terça-feira, 20 de outubro de 2009

A EUCARISTIA


Se quisermos adquirir uma compreensão correcta do significado e importância da Eucaristia ou Ceia do Senhor, devemos começar pelas referências escriturais primárias:

Mateus 26: 26-29

Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue do pacto, o qual é derramado por muitos para a remissão dos pecados. Mas digo-vos que desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de meu Pai.

Marcos 14: 22-25

Enquanto comiam, Jesus tomou pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: Tomai; isto é o meu corpo. E tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue do pacto, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até aquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.

Lucas 22: 14-20

E, chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Desejei ardentemente comer convosco esta páscoa, antes de padecer; porque vos digo que não comerei mais dela até que se cumpra no reino de Deus. Depois tomou um cálice, e tendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós, porque vos digo que desde agora não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto em meu sangue, que é derramado por vós.

1 Coríntios 11: 23-34

Porque eu recebi do Senhor o ensino que também vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei. Isto é o meu corpo que por vós é partido; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que coma este pão e beba este cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice. Porque o que come e bebe, não discernindo o corpo, juízo come e bebe para si. Por isso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. Mas se nos examinássemos bem a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas sendo julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para que não sejamos condenados com o mundo. Assim que, meus irmãos, quando vos reunais para comer, esperai uns pelos outros. Se alguém tem fome, coma em sua casa, para que não vos reunais para juízo. As demais coisas as porei em ordem quando chegar.

Dos relatos dos Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) sabemos que, no contexto de uma ceia pascal, Jesus tomou pão, deu graças a Deus, o partiu e o deu aos seus discípulos dizendo "Isto é o meu corpo." Também agradeceu pelo cálice de vinho, e lhes mandou beber. Mateus e Marcos nos informam que o Senhor disse "Isto é o meu sangue do pacto..."

Os católicos romanos crêem que as palavras de Cristo devem tomar-se num sentido completamente literal, ou seja, que Jesus verdadeiramente transformou o pão e o vinho em Seu corpo e Seu sangue, Sua alma e Sua divindade.

Os principais argumentos a favor desta opinião são:

1. O próprio texto, ou seja, as palavras da instituição.

2. As circunstâncias: Cristo não haveria de ser ambíguo nem de extraviar os seus discípulos nesta solene instância.

3. As consequências práticas derivadas por Paulo a partir das palavras da instituição (1 Cor 11:27ss).

4. O fracasso dos argumentos contra uma interpretação literal. Embora em algumas passagens o verbo "ser" tenha um sentido figurativo, nestes casos isso é evidente (por exemplo, "o campo é o mundo", Mateus 13:38).

[Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, 6th Ed, pp. 557s].

A estes argumentos pode responder-se, por ordem:

1. Os próprios textos têm várias indicações que mostram que não deve interpretar-se como uma transubstanciação literal do pão e do vinho na carne e no sangue do Senhor. Quando, segundo Lucas, o Senhor disse "Isto é o meu corpo que por vós é dado. Fazei isto em memória de Mim", a crucificação não havia ocorrido ainda, e portanto Jesus estava a referir-se a um acontecimento ainda futuro. O mesmo é verdade acerca do vinho, uma vez que o Senhor disse que o seu sangue haveria de ser derramado (ou seja, não havia sido derramado ainda durante a última ceia). Alguém também se poderia perguntar como é que o sangue haveria de ser literalmente bebido e literalmente derramado, ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Também segundo o relato de Marcos (seguido também por Mateus), Jesus lhes deu a beber do cálice enquanto Ele mesmo se absteve de beber então do que chamou, naturalmente, "o fruto da videira". Destas palavras do próprio Senhor sabemos que o vinho continuava sendo vinho, e não se havia tornado sangue como o afirma a doutrina romana. Finalmente, segundo o relato de Lucas, em vez de dizer-se que o vinho é o sangue do Senhor, Jesus diz que o cálice é "o Novo Pacto em meu sangue". Obviamente o cálice não é o Novo Pacto, mas o representa; de igual modo o vinho não é o sangue, mas o representa.

2. O mero facto de os discípulos terem comido o pão e terem bebido o vinho sem protesto nem objecção é em si mesmo um poderoso indicador de que não entenderam literalmente as palavras do Senhor. Beber sangue estava absolutamente proibido para um judeu, e os Apóstolos levavam a sério a Lei (cf. Actos 10:9-16 e 15:19-29). Certamente Jesus saberia melhor do que qualquer teólogo se os seus discípulos necessitavam de maior explicação acerca de um acto que, por sua própria natureza, tinha obviamente de ser tomado em sentido não literal.

3. As consequências práticas derivadas por Paulo certamente não exigem um entendimento literal das palavras da instituição da Eucaristia. É um facto que, para o Senhor, as questões espirituais eram de importância primária; Jesus ensinou que o ódio não era melhor do que o homicídio, e a luxúria não era menos do que o adultério. Portanto, não há dificuldade alguma em admitir que podem derivar-se consequências graves de participar indignamente da Eucaristia sem necessidade de supor a transformação física do pão e do vinho na carne e no sangue de Jesus.

4. Jesus disse: "Eu sou a porta das ovelhas"; "Eu sou o caminho", "Eu sou a videira verdadeira", "Eu sou o alfa e o ómega". Sem dúvida que todas estas são evidentemente imagens. Não deveria ser menos evidente que o chamado a participar da carne e do sangue de Jesus é uma imagem de uma realidade espiritual e não deve de ser entendido em sentido grosseiro. Quem não entendeu isso? Os pagãos que criam que os cristãos praticavam o canibalismo.

Os escritores cristãos primitivos, como Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Ireneu de Lyon falaram da Eucaristia numa linguagem que é compatível com a crença numa presença física, mas que, dada a sua forma habitual de expressar-se, de modo algum a exige.

No terceiro século da nossa era, Tertuliano, Hipólito e Cipriano avançaram na mesma direcção. Tertuliano aludiu ao pão como uma figura do corpo. Contudo, Cipriano pensava também a Eucaristia como um sacrifício, embora espiritual e incruento, oferecido pela Igreja como Corpo de Cristo e identificada com o seu Senhor. Gregório de Nissa, Cirilo e João Crisóstomo, e em particular Ambrósio de Milão (339-397) se inclinaram para uma presença física real, ou seja algum tipo de transformação verdadeira dos elementos, pão e vinho, na carne e no sangue de Cristo. Estes desenvolvimentos formaram a base da doutrina católica actual, que exige um sacerdócio especial para realizar o sacrifício.

Entretanto, outros mestres entenderam a Eucaristia num sentido mais espiritual; por exemplo, Orígenes, Basílio e Gregório de Nazianzo. O pão e o vinho eram para eles símbolos de uma realidade espiritual que estava verdadeiramente presente de modo misterioso. Na mesma linha, Agostinho de Hipona (354- 430) "enfatizou a distinção entre o símbolo e a coisa significada, as realidades visíveis e invisíveis, sendo as últimas apreensíveis somente pela fé." [International Standard Bible Encyclopedia 3:167]. As opiniões de Agostinho foram elaboradas por Ratramnus no século IX. Contudo, gradualmente esta interpretação perdeu a batalha numa igreja crescentemente ritualista, e quando no século XI Berengário de Tours a reformulou, os seus ensinamentos foram condenados pela Igreja de Roma.

Um par de séculos antes, Pascasius Radbertus havia formulado a doutrina da transubstanciação, a qual foi sancionada pelo IV Concílio de Latrão de 1215. Pouco depois Tomás de Aquino proveu uma base filosófica baseada em distinções aristotélicas entre substância e acidentes. O assunto foi definitivamente estabelecido para a Igreja de Roma no Concílio de Trento:

"Can. 1. Se alguém negar que no santíssimo sacramento da Eucaristia se contém verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade, de nosso Senhor Jesus Cristo e, portanto, Cristo inteiro; mas disser que só está nele como em sinal e figura ou por sua eficácia, seja anátema." (Cânon 1; Sessão XIII de 11 de Outubro de 1551; Denzinger 883)

Os Reformadores do século XVI adoptaram diferentes pontos de vista acerca da Eucaristia, que se afastavam em medida variável do dogma romanista.

Actualmente há quatro enunciações principais acerca da natureza da Eucaristia:

1. Conceito católico romano: Transubstanciação. Segundo esta crença, pelas palavras da consagração pronunciadas pelo sacerdote, o pão e o vinho se transformam na carne e no sangue de Jesus (a doutrina católica estabelece, além disso, que Cristo está inteiramente presente em cada uma das espécies). Sustentar esta doutrina exige crer que cada vez que se celebra uma missa se produzem dois milagres. O primeiro é que as palavras da consagração operam a suposta transformação; e o segundo, não menos surpreendente, é que produzida a transformação da substância os atributos externos ("acidentes", aparências: cor, consistência, sabor, cheiro) permanecem absolutamente imutáveis. É interessante que, por exemplo, Ambrósio ensinasse a presença real (física) baseado noutros milagres realizados por Jesus, como a transformação da água em vinho em Caná da Galileia. Contudo, todos os milagres realizados por Jesus e pelos Apóstolos tiveram resultados imediatos e evidentes. Em Caná, as pessoas provaram vinho que tinha a cor de vinho, cheirava como vinho e sabia como vinho. Ninguém levaria a sério um suposto milagre sem consequências perceptíveis. Além disso, a transubstanciação implica um novo sacrifício, incruento e subordinado ao sacrifício da cruz, mas sempre sacrifício, oficiado por um sacerdote como representante da Igreja, repetido inumeráveis vezes quando Hebreus estabelece claramente que o efeito do único sacrifício de Cristo é perdurável e não requer nem admite repetição. Finalmente, a crença na transubstanciação leva à conclusão lógica de que os elementos consagrados se tornam em objectos de adoração, um costume que não tem absolutamente nenhuma base no Novo Testamento.

2. Conceito luterano: Consubstanciação. Martinho Lutero modificou a doutrina romanista e rejeitou enfaticamente a adoração dos elementos consagrados. Contudo, na sua opinião o corpo e o sangue de Cristo estavam verdadeiramente presentes em, com e sob a forma do pão e do vinho durante a celebração do sacramento, de novo com base numa interpretação muito literal das palavras de Jesus.

3. Conceito calvinista: Calvino ensinou que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia, mas de maneira espiritual – em oposição a uma presença física - e que portanto o pão e o vinho são fontes de poder e santidade para aqueles que participam dignamente deles.

4. Conceito simbólico. Embora às vezes associado ao nome do reformador Ulrico Zwinglio, na verdade este teólogo não negou uma presença espiritual, ainda que a tenha baseado na fé daqueles que partilham a Eucaristia. Algumas Igrejas evangélicas sustentam que o pão e o vinho são exclusivamente símbolos.

Pessoalmente inclino-me para o ponto de vista calvinista, não somente pelas palavras da instituição do próprio Senhor, mas pelo ensino de Paulo acerca das consequências de participar negligentemente da Eucaristia (1 Coríntios 11:23-34). Na minha opinião, estas palavras devem levar-se muito a sério e indicam que Jesus está verdadeiramente presente, embora em sentido espiritual.

Finalmente, ofereço algumas reflexões sobre o significado da Eucaristia.

1. Gratidão pela libertação. Como na páscoa do Antigo Pacto, a acção de graças (eucaristia) pela libertação do pecado é um dos aspectos mais importantes na Ceia do Senhor.

2. Expressão de fé. Paulo afirma que cada vez que celebramos a Eucaristia estamos proclamando a morte expiatória do Senhor, e devemos continuar fazendo-o até à sua segunda vinda em glória e majestade.

3. Comunhão com Deus. Quando recebemos o pão e o vinho é-nos concedida participação nos dons de Deus. A comunhão com Deus é portanto um aspecto importante.

4. Comunhão uns com os outros. A Eucaristia foi desde o princípio um acto comunitário e uma expressão de fraternidade cristã. Portanto, quando a partilhamos expressamos a nossa fé comum e amor uns aos outros.

O resultado de tudo isto é o fortalecimento espiritual das nossas vidas tanto como crentes individuais como no nosso carácter de membros do Corpo de Cristo.

Fernando D. Saraví

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