terça-feira, 30 de março de 2010

Autoridade suprema das Escrituras nos Padres primitivos


OS PADRES PRIMITIVOS E AS ESCRITURAS

Justino Mártir (m. ca. 165)

Diálogo com Trifão 85:5

É uma coisa ridícula ... que quem funda o seu discurso nas Escrituras proféticas deva abandoná-las e abster-se de referir constantemente as mesmas Escrituras, por pensar que ele próprio pode prover algo melhor do que a Escritura.


Diálogo com Trifão 86:2-3

Ele disse que via uma escada, e a Escritura declara que Deus se erguia sobre ela. Mas que este não era o Pai, o demonstrámos pelas Escrituras... E que a rocha simbolicamente proclamava Cristo, o demonstrámos também por muitas Escrituras...


Ireneu (m. ca 203)

Adversus Haereses II, 28:7

Mas não erraremos se afirmarmos a mesma coisa também a respeito da substância da matéria, que Deus a produziu. Pois aprendemos das Escrituras que Deus tem a supremacia sobre todas as coisas. Mas de onde ou de que forma Ele a produziu, a Escritura não o declarou em lado nenhum; e não nos compete conjecturar, de modo que, segundo as nossas próprias opiniões, formemos conjecturas intermináveis acerca de Deus, mas deixemos tal conhecimento nas mãos do próprio Deus.


Que o fogo eterno está preparado para os pecadores, o declarou claramente o Senhor, e o demonstram o resto das Escrituras. E que Deus conheceu de antemão que isto haveria de ocorrer, as Escrituras também o demonstram, já que Ele preparou o fogo eterno desde o princípio para aqueles que haveriam de transgredir; mas a própria causa da natureza de tais transgressores não nos é dada a conhecer por nenhuma Escritura, nem nenhum Apóstolo no-la disse, nem o Senhor no-la ensinou. Compete-nos, por conseguinte, deixar o conhecimento deste assunto a Deus.

Adv Haer II, 35, 4

Mas para que não se pense que evito aquela série de provas que podem derivar-se das Escrituras do Senhor (já que, de facto, estas Escrituras proclamam este mesmo ponto muito mais evidente e claramente), em benefício pelo menos daqueles que não carregam com uma mente depravada, dedicarei um livro especial às Escrituras referidas, que as seguirá adequadamente, e fornecerei com a clareza destas divinas Escrituras provas para todos os amantes da verdade.


Adv Haer III, 1:1

Não aprendemos de nenhuns outros o plano da nossa salvação, senão daqueles por quem o evangelho nos chegou, o qual eles num tempo proclamaram em público e, num período posterior, pela vontade de Deus, o transmitiram a nós nas Escrituras, para ser o fundamento e a coluna da nossa fé.

Adv Haer III, 12,12

A ignorância das Escrituras e da dispensação de Deus trouxe todas estas coisas sobre eles.

Adv Haer III, 19, 2

Pois tenho mostrado pelas Escrituras que nenhum dos filhos de Adão é jamais e absolutamente chamado Deus, ou nomeado Senhor. Mas que Ele é por direito próprio, acima de todos os homens que já viveram, Deus, e Senhor, e Rei eterno, e o Verbo encarnado, proclamado por todos os profetas, pelos apóstolos, e pelo próprio Espírito, pode ser visto por todos quantos alcançaram pelo menos uma pequena parte da verdade. Ora, as Escrituras não teriam testificado estas coisas d`Ele se, como outros, tivesse sido um mero homem. Mas Ele tinha, para lá de todos os outros, em Si mesmo aquele nascimento preeminente que é do Altíssimo Pai, e também experimentou a geração preeminente que é da Virgem, de ambas as coisas as Escrituras divinas testificam.


Adv Haer IV, 26, 1

Se qualquer um, portanto, ler as Escrituras com atenção, encontrará nelas um relato de Cristo, e um preanuncio da nova vocação. Pois Cristo é o tesouro oculto no campo, isto é, neste mundo (pois "o campo é o mundo"); mas o tesouro oculto nas Escrituras é Cristo, já que Ele foi indicado por meio de tipos e parábolas.

Adv Haer V, 20,2

Convém-nos, portanto, evitar as suas doutrinas, e prestar cuidadosa atenção, não seja que soframos algum dano por elas; e fugir para a Igreja, e ser criados em seu seio, e ser nutridos com as Escrituras do Senhor.


Clemente de Alexandria (ca. 150-215)

Stromata, 7:16

Mas aqueles que estão preparados para trabalhar nas mais excelentes actividades, não desistirão da busca da verdade, até chegarem à demonstração a partir das próprias Escrituras.

Hipólito de Roma (ca. 170-235)

Contra Noécio, 14

Pois o Pai dispôs, o Filho fez, o Espírito manifestou. As Escrituras todas, então, proclamam esta verdade.

Fragmentos de Hipólito (em Eusébio, Hist Eccl V, 28, 4-6, 13-5, 18)


O dito poderia ser convincente se em primeiro lugar as divinas Escrituras não o contradissessem. E também há obras de alguns irmãos anteriores aos tempos de Vítor, obras que eles escreveram contra os pagãos e contra as heresias de então em defesa da verdade. Refiro-me às de Justino, Milcíades, Taciano, Clemente e muitos outros, todas obras em que atribuem a divindade a Cristo. Porque quem desconhece os livros de Ireneu, de Melitão e os restantes, livros que proclamam Cristo Deus e homem? E os muitos salmos e cânticos escritos desde o princípio pelos irmãos crentes que cantam hinos ao Verbo de Deus, ao Cristo, atribuindo-lhe a divindade? Como, pois, estando declarado o pensamento da Igreja desde há tantos anos pode-se admitir que os anteriores a Vítor o tenham proclamado no sentido que dizem estes?...

Adulteraram sem escrúpulo as divinas Escrituras e violaram a regra da fé primitiva; e desconheceram Cristo por não investigar o que dizem as divinas Escrituras... Deixaram as santas Escrituras de Deus e se ocupam de geometria ...
Mas os que se aproveitaram das artes dos infiéis para o desígnio da sua própria heresia e com a manha dos ímpios falsificaram a fé simples das divinas Escrituras, que necessidade há de dizer que
já não estão perto da fé? Por esta causa puseram as suas mãos sem escrúpulo sobre as divinas Escrituras, dizendo que as tinham corrigido.


Do atrevimento deste pecado, não é provável que eles o ignorem, porque, ou não crêem que as divinas Escrituras foram ditadas pelo Espírito Santo, e neste caso são incrédulos, ou então acham que são mais sábios do que o Espírito Santo...

Novaciano (Século III)

Tratado sobre a Trindade, 12

Por que, então, haveremos de hesitar em dizer o que a Escritura não se acobarda em declarar? Por que iria a verdade da fé hesitar naquilo em que a autoridade da Escritura nunca hesitou?


Ibid., 18
E os hereges devem entender que se estão colocando a si mesmos contra as Escrituras em que, enquanto dizem crer que Cristo foi também um anjo, não estão dispostos a declarar ter sido também Deus, quando lêem no Antigo Testamento que Ele frequentemente veio visitar a raça humana.

Pois se o próprio João diz, que Aquele que está no seio do Pai, como o Verbo, se fez carne para declarar o seio do Pai, certamente Cristo não é só um homem, mas também um anjo; e não só um anjo, mas as Escrituras demonstram que também é Deus.


Tertuliano (155-222)

Contra Práxeas, 11

Será, porém, vossa obrigação aduzir as vossas provas a partir das Escrituras tão claramente como nós o fazemos quando provamos que Ele fez do seu Verbo um Filho para Si.

Orígenes (185-254)

2, Sobre a unidade e harmonia das Escrituras

"Bem-aventurados os pacificadores...." para o homem que é um pacificador em qualquer dos dois sentidos não há nos divinos oráculos nada torto ou perverso, pois eles são todos simples para os que entendem. E porque para um tal não há nada torto ou perverso, ele vê abundância de paz em todas as Escrituras, inclusive naquelas que parecem estar em conflito e em contradição umas com outras. E da mesma forma se torna um terceiro pacificador enquanto demonstra que aquilo que a outros lhes parece um conflito nas Escrituras não é tal, e exibe a concórdia e a paz delas, seja das Antigas Escrituras com as Novas, seja da Lei com os Profetas, ou dos Evangelhos com as Escrituras Apostólicas, ou das Escrituras Apostólicas entre si.


... quem vem instruído na música de Deus, sendo um homem sábio em palavra e obras, como outro David...apresentará o som da música de Deus, tendo aprendido deste a pulsar as cordas no tempo correcto, ora as cordas da Lei, ora as cordas do Evangelho em harmonia com elas, e novamente as cordas Proféticas e, quando a razão o exige, as cordas Apostólicas que estão em harmonia com as Proféticas, e de igual modo as Apostólicas com aquelas dos Evangelhos. Pois ele sabe que toda a Escritura é um instrumento de Deus perfeito e harmonizado, o qual a partir de diversos sons liberta uma voz de salvação para aqueles dispostos a aprender, que detém e restringe toda a obra de um mau espírito, tal como a música de David punha a repousar o espírito mau em Saul, o qual também o estava sufocando. Vemos, então, que ele é em terceiro lugar um pacificador, que vê de acordo com a Escritura a paz de toda ela, e implanta esta paz naqueles que buscam correctamente e fazem distinções adequadas num espírito genuíno.

De Principii, 4

Não observo que seja grandemente confirmado pela autoridade da sagrada Escritura; ao passo que, em relação aos restantes dois, se encontra um considerável número de passagens nas sagradas Escrituras que parecem passíveis de ser-lhes aplicados.

De Principii 4,1,9


Ora, a razão da apreensão errónea de todos estes pontos por parte daqueles que mencionei acima não é outra senão esta: que a santa Escritura não é entendida por eles segundo o seu significado espiritual, mas literal. E portanto nos esforçaremos ... em assinalar aos que crêem que as sagradas Escrituras não são composições humanas, mas escritas por inspiração do Espírito Santo, e transmitidas a nós pela vontade do Pai, através do seu Filho unigénito Jesus Cristo, o que nos parece a nós ... ser a norma e disciplina entregue aos Apóstolos por Cristo Jesus, a qual eles transmitiram em sucessão à sua posteridade, aos mestres da Santa Igreja.

De Principii 4:15

Ora, tudo isto, como sublinhámos, foi feito pelo Espírito Santo para que, vendo que aqueles eventos que jazem na superfície não podem ser nem verdadeiros nem úteis, possamos ser guiados à investigação daquela verdade que está oculta mais profundamente, e à afirmação de um significado digno de Deus naquelas Escrituras que cremos inspiradas por Ele.

De Principii 4:16

O Espírito Santo, porém, não cuidou apenas, desta forma, as Escrituras compostas até ao advento de Cristo; mas sendo um e o mesmo Espírito, e procedendo de um mesmo Deus, procedeu de igual modo com os evangelistas e apóstolos.

Contra Celso III, 33

Ao passo que a divindade de Jesus é estabelecida tanto pela existência das Igrejas dos salvos, como pelas profecias expressas concernentes a Ele, e pelas curas produzidas em Seu nome, e pela sabedoria e conhecimento que há n`Ele, e as verdades mais profundas que são descobertas por aqueles que sabem como ascender de uma fé simples, e investigar o significado que subjaz nas Escrituras divinas, conforme as admoestações de Jesus, que disse «Esquadrinhai as Escrituras» e o desejo de Paulo, que ensinou que «devemos saber como responder a todo o homem», sim, e também de quem disse «estai sempre preparados para dar um resposta a todo aquele que vos pedir a razão da fé que há em vós.»


Atanásio (c. 296–373)

Contra os Gentios, 1:3  

As sagradas e inspiradas Escrituras são totalmente suficientes para a proclamação da verdade.

Cirilo de Jerusalém (313-386)

Leituras Catequéticas, 4:17
A respeito dos divinos e sagrados mistérios da Fé, nem mesmo uma afirmação ocasional deve ser feita sem as Sagradas Escrituras; nem devemos ser desviados por mera plausibilidade e artifícios de linguagem. Mesmo a mim, que vos digo estas coisas, não deis absoluto crédito, a menos que recebais a prova das coisas que eu anuncio das Divinas Escrituras. Pois esta salvação em que nós acreditamos não depende de raciocínios engenhosos, mas da demonstração das Sagradas Escrituras. 
Basílio de Cesareia [o Grande; 329-379]

NPNF, 2nd Series, Prolegomena, 2. Works, 3. Ascetic, iii

Devemos examinar cuidadosamente até que ponto a doutrina que nos é oferecida é conforme a Escritura, e em caso contrário, rejeitá-la. Nada deve acrescentar-se às palavras inspiradas de Deus; tudo quanto está fora da Escritura não é de fé, mas é pecado.

Sobre o Espírito Santo, 7.16

Nós não estamos satisfeitos simplesmente porque isto é a tradição dos Padres. O que é importante é que os Padres
seguiram o significado da Escritura.

Gregório de Nissa (ca 335-394)

Tratado Dogmático sobre a Fé

E pode-se achar multidões de outras provas das Escrituras de que todos os atributos supremos e divinos que são aplicados pelas Escrituras ao Pai e ao Filho contemplam-se igualmente no Espírito Santo... o Espírito Santo não é chamado o Pai, ou o Filho; mas todos os outros nomes pelos quais o Pai e o Filho são nomeados são aplicados pela Escritura também ao Espírito Santo.

Da alma e da ressurreição

"Não nos está permitido afirmar o que nos aprouver. A Sagrada Escritura é, para nós, a norma e a medida de todos os dogmas. Aprovamos somente aquilo que podemos harmonizar com a intenção destes escritos."; "há algo mais confiável que qualquer destas conclusões artificiais, a saber, o que assinalam os ensinamentos da Sagrada Escritura; e assim eu considero necessário averiguar, além do que se disse [uma discussão metafísica] até que ponto este ensinamento inspirado harmoniza com tudo isso." (NPNF, 2nd Series, 5:439)

Ambrósio (340–397)

Sobre os Deveres do Clero, 1:23:102

Pois como podemos adoptar aquelas coisas que nós não encontramos nas sagradas Escrituras?

Jerónimo (345-419), tradutor da Vulgata e o mais erudito do seu tempo

Adversus Helvetium

É uma arrogância criminosa acrescentar algo às Escrituras; o que está escrito, crê-o; o que não está escrito, não o busques.

Agostinho de Hipona (354-430)

O ilustre bispo pôs fim à sua controvérsia com os donatistas com o seguinte argumento:

... nada mais queremos ouvir de «tu dizes» e «eu digo», mas ouçamos o «Assim diz o Senhor». Indubitavelmente existem Livros do Senhor, a cuja autoridade ambos damos nosso consentimento, submissão e obediência; neles pois busquemos a igreja, e neles discutamos a nossa disputa."

Confissões VI, 5: 2-3

Persuadiste-me de que não eram de repreender os que se apoiam na autoridade desses livros que Tu deste a tantos povos, mas antes os que neles não crêem... Porque nessa divina origem e nessa autoridade me pareceu que devia eu crer... Por isso, sendo eu fraco e incapaz de encontrar a verdade só com as forças da minha razão, compreendi que devia apoiar-me na autoridade das Escrituras; e que Tu não poderias dar para todos os povos semelhante autoridade se não quisesses que por ela te pudéssemos buscar e encontrar...

10 homílias sobre 1 João. Hom 2

Convém-nos ouvir com diligentíssima atenção todas as coisas que se lêem das Santas Escrituras para a nossa instrução e salvação. No entanto, sobretudo devem ser encomendadas à nossa memória aquelas que são mais fortes contra os hereges; cujos desígnios insidiosos não cessam de enganar os que são mais fracos e mais negligentes.

Contra Pelágio (4, 3, 14)

Uma vez que, porém, como já assinalei, estamos acostumados no nosso uso corrente das palavras, a designar todas aquelas Escrituras da lei e dos profetas que foram dadas antes da encarnação do Senhor sob o nome e título de Antigo Testamento, que homem que esteja pelo menos moderadamente informado no léxico eclesiástico pode ignorar que o reino dos céus poderia de igual maneira ser prometido naquelas primitivas Escrituras como no próprio Novo Testamento, ao qual pertence o reino dos céus?

Um tratado sobre a alma e a sua origem, 4,14

Mas apesar das perguntas que surgem respeitantes à origem das almas serem "mais elevadas", sem dúvida, do que a que trata da fonte do fôlego que inalamos e exalamos, tu crês no entanto que são mais elevadas aquelas coisas que aprendeste fora das Sagradas Escrituras, das quais derivamos o que aprendemos por fé; e como tais não são detectáveis por nenhuma mente humana... Ora, estes assuntos, aos quais chamei como mais excelentes e como melhores, não poderíamos de modo algum descobri-los, a menos que acreditemos neles pelo testemunho das Escrituras inspiradas.

Sobre a Doutrina Cristã II, 2,3

Desejamos, pois, considerar e discutir este género de sinais na medida em que os homens se relacionam com eles, porque também os sinais que nos foram dados de Deus, e que estão contidos nas Sagradas Escrituras, vieram ao nosso conhecimento através de homens – aqueles, a saber, que escreveram as Escrituras.


Sobre a Doutrina Cristã II, 7, 10

Depois destes dois passos de temor e piedade, chegamos ao terceiro passo, o conhecimento, do qual me proponho agora tratar. Porque neste todo o estudante diligente das Sagradas Escrituras se exercita a si mesmo, para não encontrar nada mais nelas senão que Deus deve ser amado por Si mesmo, e o nosso próximo por causa de Deus... É pois necessário que antes de tudo cada homem encontre nas Escrituras que ele, por ter sido enredado pelo amor deste mundo – ou seja, das coisas temporais – foi extraviado para muito longe do amor por Deus e pelo próximo que ensinam as Escrituras. Então aquele temor que o leva a pensar no juízo de Deus, e aquela piedade que não lhe deixa opção senão a de crer e submeter-se à autoridade da Escritura, o obrigam a lamentar-se da sua condição. Porque o conhecimento de uma boa esperança não faz um homem presunçoso, mas pesaroso.

Sobre a Doutrina Cristã II, 6,5

E daí ocorreu que até a Sagrada Escritura, que traz um remédio para as terríveis doenças da vontade humana, sendo inicialmente estabelecida numa linguagem, por meio da qual poderia no momento propício ser espalhada por todo o mundo, foi traduzida em várias línguas, e disseminada amplamente, e assim se tornou conhecida às nações para sua salvação. E ao lê-la, os homens não procuram nada mais do que encontrar o pensamento e a vontade daqueles por quem foi escrita, e através deles encontrar a vontade de Deus, segundo a qual crêem que esses homens falaram.

Sobre a Doutrina Cristã II, 9, 14

Em todos estes livros aqueles que temem a Deus e são de humilde e pia disposição procuram a vontade de Deus. E ao prosseguir esta busca a primeira regra a ser observada é, como disse, conhecer estes livros, se ainda não com o entendimento, lê-los pelo menos para memorizá-los, ou pelo menos para se não permanecer completamente ignorantes deles. Depois, aqueles assuntos que estão claramente especificados neles, sejam regras de vida ou regras de fé, devem ser buscados mais cuidadosa e diligentemente; e quanto mais disto descobre um homem, mais capaz se torna o seu entendimento. Pois entre as coisas claramente dispostas nas Escrituras se encontrarão todos os assuntos que dizem respeito à fé e aos costumes.

Sermões, 1:35

Mas, acima de tudo, recorda isto: não sejas perturbado pelas Escrituras que ainda não entendes, nem te envaideças pelo que entendes; mas espera submissamente pelo que não entendes e ao que entendes, aferra-te com caridade.


Um tratado sobre a correcção dos donatistas, 1:2

Não permitas, porém, que coisas como estas te perturbem, meu amado filho... Pois é-nos anunciado que é necessário que existam heresias e pedras de tropeço, para que possamos ser instruídos entre os nossos inimigos; e para que assim tanto a nossa fé como o nosso amor possam ser mais aprovados – a nossa fé, a saber, que não sejamos enganados por eles; e o nosso amor, para que nos esforcemos até ao máximo para corrigir aqueles que erram; não só cuidando que não prejudiquem os fracos, e que os erráticos possam ser desviados dos seus próprios erros, mas também orando por eles, para que Deus abra o seu entendimento, e possam compreender as Escrituras. Pois nos livros sagrados, onde o Senhor Cristo é manifestado, está também declarada a Sua Igreja; mas eles, com surpreendente cegueira, enquanto nada sabem de Cristo excepto o que se revela nas Escrituras, ainda assim formam a sua noção da Igreja d'Ele vinda da vaidade da falsidade humana, em vez de aprenderem o que está na autoridade dos livros sagrados.


As cartas de Petiliano o donatista, III, 7

Porque não me instruiu [Jesus] com a Sua palavra, sem confirmar-me também com o Seu exemplo. Segue a fé das sagradas Escrituras, e descobrirás que Cristo ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu, se sentou à destra do Pai.


João Cassiano (c. 370 – 435)

Sobre a Encarnação, contra Nestório (4,9)

Mas uma vez que até este ponto fizemos uso mais particularmente do testemunho, comparativamente novo, de evangelistas e apóstolos, tragamos agora o testemunho dos antigos profetas, misturando por vezes coisas novas com velhas, para que todos possam ver que as Sagradas Escrituras proclamam, como se fosse com uma só voz que Cristo haveria de vir na carne, com um corpo próprio completo.

Teodoreto de Ciro (393-457)

Hist Ecl 4,3

A verdadeira e piedosa fé em nosso Senhor Jesus Cristo foi tornada clara para todos tal como é conhecida e lida das Santas Escrituras. Nesta fé os santos mártires foram aperfeiçoados, e agora, ausentes, estão com o Senhor.


Diálogos, 1

Eu cederei somente à Escritura.

João Crisóstomo (347-407)

Homilia 49 sobre Mateus

As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica, sem a autoridade das Escrituras, são castigadas pela espada de Deus.

Homilia 29 sobre os Actos (13: 16s)

Exorto-vos e rogo-vos que não penseis que basta ter invadido a Igreja, mas também que vos retireis daqui tendo tomado algo, alguma medicina, para a cura das vossas próprias enfermidades; e, se não de nós, em todo o caso, das Escrituras tendes os remédios adequados para cada uma.


Homilia 37 sobre os Actos (17:1-3)

(Recapitulação.) "Por três sábados" diz, sendo o tempo em que descansavam do seu trabalho, "arrazoou com eles, abrindo-lhes as Escrituras" (v. 2): pois assim costumava também fazê-lo Cristo: como em muitas ocasiões, o encontramos arrazoando a partir das Escrituras, e não em todas as ocasiões (exortando os homens) por milagres. Porque perante isso decerto eles adoptavam uma postura de hostilidade, chamando-lhes enganadores e impostores; mas Ele que persuadia os homens por razões provenientes da Escritura, não está exposto a essa acusação.


Duas homilias sobre Eutrópio (Hom 2)

O jardim está confinado a um lugar, mas as Escrituras estão em todas as partes do mundo; o jardim está sujeito às condições das estações, mas as Escrituras são ricas em folhagem, e cheias de fruto tanto no inverno como no verão. Prestemos portanto diligente atenção ao estudo da Escritura; porque se o fizeres, ela expulsará a tua desesperação, e gerará prazer, extirpará o vício, e fará que se enraíze a virtude, e no tumulto da vida te salvará de sofrer como aqueles que são sacudidos por turbulentas ondas. O mar ruge mas tu navegas com tempo calmo, pois tens o estudo das Escrituras como teu timoneiro; pois este é o cabo que as provas da vida não podem cortar.

10 comentários:

  1. Aqui está uma boa citação de J. N. D. Kelly:

    «A mais clara demonstração do prestígio desfrutado pela (Escritura) é o fato de que quase todo o esforço teológico dos Padres, quer os seus objetivos fossem polémicos ou construtivos, foi despendido no que equivalia à exposição da Bíblia. Além disso, estava em toda parte dado como certo que, para qualquer doutrina ganhar aceitação, tinha primeiro que estabelecer-se a sua base Escritural» (Early Christian Doctrines, San Francisco: Harper & Row, 1978, pp. 42, 46).

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  2. Agora, uma boa frase de um dos Padres da Igreja, sobre a autoridade que a Santa Igreja Católica Apostólica Romana possui:
    Santo Agostinho:
    "Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica"
    (Santo Agostinho - Contra Manichaei. v, 6).

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    1. Tendo em vista que as escrituras neotestamentária é o deposito dos ensino de Jesus, a igreja que as

      coloca no seu seio, para legislar em questão de fé e prática, verdadeiramente, esta Igreja tem

      autoridade, pois vive dos ensino de Jesus que consta nas escrituras.

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  3. Desde quando é que nessa frase de Agostinho Igreja Católica significa Igreja Católica Apostólica Romana?

    Esta declaração de Agostinho compreende-se neste sentido. Que ele só creu no Evangelho porque o ouviu da Igreja, caso contrário nunca creria no Evangelho porque nem o conhecia.

    A Igreja Universal tem autoridade para pregar o Evangelho conforme a afirmação de Paulo que a Igreja é coluna e fundamento da verdade (não a própria verdade), e foi chamada a ser proclamadora e mestra do Evangelho. Portanto nada a objectar à declaração de Agostinho.

    Já tinha a impressão que os Luteranos se tinham corrompido não sabia era que a magnitude de tal corrupção era tão grande :)

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    1. Tenho minhas dúvidas se de fato esse é um Luterano, talvéz pode ser um Fake, se passando pelo mesmo

      Abraços.

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  4. Sei suficientemente bem ser comumente citada a declaração de Agostinho na
    qual ele só creria no evangelho se a autoridade da Igreja o movesse isso. Entretanto,
    é fácil de depreender, pelo próprio contexto, quão errônea e cavilosamente é ele
    citado neste sentido. O fato é que ele estava envolvido com os maniqueus, os quais
    desejavam ser cridos sem controvérsia, quando protestavam, sem que o comprovasse,
    que tinham a verdade. De fato, visto que, para fomentarem confiança em seu
    Mani, apelavam para o evangelho, pergunta Agostinho: que haveriam eles de fazer
    se porventura se defrontassem com um homem que realmente não cresse no evangelho?
    Com que gênero de argumentação haveriam de conduzi-lo a seu ponto de vista?
    Acrescenta, a seguir: “Eu, na verdade, não creria no evangelho” etc., querendo
    com isso dizer que, enquanto era estranho à fé, não poderia ser levado de outra
    maneira a abraçar o evangelho como a verdade infalível de Deus se não fosse compelido
    pela autoridade da Igreja. E porventura surpreende se alguém, quando ainda
    não conhece a Cristo, se deixa levar pelo respeito humano?

    Portanto, Agostinho não está aqui ensinando que a fé dos piedosos está fundada
    na autoridade da Igreja, nem entende que daí dependa a certeza do evangelho. Mas
    está simplesmente ensinando que para os infiéis não haveria nenhuma certeza do
    evangelho, para que sejam daí ganhos para Cristo, a não ser que o consenso da
    Igreja os force. E isto ele confirma um pouco antes não de forma obscura, falando
    assim: “Quando eu tiver louvado o que creio e tiver escarnecido o que crês, o que
    pensas que devamos julgar, ou que devamos fazer, senão desertarmos àqueles que
    nos convidam a conhecer coisas seguras, e depois ordenam que creiamos coisas
    incertas e sigamos aqueles que antes nos convidam a crer o que ainda não somos
    capacitados a ver, de sorte que, feitos mais ousados pela própria fé, façamos jus a
    entender o que cremos, estando a firmar e iluminar-nos interiormente não mais o
    espírito dos homens, mas o próprio Deus?”

    São estas, textualmente, as palavras de Agostinho, das quais qualquer um pode
    concluir prontamente que o santo varão não tivera esta intenção: que fizesse pendente
    da autoridade ou do arbítrio da Igreja a fé que temos nas Escrituras; ao contrário,
    que apenas indicasse, o que também confessamos ser verdadeiro, que aqueles
    que ainda não foram iluminados pelo Espírito de Deus são induzidos à docilidade
    pela reverência à Igreja, para que porfiem em aprender do evangelho a fé em Cristo.
    E assim é que, desse modo, a autoridade da Igreja é, a seu ver, a preparação pela
    qual somos predispostos para a fé do evangelho. Portanto, como estamos vendo, ele
    quer que a certeza dos piedosos se assente em fundamento bem diverso.

    João Calvino, Institutas da Religião Cristã, 1.7.3

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  5. O pensamento de Agostinho sobre este assunto é interessante, uma vez que representa uma síntese dos demais Padres da Igreja. Por um lado, ele reconhecia que a Igreja possuía costumes extra-bíblicos:

    "Com relação a outras coisas que mantemos pela autoridade, não da Escritura, mas da tradição, e as quais são observadas ao redor do mundo todo, pode-se entender que elas são mantidas como aprovadas e instituídas ou pelos próprios Apóstolos ou por Concílios plenários - cuja autoridade na Igreja é bastante útil -, isto é, a comemoração anual, por solenidades especiais, da morte, ressurreição e ascensão do Senhor, e a descida do Espírito Santo do céu, e qualquer outra coisa que seja observada por toda a Igreja onde quer que esteja estabelecida. (...) Há outras coisas, no entanto, que variam de acordo com lugares e países.... A respeito dessas coisas e de todas as observâncias que variam, há liberdade de aceitá-las ou não, de acordo com sua escolha" (Carta a Januário).

    O contexto trata apenas de práticas (costumes, observâncias, tendo como exemplo a celebração da Páscoa) e não de doutrinas. Apesar de Agostinho atribuir a tais costumes a autoridade da Igreja - conforme ele diz: ou pelos Apóstolos ou pelos Concílios - não seria correto dizer que possuem a mesma autoridade da Sagrada Escritura.

    Quando o assunto é doutrina, Agostinho deixa claro que a Bíblia contém todo o necessário para a salvação:

    "Em todos estes livros [da Bíblia] aqueles que temem a Deus e são de disposição pacífica e piedosa buscam a vontade de Deus. No empreendimento dessa busca, a primeira regra a observar, como disse, para conhecer estes livros, se não ainda com entendimento, é lê-los de modo a guardar tudo na memória, ou pelo menos de modo a não permanecer totalmente ignorante deles. A seguir, aquelas matérias que são estabelecidas claramente neles, sejam regras de vida ou regras de fé, devem ser buscadas de forma mais cuidadosa e mais diligente; e quanto mais dessas coisas um homem descobre, mais fácil torna-se seu entendimento. Pois, ENTRE AS COISAS QUE ESTÃO CLARAMENTE DISPOSTAS NA ESCRITURA ENCONTRAM-SE TODAS AS MATÉRIAS A RESPEITO DA FÉ E DA MANEIRA DE VIVER - a saber, esperança e amor, do que falei no livro anterior. Depois disso, quando nos tornamos mais familiarizados com a linguagem da Escritura, devemos começar a olhar e investigar as passagens obscuras, e então tirar exemplos das passagens mais claras para jogar luz sobre as mais obscuras, e usar a evidência das passagens a respeito das quais não há dúvida para remover a hesitação a respeito das passagens dúbias. E nesse trabalho a memória conta muito" (Da Doutrina Cristã, II, 9).

    Ele também via a Escritura como autoridade última e suprema, inclusive ensinando que Concílios ecumênicos podem ser corrigidos:

    "(...) o cânon sagrado da Escritura, do Antigo e do Novo Testamentos, está guardado em seus próprios limites, e paira tão absolutamente acima de todas as cartas dos Bispos, e que não podemos ter qualquer dúvida ou disputa de que seu conteúdo é verdadeiro e certo, enquanto todas as cartas dos Bispos já escritas, ou que estejam sendo escritas, desde o fechamento do cânon, são sujeitas a serem refutadas (...). E mesmo entre os Concílios plenários, os mais antigos são frequentemente corrigidos pelos que os seguem" (Sobre o Batismo, 2, 3, 4).

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  6. Agostinho também ensinou que a Igreja deve ser provada pela Bíblia:

    "Não devemos ouvir: Isso eu digo, isso você diz; mas: assim disse o Senhor. Certamente são os livros do Senhor em cuja autoridade ambos concordamos e cremos. Neles devemos buscar a Igreja, neles devemos discutir nosso caso... Removamos essas coisas que citamos uns contra os outros, não dos livros canônicos, mas de nós mesmos. Alguém poderia perguntar: Por que você quer remover essas coisas? Porque não quero a Santa Igreja provada por documentos humanos, mas sim pelos oráculos divinos" (Da Unidade da Igreja, Cap. 3).

    "Que mostrem a Igreja deles, se puderem, não por discursos e murmúrios dos africanos, nem pelos Concílios de seus Bispos, nem pelos escritos de qualquer um dos seus heróis, nem por sinais e maravilhas fraudulentos, pois temos sido preparados e cuidadosos contra tais coisas pela palavra do Senhor; mas [mostrem a Igreja] por um mandamento da Lei, pelas predições dos profetas, pelas canções dos Salmos, pelas palavras do próprio Pastor, pela pregação e trabalho dos evangelistas; ou seja, por todas as autoridades canônicas dos Livros Sagrados" (Cap. 16).

    "Eles devem provar seu caso pelos livros canônicos da divina Escritura somente, pois não dissemos que devemos acreditar porque estamos na Igreja de Cristo, porque Optato de Milevi, ou Ambrósio de Milão, ou inumeráveis outros bispos da nossa comunhão apoiaram a igreja na qual estamos, ou porque ela é defendida nos concílios ou porque em todo o mundo as orações são respondidas e curas acontecem" (Cap. 19).

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    1. Excelente Ricardo, é isso aí!

      O seu blogue "Vozes da Igreja" está a ficar um belo acervo de citações patrísticas.

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  7. Em vários sites católicos usa-se a seguinte citação de Atanásio para supostamente demonstrar que este Padre da Igreja defendia a Tradição extra-bíblica como outra fonte de revelação, e rejeitava a Sola Scriptura.

    - "É coisa muito útil investigar a antiga TRADIÇÃO, a doutrina e a fé da IGREJA CATÓLICA, AQUELA QUE O SENHOR NOS ENSINOU, a qual os Apóstolos pregaram e os Padres conservaram. Nela, com efeito, está o fundamento da Igreja. Se alguém se afasta dessa doutrina, de maneira nenhuma poderá sequer ser chamado de cristão" (1ª Carta a Serapião de Thmuis 1,28).»

    DEFENDAMOS O GRANDE ATANÁSIO DAS DETURPAÇÕES DOS APOLOGISTAS ROMANOS

    É uma pena que o apologista de Roma não continuasse a citação, pois a seguir Atanásio explicita a que se refere com esta alusão à Tradição que, à primeira vista, parece abarcar todo o pacote abraçado por Trento catorze séculos mais tarde.

    “Há uma Trindade, santa e perfeita, reconhecida como Deus, em Pai, Filho e Espírito Santo, que nada tem de alheio ou externo misturado nela, nem composta de um formador e um originado, mas inteiramente criativa e formadora ... e assim é pregado na Igreja um Deus, “que é sobre todos, e por todos, e em todos [Efésios 4:6; Cf. 1 Cor 15:28; Col 3:11]...”. E porque esta é a fé da Igreja, que eles de alguma maneira entendam que o Senhor enviou os Apóstolos e lhes mandou fazer desta o fundamento da Igreja, quando disse: «Ide e ensinai todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» [Mateus 28:19]”

    Ou seja, o bispo de Alexandria não se refere a ensinos apostólicos extra-escriturais, mas ao modo em que a Igreja universal corretamente compreendia as Escrituras e professava a doutrina da Trindade. Um ensino semelhante pode encontrar-se na Terceira Epístola Festal (Páscoa de 331).

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