momento, Deus estaria simultaneamente triste por milhões de pessoas e feliz por tantas outras!

    Com certeza temos um Deus que vê e ouve, mas Ele já tinha conhecimento de tudo desde toda eternidade. Se afirmássemos que Ele vê, ouve, e muda de estado "emocional" no momento em que vê e ouve, estaríamos negando sua onisciência. Essas expressões antropomórficas são usadas na Bíblia como meio de trazer Deus às pessoas mais simples, acredito.

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    1. O texto desde o início que faz uma distinção entre a perspetiva de Deus e a perspetiva humana.

      A sua crítica tinha razão de ser se o trecho em questão se referisse ao ser de Deus ou ao estado de Deus. Mas este não é o caso.

      A frase refere-se à perspetiva do homem que perante mudanças na atitude de Deus parece que Deus não é imutável, cego e surdo ao clamor do homem, mas da perspetiva Divina nada foge à vontade soberana de Deus e ao seu propósito eterno, inclusive as ações humanas que aparentemente levam Deus a agir de outra maneira.

      Daí que a CFW tenha toda a razão no que diz sobre o ser de Deus.

      Repare que se Deus tiver sentimentos, e tem, o alegrar-se e entristecer-se não muda nada no seu estado "ontológico", precisamente porque os sentimentos fazem parte do seu ser.

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    2. "Se afirmássemos que Ele vê, ouve, e muda de estado "emocional" no momento em que vê e ouve, estaríamos negando sua onisciência."

      Uma coisa não se segue da outra.

      O fato de Deus saber todas as coisas desde toda a eternidade não é razão para não ficar triste ou feliz quando elas acontecem.

      Do mesmo modo que você sabe que determinada coisa triste irremediavelmente vai acontecer no futuro (a morte de um familiar ou de um animal de estimação ou seu team vai perder o campeonato etc) mas só fica triste no momento em que isso acontece e não por antecipação.

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  3. Em resumo, não se deve confundir imutabilidade com imobilidade.

    Deus é imutável e impassível em relação ao seu Ser, aos seus atributos, aos seus propósitos e vontade.

    Mas não é absolutamente imutável e impassível em relação às suas ações. Caso contrário nem sequer podíamos ser salvos pois Deus nunca usaria de misericórdia conosco nem nos perdoaria os nossos pecados, pois seria impossível que o nosso arrependimento e clamor de perdão a Deus mudasse alguma coisa, e a condenação e ira de Deus que estava sobre nós seria um fato imutável e não podia mudar de jeito nenhum.

    É claro que quando Deus muda a suas ações para com o homem não é apanhado de surpresa (Deus é omnisciente), nem reconhece que estava errado antes e agora deve agir de modo diferente, ainda que ao homem possa parecer isso [Cfr. "E Samuel chorava por Saul, porque o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel" 1 Samuel 15:35], pois tudo obedece ao beneplácito da sua vontade e aos seus propósitos eternos.

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  4. Concordo que Deus muda suas ações com relação ao mundo. Mas entendo que essas mudanças sempre ocorrem no mundo, isto é, são efeitos da ação de Deus na história. Não são mudanças dentro do próprio Deus.

    Então, por exemplo, quando estou triste, irado ou feliz, significa que passei por diversos estados emocionais. A mudança ocorreu em mim. Mas isso porque sou uma criatura imperfeita. Em Deus, Sua ira é efeito de Seu ser na criação, e não uma mudança em Deus mesmo. Sua alegria, igualmente.

    Deus está acima do tempo, então Ele não passa por uma sucessão de estados cronologicamente ordenados: primeiro está triste, então feliz, então irado, então... Mas nós passamos por esses estados: ora sob a ira divina, ora sob a alegria divina, por assim dizer.

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    1. Voltamos à mesma questão de se Deus é absolutamente imóvel ou não. Todo o seu raciocínio parte do pressuposto que sim, eu não creio que isso seja compatível com os dados bíblicos, Um Deus assim parece-me mais com um Demiurgo, com o deus imóvel de Platão.

      Outro pressuposto é que a passagem por diversos estados emocionais é própria de seres imperfeitos. Não vejo por que razão a passagem por diversos estados emocionais há de ser, por si só, sinal de imperfeição. Como Deus não é absolutamente imóvel pode passar por mudanças de estados emocionais e continuar perfeito. Não vejo nenhum problema com isso.

      Outro pressuposto é que os sentimentos ou emoções de Deus são interpretações subjetivas do ser humano da Sua ação na criação.

      Creio que a Bíblia revela um Deus com sentimentos e emoções reais, que a sua ira e a sua alegria, etc, são reais e são a causa de Seu ser na criação e não uma categorização "antropomórfica" do efeito de Seu ser na criação. O contrário despersonaliza Deus e o transforma num ser frio que age sem nada sentir.

      Outro pressuposto é que Deus está acima do tempo e não passa por uma sucessão de estados cronologicamente ordenados: Pergunto como é que se pode saber isto?

      Certamente que o tempo de Deus não é o tempo físico deste universo que começou a existir na criação. Mas tem de haver o tempo de Deus no qual se deu a criação do universo, porque se o universo começou a existir a partir de determinado tempo necessariamente houve um tempo em que não existia.

      Além de que se Deus está acima de qualquer tempo também não há presciência divina.

      É tudo uma questão de pressupostos....

      Mas parece-me que estes pressupostos levantam mais problemas do que os que resolvem.

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    2. E quando o Verbo de Deus encarnou, não houve mudança em Deus? É claro que houve, o Verbo de Deus que é Deus adquiriu a natureza humana, mas o Ser divino e os seus atributos permaneceram inalterados.

      Por aqui se vê que Deus não pode ser absolutamente imóvel.

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  5. Essa nossa conversa me deixou interessado em estudar mais o assunto dos atributos de Deus. Prefiro não continuá-la agora, até para poder ter uma fundamentação melhor.

    Mas só para esclarecer, um comentário final: concordo que as "emoções" de Deus não são meras "interpretações subjetivas" dos seres humanos. São reais. O que quis dizer é que são efeitos da ação de Deus na história (como algo que Ele projeta sobre a criação), e não mudanças no próprio Deus. Para você afirmar o contrário, tem que colocar Deus sujeito ao tempo, isto é, a uma sucessão cronológica de estados. Mas acredito que é necessário que Deus esteja acima do tempo. Se Deus não estivesse acima do tempo, seria limitado por ele! O próprio tempo é uma criação. Não existe um "antes" da criação do universo, pois o tempo surge com o universo. O tempo é uma medida do universo. Mas, de qualquer maneira, essa é uma questão mais filosófica do que teológica.

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  6. Se bem percebo então Deus numa única ação e momento eterno realiza todas as ações e experimenta todos os sentimentos e emoções mesmo que sejam contrários. E estas ações e emoções projetam-se no tempo da criação em sucessão cronológica. Mas Deus na sua realidade está imóvel e estaticamente irado e alegre etc, no seu momento eterno. Da mesma forma Deus ouve e responde a orações num mesmo instante eterno. Devo ter um bug no meu cérebro mas não consigo conceber uma realidade mesmo que seja divina sem qualquer tempo. Parece-me um grande absurdo.

    Prefiro pensar que Deus existe desde sempre e existirá para sempre em cada momento no tempo.

    Para haver criação precisa existir um tempo no qual Deus cria. Caso contrário não há criação pois nada passou de um tempo em que não existia para um tempo em que existe. Não digo que o mesmo tempo no qual Deus cria seja o mesmo tempo deste universo que foi criado. Mas outra dimensão temporal.

    E não é de admirar que Deus esteja limitado. Desde logo estará limitado a não ser limitado pelo tempo? Sendo Deus real e não um mundo imaginário está limitado pela própria realidade. Assim Deus também está limitado pela lógica pois não pode fazer coisas logicamente impossíveis, porque coisas logicamente impossiveis só existem num mundo imaginário e não na realidade. Por exemplo Deus não pode fazer triângulos quadrados, nem quadrados redondos.

    Mas sobre estes temas já se escreveram toneladas de livros ao longo dos séculos e parece que ainda nenhum agradou a toda a gente. :)

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  7. http://mychristianapologetics.com/2010/11/14/is-god-really-timeless-considering-the-relationship-between-god-and-time-doctrinal-dilemmas.aspx

    http://www.theologyweb.com/campus/showthread.php?9587-God-s-eternity-timeless-or-temporal

    http://www.debate.org/debates/God-is-temporal-that-is-to-say-God-exists-in-time-Part-2/1/

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  8. Resumindo... Deus é imutável quanto a sua essência e atributos, mas isso não significa que ele não possa agir ou reagir de diferentes modos ao decorrer da história.

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