sexta-feira, 7 de maio de 2010

A eleição dos bispos romanos


Se um cidadão romano dos primeiros séculos da era cristã, ressuscitado, assistisse no Vaticano, em Junho de 1963, à eleição e coroação de Paulo VI — ou à de qualquer outro Pontífice moderno —, não entenderia nada do que tais cerimónias e práticas da Roma papal significam.

Certa apologética católica serve-se, com não pouco êxito, do que poderíamos chamar uma grande «ilusão de perspectiva histórica», consistente em fazer crer que a Igreja romana foi, e continua sempre a mesma desde o primeiro século até aos nossos dias. Como se tudo o que crê e pratica, salvo certas ninharias de detalhe e forma, remontasse basicamente até ao próprio São Pedro. Deste modo, o Catolicismo romano pretende dar a impressão de que o bispo de Roma foi sempre não só bispo de uma «diocese» (como qualquer outro bispo católico), mas Cabeça visível da Igreja universal e Pontífice, «bispo dos bispos de todo o orbe», na sua qualidade de suposto Vigário de Cristo. Assim, se tenta fazer crer que as tradições romanas remontam à antiguidade apostólica e são, portanto, garantia de verdade e de autêntica Igreja.

Mas esta ilusão, esta errónea perspectiva histórica do que foi a vida da Igreja em geral, e da igreja de Roma em particular, não resiste à mais leve investigação científica. O historiador sabe que Roma, longe de ser sempre a mesma, mudou constantemente e que as doutrinas e práticas papais (bastante tardias, por sinal) foram algo completamente ignorado durante muitos séculos do cristianismo antigo. A nomeação de cada novo papa converte o tema em algo actual. E constantemente, por infelicidade, tem que se comprovar a mesma ignorância da história em multidões de pessoas, e publicações, que apresentam o recém-estreado Pontífice como o sucessor de uma cadeia sem elos quebrados, que remonta até ao primeiro século.

No entanto, um estudo imparcial dos dados históricos ao nosso alcance, produz — ainda que seja brevemente e quase em esboço — o seguinte quadro geral de factos irrefutáveis:

1) Na eleição dos antigos bispos romanos não intervinham cardeais. E isso, pela simples razão, de que a dignidade cardinalícia não existia ainda sequer. O ofício de «cardeal» só foi introduzido na Igreja romana cerca de mil anos depois da fundação da Igreja cristã (1). Claro, também não há nenhuma base bíblica para o ministério cardinalício. O Novo Testamento ignora completamente — e com ele os primeiros séculos da Igreja —, o cargo de cardeal.

2) Na eleição dos antigos bispos romanos também não intervinha nenhuma representação da Igreja universal. Os eleitores nunca pretenderam tal representação, à diferença dos padres componentes dos grandes concílios ecuménicos dos primeiros mil anos (cujos concílios, por outro lado foram totalmente independentes em relação à sede romana, a qual não era mais que uma importante sede, entre outras, da Cristandade). A eleição de bispo em Roma tinha que ver com tal cidade e não com a totalidade da Igreja universal. Pela razão simples de que o prelado titular de tal sede era o bispo de Roma. Nada mais. Séculos mais tarde passaria a ser «o primeiro (porém) entre iguais».

3) Os bispos romanos eram eleitos exactamente da mesma forma que os demais bispos da antiga Igreja, ou seja: com participação do povo fiel da cidade (laicos) e o «clero» da mesma.

Destes três pontos se depreende que os bispos da Igreja romana, nos primeiros séculos, não eram mais do que os outros bispos das restantes cidades da Cristandade. A hegemonia papal, pela qual o bispo de Roma se colocou acima dos demais prelados, é fruto de uma evolução histórica produzida por uma longa e complicada combinação de interesses eclesiásticos, sociais e políticos, mas sem base bíblica. O grande historiador J. I. Dollinger escreveu:

«Temos escritos e afirmações referentes à hierarquia eclesiástica na Igreja e em nenhum destes escritos daqueles primeiros séculos aparece a dignidade papal, nem se menciona nada parecido que pudesse existir na Igreja. Nos escritos do Pseudo-Dionísio Areopagita, compostos em finais do século V, e relacionados com a hierarquia, menciona-se somente bispos, presbíteros e diáconos. Igualmente, Isidoro de Sevilha, o famoso teólogo espanhol, no ano 631 menciona todos os graus eclesiásticos existentes naquele tempo e os divide em quatro grupos: patriarcas, arcebispos, metropolitanos e bispos. Graciano, canonista italiano do século XII, incorporou esta lista na sua célebre obra titulada «Decretos», ou seja, 500 anos mais tarde que Isidoro de Sevilha, e deve lhe ter chamado poderosamente à atenção que o ofício de Papa não estivesse incluído. Ainda Beato, abade espanhol, proporciona a mesma lista de Isidoro de Sevilha no ano 789. Beato também não sabe nada de uma dignidade mais elevada na Igreja que a de patriarca» (2).

A pergunta surge espontânea: Onde estava o papa na Igreja antiga? A esta pergunta, a história responde nos seguintes termos: Ao princípio, chamava-se papa (ou seja: pai) a todos os bispos por igual. E depois, até aos próprios presbíteros de aldeia. A partir do século VI foi quando começou a usar-se, de maneira restrita, para designar particularmente o bispo de Roma. E, finalmente, Gregório VII, em 1076, o exigiu exclusivamente para ele e seus sucessores, acrescentando-lhe o prefixo de «Santo».

A palavra «papa» é de origem grega, não latina. E foi em Alexandria, não em Roma, onde primeiramente se chamou «pope» (ou seja: papa) ao bispo. No Oriente, tal nome serve hoje para designar todos os sacerdotes («popes») (3).

José Grau

Notas

(1) Ignaz von Dollinger, The Pope and the council, III, V. pp. 206 e ss.

(2)  Ibid. No Novo   Testamento,  quando    o   apóstolo   Paulo    enumera    os   ministérios da Igreja cristã, também não faz menção do Papado (1  Coríntios 12:28; Efésios 4:11), Esquecimento imperdoável se o papa é realmente a pedra angular do edifício eclesiástico.

(3) Stanley, "History of the Eastern Church", lec. 7. p.216 e ss.; Farrar "Lives" Vol. I p. 370.Cf. nota num. 50. p. 294, ad supra.

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